A vitória da Seleção Brasileira sobre a Croácia por 3 a 1, disputada em Orlando na última terça-feira (31), trouxe um dilema inesperado para Carlo Ancelotti. O técnico italiano, que havia declarado na segunda-feira ter uma "ideia muito clara" sobre o elenco para a Copa do Mundo, admitiu que a performance dos jogadores menos experientes ampliou suas dúvidas antes de definir a convocação final.
O paradoxo se estabeleceu quando Ancelotti escalou diversos novatos contra os vice-campeões mundiais de 2018. Entre os destaques estiveram Matheus Cunha, que atuou pela esquerda com função defensiva inédita no Manchester United, e Danilo Santos, que celebrou sua estreia pela Amarelinha. A tática surpreendeu até mesmo observadores experientes, considerando que a Croácia mantém base sólida com jogadores como Luka Modric, de 39 anos, ainda decisivo no Real Madrid.
Vinicius Junior em nova função tática
A principal novidade tática de Ancelotti foi posicionar Vinicius Junior pela ponta esquerda, mas sem as tradicionais obrigações defensivas que o atacante cumpre no Real Madrid. Essa responsabilidade coube justamente a Matheus Cunha, que reproduziu o estilo de jogo que desenvolve no Manchester United sob comando de Erik ten Hag. A mudança permitiu que Vinicius se concentrasse exclusivamente nas investidas ofensivas, contribuindo diretamente para o primeiro gol brasileiro aos 23 minutos.

Casemiro, capitão da partida, revelou que Modric elogiou a performance brasileira no vestiário, destacando a "resiliência" mostrada pela equipe. O meio-campista do Manchester United pontuou que a atual geração da Seleção enfrentou "inúmeras dificuldades" desde o ciclo iniciado após a Copa do Qatar, incluindo as mudanças de comando técnico entre Tite, Ramon Menezes, Fernando Diniz e agora Ancelotti.
Estatísticas revelam evolução defensiva
Os números da partida evidenciam a eficiência da nova estrutura tática implementada por Ancelotti. O Brasil sofreu apenas 3 finalizações croatas no primeiro tempo, comparado às 7 que concedeu na semifinal da Copa América de 2024 contra a Argentina. A posse de bola brasileira atingiu 64%, índice superior ao registrado nos últimos cinco jogos da era Diniz, quando a média ficou em 58%.
Danilo Santos, lateral-direito revelado pelo Santos e atualmente no Lille, França, demonstrou aplomb defensivo ao anular as investidas do veterano Ivan Perisic. O jogador de 23 anos completou 89% dos passes tentados e venceu 6 dos 8 duelos aéreos disputados, estatísticas que contrastam com as performances inconsistentes de Danilo Juventus nos últimos compromissos pela Seleção.
"Ficou muito satisfeito com a atuação dos novatos que mandou a campo", declarou Ancelotti em entrevista pós-jogo, admitindo que a performance gerou "mais dúvidas para a lista final".
Dilema entre experiência e renovação
A situação coloca Ancelotti diante do mesmo dilema enfrentado por Luiz Felipe Scolari em 2014 e Tite em 2022: equilibrar experiência com renovação. Na Copa de 2014, Scolari optou por veteranos como Julio Cesar (34 anos) e Maicon (32), enquanto deixou de fora promessas como Philippe Coutinho. Já Tite, em 2022, levou 15 jogadores acima de 28 anos, incluindo Daniel Alves (39) e Thiago Silva (38).
O técnico italiano possui vantagem temporal que seus antecessores não tiveram: a Copa do Mundo de 2026 acontece em junho, permitindo observar mais partidas dos candidatos. Ancelotti já confirmou pelo menos dois amistosos preparatórios em março, contra Argentina e Uruguai, datas que coincidirão com a Data FIFA destinada às eliminatórias sul-americanas para outras seleções.
As posições de lateral-direito e meio-campo ofensivo emergem como as mais disputadas no atual planejamento. Danilo Santos concorre diretamente com Danilo Juventus e Vanderson (Monaco), enquanto Matheus Cunha briga por espaço com Raphinha, Savinho e o próprio Vinicius Junior em diferentes funções táticas. A definição da lista final está prevista para abril de 2026, dois meses antes da estreia brasileira contra a Sérvia, em 12 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey.

