A proximidade de Carlo Ancelotti com o cotidiano do futebol brasileiro representa uma mudança paradigmática na forma como a Seleção avalia seus candidatos. Pela primeira vez desde Telê Santana em 1986, um técnico da Amarelinha tem condições de acompanhar semanalmente o desempenho dos jogadores locais, criando um critério inédito de observação que pode beneficiar ou pressionar atletas como Neymar.

Em entrevista ao jornal francês L'Équipe, Ancelotti deixou claro que sua adaptação ao Brasil vai além do aspecto cultural. O treinador de 65 anos destacou que convive diariamente com o ambiente do futebol nacional, algo que nenhum de seus antecessores recentes experimentou. Esta imersão permite uma análise mais aprofundada do que as tradicionais observações esporádicas em amistosos ou competições europeias.

"Vou convocar quem estiver fisicamente pronto", declarou Ancelotti sobre os critérios para a Copa 2026.

O laboratório Santos sob observação permanente

Neymar, aos 33 anos, encontra-se em situação única na história recente da Seleção. Diferentemente de suas convocações anteriores, quando atuava no Barcelona (2013-2017) ou PSG (2017-2023), o craque agora está sob observação constante de Ancelotti. No Santos, desde fevereiro de 2025, o atacante disputa o Campeonato Paulista e Brasileirão sob os olhos do técnico italiano, que pode avaliar detalhes como adaptação física, liderança em campo e consistência ao longo de uma temporada completa.

Historicamente, jogadores baseados no Brasil enfrentaram desvantagem nas convocações. Durante a era Tite (2016-2022), apenas 23% dos convocados atuavam no futebol nacional, contra 77% no exterior. Dunga, entre 2014-2016, manteve proporção similar: 21% locais versus 79% externos. A gestão Ancelotti pode inverter esta tendência, considerando que o técnico afirmou ao SportNavo sentir uma "conexão rara" com o grupo brasileiro.

O laboratório Santos sob observação permanente Ancelotti avalia Neymar com lupa
O laboratório Santos sob observação permanente Ancelotti avalia Neymar com lupa

Critérios técnicos além dos números tradicionais

A experiência de Ancelotti em clubes como Real Madrid, Milan e Bayern München sugere que sua avaliação transcende estatísticas básicas. No Real Madrid (2021-2024), o italiano privilegiou jogadores com inteligência tática e capacidade de decisão em momentos cruciais, características que podem ser melhor observadas na rotina semanal do que em partidas isoladas da Liga dos Campeões.

Critérios técnicos além dos números tradicionais Ancelotti avalia Neymar com lup
Critérios técnicos além dos números tradicionais Ancelotti avalia Neymar com lup

Neymar, com 79 gols em 128 jogos pela Seleção, possui números que o colocam como segundo maior artilheiro da história nacional, atrás apenas de Pelé (77 gols oficiais pela FIFA). Contudo, sua participação na Copa de 2026 dependerá menos do histórico e mais do presente. Ancelotti demonstrou esta filosofia ao mencionar Thiago Silva, 41 anos, como possível convocado, reforçando que "nunca olha a data de nascimento no passaporte".

Precedentes históricos de técnicos observadores

A última vez que um técnico da Seleção teve contato direto com o futebol brasileiro foi com Carlos Alberto Parreira, que comandou o Fluminense em 2009 antes de retornar à Amarelinha. Parreira convocou 31% de jogadores locais para a Copa de 2010, proporção superior à média dos técnicos subsequentes. Telê Santana, técnico residente no Brasil durante suas passagens (1980-1982 e 1985-1986), chegou a convocar 45% de atletas do futebol nacional para a Copa de 1982.

Ancelotti possui vantagem adicional: sua experiência internacional combinada com imersão local. Diferentemente de Telê, que conhecia profundamente apenas o cenário brasileiro, o italiano pode comparar performances nacionais com padrões europeus que vivenciou recentemente. Esta dualidade pode resultar em convocações mais precisas e menos baseadas em reputação prévia.

"Sinto que é a única seleção que todos amam e tenho a sorte de treiná-la", afirmou Ancelotti sobre sua conexão com o Brasil.

A convocação final está programada para maio de 2025, restando aproximadamente quatro meses de observação intensiva. Neymar disputará cerca de 25 partidas neste período, entre Brasileirão, Copa do Brasil e possíveis competições estaduais, fornecendo amostra estatística robusta para análise de Ancelotti. O Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 em junho, enfrentando adversário ainda a ser definido no sorteio previsto para dezembro de 2025.