Carlo Ancelotti não é apenas o técnico da Copa de 2026 — ele é, segundo a CBF, o arquiteto de um projeto que atravessa dois Mundiais. O presidente da confederação, Samir Xaud, confirmou nesta quinta-feira (30), durante o congresso da FIFA em Vancouver, que o italiano de 66 anos tem acordo para permanecer no comando da Seleção Brasileira até o fim de 2030, transformando a contratação anunciada em maio de 2025 em algo muito mais ambicioso do que uma simples gestão de curto prazo.

Um contrato que vai além do hexacampeonato

Quando a CBF oficializou Ancelotti em maio de 2025, o contrato vigente previa vínculo até o término da Copa do Mundo de 2026, com salário estimado em R$ 5 milhões mensais — cifra que coloca o italiano entre os treinadores mais bem pagos do planeta no futebol de seleções. A renovação confirmada por Xaud em Vancouver estende essa relação por mais quatro temporadas após o Mundial norte-americano, cobrindo um ciclo completo de preparação para a Copa de 2030, que será disputada parcialmente na Espanha, Portugal e Marrocos, com jogos também previstos na América do Sul em celebração ao centenário do torneio.

"Se depender da CBF, a parceria com Ancelotti vai continuar por mais quatro temporadas", afirmou Samir Xaud durante o congresso da FIFA em Vancouver.

Para se ter a dimensão histórica do que representa essa continuidade, basta lembrar que o Brasil jamais chegou a uma Copa do Mundo com o mesmo técnico que comandou o ciclo anterior completo desde os tempos de Zagallo, que esteve à beira do campo canarinho entre 1970 e 1974 e depois retornou de 1994 a 1998. Ancelotti teria, portanto, a chance de construir algo que poucos fizeram: moldar duas gerações consecutivas da Seleção.

O legado europeu que Ancelotti traz na bagagem

Carletto chega ao projeto com um currículo que dispensa apresentações no Brasil. No Real Madrid, clube que deixou para assumir a Seleção, o italiano acumulou 15 títulos, incluindo quatro taças da UEFA Champions League — em 2003, 2007, 2014 e 2022. Foi no Bernabéu que ele trabalhou de perto com nomes que formam a espinha dorsal da Seleção atual: Vinícius Jr., Rodrygo, Endrick, Casemiro e Éder Militão. Esse conhecimento prévio do grupo elimina um período de adaptação que historicamente custou caro ao Brasil — Luiz Felipe Scolari precisou de quase dois anos para consolidar um estilo jogável no ciclo que culminou na Copa de 2014, enquanto Tite levou três competições para afinar o time que chegou às quartas de final na Rússia em 2018.

Segundo apuração do SportNavo, a familiaridade de Ancelotti com o núcleo europeu da Seleção foi um dos argumentos centrais usados pela CBF para justificar internamente o alto investimento salarial, que supera em mais de três vezes o que foi pago a Fernando Diniz, predecessor interino de Ancelotti, e coloca a confederação em patamar de gastos próximo ao da Federação Francesa de Futebol.

Base jovem como alicerce do projeto 2030

O planejamento de longo prazo da CBF não se sustenta apenas no nome do técnico. A renovação até 2030 pressupõe uma integração mais profunda com as categorias de base, especialmente com a geração nascida entre 2006 e 2009, que estará entre 21 e 24 anos quando a bola rolar no próximo Mundial. Nomes como Estêvão Willian, do Palmeiras, e Savio, revelação do Atlético de Madrid, já figuram nas convocações de Ancelotti e serão peças centrais desse projeto — da mesma forma que Ronaldo Fenômeno, convocado por Zagallo pela primeira vez aos 17 anos em 1994, chegou ao auge exatamente quatro anos depois, na Copa da França.

"Ancelotti conhece cada um desses meninos. Ele os treinou em Madrid, sabe onde cada um pode chegar", disse uma fonte ligada à comissão técnica da Seleção, em conversa reservada com o SportNavo.

A análise do SportNavo aponta que a grande aposta da CBF é exatamente essa sobreposição de gerações: usar a Copa de 2026 como campo de aprendizado para os mais jovens, enquanto nomes consolidados como Vinícius Jr. — que terá 32 anos em 2030 — podem funcionar como lideranças experientes no próximo ciclo, algo que Pelé fez em 1970 e Ronaldo tentou, sem o mesmo êxito físico, em 2006.

Estreia em 13 de junho e o peso da expectativa

Antes de qualquer planejamento de longo prazo, há um compromisso imediato e inadiável: o Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 em 13 de junho, com Ancelotti no banco. O adversário e o horário exato ainda dependem do sorteio oficial da FIFA, mas a Seleção Brasileira entra no torneio como uma das favoritas ao título, carregando o peso de 24 anos sem conquistar uma Copa do Mundo — o último título foi em 2002, no Japão e Coreia, com Ronaldo marcando os dois gols da final contra a Alemanha, 2 a 0. Com um contrato que vai de 2025 a 2030 e salário mensal de R$ 5 milhões, Ancelotti tem prazo, recursos e, ao menos no papel, todas as condições para finalmente entregar ao Brasil aquele que seria o hexacampeonato mais aguardado da história.