Não, João Pedro não teve uma temporada ruim. Quinze gols em 34 jogos pelo Chelsea na Premier League 2025/2026 — isso é um xG acima de 0,40 por 90 minutos, nível de centroavante de elite em uma das ligas mais intensas do planeta. O problema é que Ancelotti não estava montando um ranking de artilheiros. Ele estava montando um elenco para uma Copa do Mundo — e a lógica que usou merece ser esmiuçada dado a dado.
O que os números de João Pedro diziam que Ancelotti preferiu ignorar
A temporada 2025/2026 de João Pedro no Chelsea é, objetivamente, impressionante. Quinze gols em 34 partidas representa uma taxa de conversão sólida, mas o que chama atenção é o contexto: ele operou em um sistema de alta pressão, com o Chelsea demandando progressive passes constantes para linhas avançadas e um centroavante que participasse ativamente da construção. Nesse modelo, João Pedro acumulou também ações defensivas relevantes — pressing com recuperação de bola no terço ofensivo, algo que o PPDA (passes permitidos por ação defensiva) do Chelsea nesta temporada, entre os menores da Premier League, exigiu de todos os atacantes.

Para comparar: Neymar acumulou seis gols e quatro assistências em 15 partidas pelo Santos no Brasileirão 2026. É uma produção respeitável para quem voltou de uma artroscopia no joelho, mas em termos de xA (expected assists) e volume de ações criativas por 90 minutos, não há como equiparar o ritmo do futebol inglês ao brasileiro. Ancelotti reconheceu isso, mas virou o argumento: "Eu entendo que o futebol europeu tenha mais intensidade, mas temos de considerar muitas coisas. O calendário, as viagens, o calor. É difícil comparar. Analisamos as características individuais."
"Ficamos tristes pelo João Pedro. Pela temporada que fez na Europa, provavelmente merecia estar nesta lista. Porém, infelizmente, com toda consciência, respeito e competência possíveis, escolhemos outro jogador", disse Ancelotti após a convocação.
Essa frase é rara em convocações — um técnico admitindo que o preterido merecia a vaga. Traduzindo para linguagem de dados: Ancelotti sabia que João Pedro tinha o output estatístico, mas priorizou uma variável que não aparece em nenhum dashboard — a capacidade de Neymar de alterar o comportamento coletivo do grupo dentro de uma Copa do Mundo.
A variável que nenhum modelo estatístico captura — e Ancelotti apostou nela
Neymar disputou as Copas de 2014, 2018 e 2022. Em Mundiais, são oito gols em 13 jogos pela Seleção — o que o coloca na oitava posição histórica do Brasil em Copas, atrás de Ronaldo (15 gols em 19 jogos) e Pelé (12 em 14). A experiência de alta pressão em eliminatórias de Copa é uma variável real — e raramente mensurada — que afeta a tomada de decisão dentro de campo. Ancelotti foi direto: "A experiência neste tipo de competição e o carinho que tem do grupo podem ajudar a equipe a jogar melhor."
Aqui mora o argumento mais controverso da convocação. O SportNavo levantou que Neymar não entra em campo pela Seleção desde 17 de outubro de 2023 — o jogo contra o Uruguai nas Eliminatórias em que rompeu o ligamento cruzado anterior e o menisco do joelho esquerdo. São quase três anos sem uma partida com a camisa verde e amarela. Seria quase injusto chamar isso de "retomada de ritmo com a Seleção" — mas Ancelotti tratou essa lacuna como irrelevante diante de quatro sequências consecutivas de jogos pelo Santos em 2026.
O técnico usou o mesmo raciocínio para defender a convocação sem testes prévios: "Jogadores experientes que não precisamos testar para ver seu valor neste nível de competição." A lógica tem precedente histórico — Ronaldo Fenômeno chegou ao Mundial de 2002 com pouquíssimos minutos nas pernas e saiu com a Bola de Ouro. Mas o risco existe, e a imprensa europeia não deixou passar. Manuel Veth, do Transfermarkt, questionou se Neymar "ainda é bom o suficiente para proporcionar momentos decisivos" e alertou para o risco de ele ocupar minutos de Endrick ou Matheus Cunha, que chegam ao torneio em alta forma.
Weverton aos 38 e o padrão Ancelotti de montar um elenco para pressão extrema
A escolha de Weverton no lugar de Bento e Hugo Souza segue a mesma lógica, mas com um agravante: o goleiro do Grêmio tem 38 anos e não apareceu em nenhuma das pré-convocações anteriores de Ancelotti. Taffarel, preparador de goleiros da Seleção, foi quem mais claramente explicou o raciocínio: a experiência traz "tranquilidade maior" em momentos de alta pressão. Bento, que estava no Al-Nassr, sofreu uma falha grave na semana passada contra o Al-Hilal, repercutindo internacionalmente — o que pode ter acelerado a decisão.
- Weverton (Grêmio, 38 anos) — convocado para sua segunda Copa consecutiva, referência de experiência e liderança no vestiário
- Bento (Al-Nassr) — preterido após falha grave em partida da Saudi Pro League dias antes da convocação
- Hugo Souza (Corinthians) — boa temporada no Brasileirão 2026, mas sem experiência em Copas
A ausência de João Pedro e a presença de Neymar formam, juntas, o padrão mais claro da convocação de Ancelotti: quando a decisão é difícil e os números apontam para um lado, o italiano vai para o outro — e aposta em fatores intangíveis como coesão de grupo, liderança simbólica e capacidade de elevar o nível coletivo sob pressão máxima. É uma aposta legítima, com precedentes históricos que a sustentam.
"Escolhemos o Neymar não porque pensamos que vai ser um bom reserva. Escolhemos o Neymar porque pensamos que ele pode apontar e mostrar sua qualidade para o time", declarou Ancelotti na coletiva pós-convocação.
O Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 no dia 13 de junho contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Antes disso, a Seleção faz dois amistosos: dia 31 de maio contra o Panamá, no Maracanã, e dia 6 de junho contra o Egito, em Cleveland — exatamente os jogos em que Ancelotti disse que o treino vai decidir quem joga. Essa convocação é a receita; o que sai do forno só vai aparecer a partir de 13 de junho.









