"Ele sempre conseguia voltar ao jogo, enfrentando até os desafios mais difíceis com determinação, clareza e uma fortaleza incomum." As palavras são da primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, escritas neste sábado (2), horas depois de a família de Alessandro Zanardi confirmar sua morte aos 59 anos — de forma repentina, sem que a causa fosse divulgada. O comunicado oficial, distribuído pela Obiettivo3, a organização que o próprio Alex fundou para apoiar atletas com deficiência, encerrou uma vida que havia dobrado o destino pelo menos duas vezes.

O diagnóstico do momento

Zanardi morreu em 2 de maio de 2026, mas a última vez que o mundo o viu competir foi em 2019, em Emmen, quando conquistou mais um título no Campeonato Mundial de Paraciclismo de Estrada da UCI — o mais recente de uma série que começou em 2007. Em junho de 2020, uma handbike perdida numa descida em estrada aberta na Toscana o lançou contra um caminhão no sentido contrário. O impacto resultou em múltiplas fraturas craniofaciais e em um longo processo cirúrgico que se estendeu por meses. Desde então, a família manteve silêncio sobre seu estado clínico. O ex-piloto completaria 60 anos em outubro. A análise do SportNavo sobre sua trajetória mostra que Zanardi viveu, na prática esportiva, mais do que qualquer prognóstico médico teria autorizado.

"Estou profundamente triste com a morte do meu querido amigo Alex Zanardi. Ele foi verdadeiramente uma pessoa inspiradora, como ser humano e como atleta. Sempre levarei comigo sua força extraordinária", disse Stefano Domenicali, presidente da Fórmula 1.

A FIA também emitiu nota oficial: "A jornada de um acidente que mudou sua vida até se tornar medalhista paralímpico de ouro o transformou em um dos competidores mais admirados do esporte e um símbolo duradouro de coragem e determinação." O presidente da Itália, Sergio Mattarella, destacou que Zanardi "demonstrou uma personalidade extraordinária mesmo após o gravíssimo acidente" de 2020.

Os fatores que explicam o quadro

Para entender o arco completo de Zanardi, é preciso voltar a 15 de setembro de 2001 — e ao oval do EuroSpeedway Lausitz, na Alemanha. Naquela corrida da CART, o carro de Zanardi saiu dos boxes com timing errado durante um pit stop e foi atingido em cheio por Alex Tagliani a pouco menos de 300 km/h. A amputação de ambas as pernas foi necessária. Ele tinha 35 anos e havia conquistado os títulos da CART em 1997 e 1998 pela Chip Ganassi Racing — uma época em que o campeonato norte-americano rivalizava tecnicamente com a própria Fórmula 1, com carros produzindo cerca de 900 cv e rodando ovals a velocidades médias superiores a 350 km/h. Para comparação, os carros de F1 da temporada 1997 — a era de Michael Schumacher na Ferrari e de Jacques Villeneuve campeão pela Williams — geravam força aerodinâmica equivalente, mas não operavam nesse regime de velocidade em traçados ovais. Zanardi dominava os dois universos.

Na Fórmula 1, disputou cinco temporadas entre 1991 e 1999, com passagens por Jordan Grand Prix, Minardi, Team Lotus e Williams — seu melhor resultado foi um sexto lugar no GP do Brasil de 1993. A transição para a CART foi a decisão que revelou sua real dimensão como piloto. Após o acidente de 2001, reconstruiu a vida em camadas: primeiro aprendeu a dirigir com freio e acelerador manuais; depois, em 2003, competiu no Campeonato Europeu de Carros de Turismo com próteses adaptadas aos pedais, somando três vitórias no WTCC ao longo de sua reabilitação.

O paraciclismo, porém, foi onde Zanardi — usando uma handbike propulsionada pelos braços — transformou a desvantagem física em dado de performance. Nos Jogos Paralímpicos de Londres 2012, conquistou duas medalhas de ouro e uma de prata. Quatro anos depois, no Rio 2016, somou mais dois ouros ao currículo, chegando a quatro medalhas douradas paralímpicas no total. O levantamento do SportNavo aponta que nenhum outro atleta da história recente transitou entre o topo do automobilismo profissional e o mais alto nível do esporte paralímpico com esse grau de consistência.

Os cenários possíveis daqui

A morte de Zanardi abre um debate imediato sobre o legado institucional que ele construiu. A Obiettivo3 — organização italiana que fundou após 2012 para identificar e desenvolver atletas com deficiência — segue operando e já formou dezenas de paraatletas que competiram em circuitos europeus e mundiais. A continuidade do projeto depende agora de uma estrutura que Zanardi havia começado a organizar com governança própria, independente de sua presença física.

No automobilismo, a FIA e a Fórmula 1 — que nos últimos anos incorporaram a narrativa de Zanardi como símbolo de segurança e superação — terão de decidir como homenageá-lo formalmente. O GP da Emília-Romanha, que retorna ao calendário da temporada 2026 com data prevista para o segundo semestre, seria o cenário natural para uma homenagem em solo italiano. Bolonha, cidade natal de Zanardi, fica a menos de 40 quilômetros do Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Imola — onde a Fórmula 1 já realizou cerimônias de memória para Ayrton Senna e Roland Ratzenberger. A decisão, agora, cabe à organização da categoria.

"Alex era capaz de transformar cada provação da vida em uma lição de coragem, força e dignidade", escreveu a primeira-ministra Giorgia Meloni em nota oficial divulgada neste sábado.

O ministro do Esporte italiano, Andrea Abodi, declarou que "uma luz extraordinária se apagou". Para além da retórica oficial, o que se apaga de fato é uma presença — a de um homem que, em 1997, fazia a pole em Milwaukee a 380 km/h, e que em 2016, sem as pernas, cruzava a linha de chegada paralímpica no Rio com a mesma frieza técnica de quem nunca deixou de ser piloto.