Quando as luzes do Allianz Parque se acendem para mais uma noite de Libertadores, os números falam por si: em quase cinco anos, o Palmeiras transformou sua casa num verdadeiro santuário intransponível. Desde março de 2019, quando estreou no torneio continental em seu estádio próprio, o Verdão acumula impressionantes 88% de aproveitamento como mandante, com 22 vitórias, 3 empates e apenas 2 derrotas em 27 partidas.

A sequência invicta atual chegou a 18 jogos sem perder em casa pela competição, superando em números absolutos gigantes históricos como Boca Juniors na La Bombonera (82% de aproveitamento nos últimos cinco anos) e River Plate no Monumental (79% no mesmo período). O Flamengo no Maracanã, outro colosso brasileiro, registra 74% de aproveitamento caseiro na Libertadores desde 2019, evidenciando a superioridade estatística do time de Abel Ferreira.

A matemática da supremacia alviverde

Os números ofensivos impressionam tanto quanto os defensivos. Nesse período dourado no Allianz, o Palmeiras marcou 58 gols em 27 partidas (média de 2,15 por jogo) e sofreu apenas 18 tentos (0,67 por partida). Para efeito de comparação, o Boca Juniors em La Bombonera teve média de 1,8 gol marcado e 0,9 sofrido por jogo no mesmo recorte temporal, enquanto o River no Monumental registrou 2,1 marcados e 1,2 sofridos por partida.

A última derrota palmeirense em casa pela Libertadores aconteceu em setembro de 2021, quando o Atlético Mineiro venceu por 1 a 0 na semifinal que levaria o Galo ao título continental. Desde então, foram 18 jogos de invencibilidade, período no qual o time conquistou a Libertadores de 2021 (com vitória sobre o Flamengo na final no Uruguai) e chegou às oitavas de final em 2022, 2023 e 2024.

O laboratório tático de Abel Ferreira

Abel Ferreira, arquiteto dessa supremacia, encontrou no gramado sintético do Allianz Parque o cenário ideal para implementar seu futebol de transições rápidas e pressão alta. O técnico português, que chegou ao clube em outubro de 2020, dirigiu 21 das 27 partidas dessa sequência histórica, com aproveitamento de 90% (18 vitórias, 2 empates e 1 derrota).

"O Allianz é nossa casa, nossa fortaleza. Os jogadores sentem essa energia especial quando jogam aqui pela Libertadores", declarou Abel após a vitória por 4 a 0 sobre o Emelec, em março de 2022.

A capacidade de 43.713 torcedores tem sido fator determinante nesses confrontos continentais. A média de público nas partidas da Libertadores no Allianz supera os 40 mil espectadores, criando uma atmosfera que intimida adversários sul-americanos tradicionalmente mais acostumados com estádios menores e mais próximos do campo, como La Bombonera (capacidade de 54 mil) ou El Cilindro, do Racing (50 mil).

Contexto histórico de uma hegemonia recente

A transformação do Palmeiras numa potência caseira da Libertadores ganhou contornos épicos justamente pela comparação com sua história pregressa na competição. Entre 1999 e 2018, quando mandava seus jogos continentais no Pacaembu e depois no Allianz Arena (emprestado do Corinthians), o clube teve aproveitamento irregular, com eliminações precoces que frustraram gerações de torcedores.

O Boca Juniors, tradicional medida de comparação sul-americana, ostenta em La Bombonera números históricos formidáveis: desde 1990, são mais de 200 jogos pela Libertadores em casa, com aproveitamento superior a 75%. Contudo, nos últimos cinco anos, período de ascensão palmeirense, os números se invertem favoravelmente ao time brasileiro.

"Jogar no Allianz Parque pela Libertadores é diferente de qualquer outro estádio que já enfrentei na América do Sul", admitiu o técnico argentino Marcelo Gallardo após eliminação do River Plate em 2022.

O próximo teste dessa invencibilidade acontece nesta quinta-feira, às 19h, quando o Palmeiras recebe o Sporting Cristal pelas oitavas de final da Libertadores 2024, buscando manter viva uma sequência que já se tornou lenda na moderna história do futebol continental.