A cena
Falhou. Em quatro tentativas de Copa do Mundo depois de 2002 — Alemanha, África do Sul, Brasil e Rússia — a seleção canarinho não passou das quartas de final. O último homem a erguer o troféu com a faixa verde-amarela no peito foi Cafu, no Yokohama International Stadium, em 30 de junho de 2002, com uma camisa que trazia bordado o nome do Jardim Irene, bairro da zona sul de São Paulo onde ele cresceu. Desde aquela noite, 24 anos se passaram e o Brasil acumula o maior jejum de sua história moderna numa competição em que é, paradoxalmente, o único país a ter participado de todas as edições.
Agora, faltando 40 dias para a abertura do torneio — marcada para 11 de junho no México — Carlo Ancelotti conduz a preparação final de um grupo que chegou à Copa pela 5ª colocação nas Eliminatórias Sul-Americanas, com apenas 28 pontos: oito vitórias, quatro empates e seis derrotas, saldo de gols de +7 (24 marcados, 17 sofridos). Não é o Brasil que dominou as Eliminatórias de 2002 com Scolari, nem o que liderou isolado sob Tite em 2018. É um Brasil que precisou suar para existir.
O contexto que explica
Quem acompanhou o ciclo do Milan de Ancelotti entre 2001 e 2009 reconhece um padrão: o técnico italiano raramente entrega equipes de pressão alta e volume ofensivo ensurdecedor. Ele constrói times equilibrados, de transição rápida e solidez defensiva — o que explica os dois títulos de Champions League (2003 e 2007) com uma equipe que nunca foi a mais vistosa da Europa, mas era a mais difícil de bater. A análise do SportNavo sobre os primeiros meses de Ancelotti no comando da seleção aponta exatamente essa tendência: o Brasil sob Carletto tende a ser mais compacto e menos dependente da improvisação individual do que nas gestões de Ramon Menezes, Fernando Diniz e Dorival Júnior — os três técnicos que antecederam o italiano no caótico ciclo pré-Copa.
Quando faz a gestão de um elenco com estrelas de perfis distintos, Ancelotti encontra o equilíbrio entre liberdade criativa e responsabilidade tática. Quando enfrenta adversários fisicamente intensos, ele recua o bloco e explora os espaços em profundidade. Essa dualidade é o que o Brasil precisará exibir num torneio de 48 seleções — o maior da história — dividido em 12 grupos de quatro equipes, onde as duas primeiras de cada grupo avançam, além das oito melhores terceiras colocadas, formando uma fase de 32 times no mata-mata.
O Grupo C, onde o Brasil figura como cabeça de chave, reúne Marrocos (África), Escócia (Europa) e Haiti (CONCACAF). A estreia está marcada para 13 de junho de 2026 contra Marrocos — semifinalista em 2022 — no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey, estádio com capacidade para 82.500 espectadores e que também sediará a final, em 19 de julho. Não é um grupo fácil: Marrocos é a seleção africana mais organizada taticamente desde o Camarões de Roger Milla, e a Escócia chega motivada pela classificação histórica. Mas, no papel, é um grupo administrável para uma seleção de qualidade técnica superior.
As implicações imediatas
A preparação final, porém, tropeça em burocracia doméstica. A CBF confirmou que a 18ª rodada do Brasileirão 2026 terá jogos no dia 31 de maio — mesma data do penúltimo amistoso da seleção, Brasil x Panamá, no Maracanã. Flamengo x Coritiba, Grêmio x Corinthians, Bahia x Botafogo e Palmeiras x Chapecoense são alguns dos confrontos programados para o mesmo dia em que Ancelotti precisará de seus convocados concentrados no Rio de Janeiro. A situação cria um dilema logístico real para atletas que atuam em clubes com jogos naquela data e que também integram a lista final de convocados — anunciada em 18 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio.
Quando faz escolhas de calendário como essa, a CBF reproduz um vício histórico que o futebol brasileiro nunca conseguiu superar: a incapacidade de subordinar o calendário doméstico às demandas da seleção em momentos decisivos. Na Europa, quando a Premier League ou a Bundesliga precisam liberar jogadores para janelas de seleção, o calendário é ajustado com antecedência de meses. Aqui, a colisão entre Brasileirão e amistoso preparatório de Copa acontece a menos de duas semanas da convocação oficial.
Após o duelo com o Panamá, o Brasil faz seu último amistoso em 6 de junho, contra o Egito, no Huntington Bank Field, em Cleveland — já em solo americano, o que ao menos resolve parte da ambientação geográfica antes da estreia. A Copa começa cinco dias depois, em 11 de junho, com a partida de abertura no México.

Conforme levantamento do SportNavo, nenhuma das quatro seleções que venceram a Copa nos últimos 24 anos — Itália (2006), Espanha (2010), Alemanha (2014) e Argentina (2022) — chegou ao torneio com menos de 35 pontos nas suas respectivas fases classificatórias regionais. O Brasil de 2026 chegou com 28. O número não condena, mas contextualiza a dimensão do desafio que Ancelotti enfrenta em sua primeira Copa como técnico da canarinho.
O Brasil estreia contra Marrocos em 13 de junho, às 19h de Brasília, no MetLife Stadium. Naquele momento, saberemos se os 24 anos de espera produziram uma seleção pronta para romper o ciclo — ou apenas mais um capítulo de promessas não cumpridas.









