A última vez que o Real Madrid passou duas temporadas seguidas sem conquistar nenhum título relevante foi no início dos anos 2000, quando o projeto dos Galácticos de Florentino Pérez produzia estrelas individuais, mas troféus escassos. Agora, em 2026, o clube espanhol enfrenta um déjà vu institucional: vice-campeão na La Liga e sem levantar nenhuma taça de expressão na temporada 2025/26, o Real Madrid acumula pressão interna, conflitos no vestiário e uma dúvida crescente sobre o futuro do técnico Xabi Alonso.
Uma temporada que expôs as rachaduras no Bernabéu
O vice-campeonato na La Liga foi o desfecho de uma temporada marcada por turbulências fora de campo. A briga pública entre Aurélien Tchouaméni e Federico Valverde expôs um vestiário fragmentado, e a coletiva do presidente Florentino Pérez — realizada num tom que analistas espanhóis classificaram como defensivo — não foi suficiente para desviar o foco da crise. Xabi Alonso, contratado para implementar uma filosofia de jogo diferente da que ele mesmo praticou no Bayer Leverkusen, onde conquistou a Bundesliga de forma invicta na temporada 2023/24, não conseguiu replicar o mesmo ambiente de coesão tática no elenco merengue.
O atrito entre o técnico espanhol e as lideranças do plantel alimentou uma narrativa específica: a de que as estrelas do Real Madrid resistem a mudanças táticas por valorizarem a liberdade individual em campo. É exatamente essa narrativa que Carlo Ancelotti foi a público desmentir.
Ancelotti descarta retorno e rebate a narrativa da indisciplina
Em entrevista ao portal The Athletic, o técnico italiano — que deixou o Real Madrid ao fim da temporada 2024/25 para assumir a seleção brasileira — foi direto ao ponto ao ser questionado sobre os rumores de retorno ao Santiago Bernabéu.
"Dá a entender que os jogadores do Real Madrid fazem o que querem. Não é verdade. É uma completa besteira", afirmou Ancelotti, descartando a tese de que o elenco merengue seria ingovernável taticamente.
O italiano também explicou, na mesma entrevista, qual foi o segredo de sua gestão bem-sucedida no clube entre 2021 e 2025 — período em que acumulou 11 títulos, incluindo duas Champions League, duas edições da La Liga, duas Supercopas da Uefa, duas Supercopas da Espanha, um Mundial de Clubes, uma Copa Intercontinental e uma Copa do Rei.
"Quando tenho uma ideia, o jogador tem que fazer parte dela. Não quero impor uma estratégia. Conversar com os jogadores não é sinal de fraqueza. Não quero soldados em campo, quero jogadores convictos do que devem fazer", declarou Ancelotti.
A diferença de abordagem é significativa. Enquanto Alonso chegou ao Bernabéu com um modelo tático mais estruturado e exigente em termos de posicionamento — marca registrada de seu trabalho em Leverkusen —, Ancelotti sempre operou com uma gestão baseada em consenso, funcionando como mediador entre o projeto coletivo e os egos individuais do elenco.
Mourinho entra no radar e o debate sobre substitutos se abre
Ainda na conversa com o The Athletic, Ancelotti foi questionado sobre quem poderia assumir o comando do Real Madrid caso Xabi Alonso deixe o cargo. O italiano citou José Mourinho como uma opção viável, reconhecendo no português a capacidade de lidar com elencos de alto perfil — característica que, segundo o próprio Ancelotti, é indispensável para o cargo.
Mourinho, atualmente sem clube após passagem pelo Fenerbahçe, tem histórico controverso com o Real Madrid: entre 2010 e 2013, conquistou uma La Liga e uma Copa do Rei, mas deixou o clube em meio a conflitos com jogadores como Iker Casillas e Sergio Ramos. Retornar ao Bernabéu seria um movimento de alto risco e alto impacto.
Outros nomes circulam nos bastidores espanhóis, como Pep Guardiola — cujo contrato com o Manchester City se encerra no verão europeu de 2026 — e Jürgen Klopp, que está afastado do futebol desde que deixou o Liverpool em maio de 2024. Nenhum deles, porém, foi mencionado por Ancelotti na entrevista.
O que a crise no Real Madrid significa para a seleção brasileira
Há uma dimensão brasileira nessa história que não pode ser ignorada. Ancelotti assumiu a seleção do Brasil justamente porque o Real Madrid decidiu apostar em Xabi Alonso como sucessor. Com a temporada espanhola encerrada sem títulos e o técnico espanhol sob pressão crescente, surgem especulações sobre se Florentino Pérez tentaria repatriar o italiano — o que explicaria a necessidade de Ancelotti ir a público desmentir o rumor de forma tão categórica.
Para o Brasil, qualquer instabilidade no vínculo com Ancelotti representa um risco real. A seleção está em fase de preparação para a Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México a partir de junho. O técnico italiano ainda não completou um ciclo completo com o grupo, e uma eventual saída — mesmo que ele mesmo descarte essa possibilidade — geraria um vácuo de liderança num momento crítico.
A declaração de Ancelotti ao The Athletic funciona, portanto, em dois registros simultâneos: é uma negação de rumor e, ao mesmo tempo, uma reafirmação de compromisso com o projeto brasileiro — algo que a CBF certamente monitorou com atenção.
Com a decisão sobre o futuro de Xabi Alonso no Real Madrid prevista para as próximas semanas, após o encerramento oficial da temporada europeia, uma pergunta concreta paira sobre o futebol espanhol: se Florentino Pérez demitir Alonso e fizer uma oferta formal a Ancelotti ainda em junho, antes do início da Copa do Mundo, o técnico italiano manteria sua palavra — ou o peso de 11 títulos no Bernabéu falaria mais alto do que qualquer compromisso firmado com a CBF?








