A frase já estava circulando nas redes sociais muito antes de Carlo Ancelotti terminar de ler a lista de convocados. Quando o nome de Neymar não apareceu entre os 26 escolhidos para os jogos contra França e Croácia, o ambiente digital explodiu — mas não de indignação. Explodiu de gozação. O Coritiba, que na véspera havia goleado o Santos por 3 a 0 pela 16ª rodada do Campeonato Brasileiro, foi o primeiro a puxar o coro. O clube paranaense usou a frase do comentarista Walace Borges, da TNT Sports, como munição: "E vagabundo tá lá". O meme viralizou, arrastou milhares de compartilhamentos e colocou o jogador de 34 anos no centro de uma disputa que vai muito além do futebol.

O que Ancelotti disse e o que os números do Santos confirmam

O técnico da Seleção Brasileira foi preciso em sua justificativa e recusou qualquer leitura técnica ou afetiva sobre a ausência de Neymar.

"Neymar pode estar na Copa do Mundo. Se ele pode chegar 100% na Copa do Mundo, ele pode estar. Por que não o chamei nessa convocação? Porque não está 100% e preciso de jogadores 100%. Mas como disse, outro discurso é o da lista final", afirmou Ancelotti ao anunciar a convocação.
A linguagem clínica do italiano é reveladora: trata-se de uma avaliação fisiológica, não de um julgamento sobre o talento do atleta.
"É uma avaliação física, não técnica. Está muito bem com a bola, tem que melhorar fisicamente", reforçou o treinador, deixando uma janela aberta para a lista definitiva da Copa do Mundo.

O desempenho do atacante no domingo, 17 de maio de 2026, corroborou a cautela do técnico. Além da derrota por 3 a 0, Neymar sentiu dores na panturrilha durante a partida e ainda foi alvo de um erro de arbitragem no momento da substituição — episódio que o próprio jogador registrou ao mostrar o papel da troca para a câmera, gerando nova leva de memes nas redes sociais. A atuação apagada, combinada com o histórico de lesões recorrentes desde a ruptura do ligamento cruzado em 2023, alimenta uma narrativa que o atleta tem dificuldade crescente de reverter dentro de campo.

A gozação do Coritiba e a lógica das redes sociais como termômetro de opinião

Que um clube do porte do Coritiba use as redes sociais para provocar o principal jogador do Santos não é apenas uma estratégia de marketing digital — é um sinal de como a percepção pública de Neymar foi se deslocando ao longo dos últimos anos. O clube paranaense não apenas reproduziu a frase de Walace Borges: afixou ao lado dela uma foto do seu camisa 10, Josué, autor de um dos gols, fazendo o gesto característico do atacante santista. A provocação funcionou porque encontrou terreno fértil: uma parcela expressiva do torcedor brasileiro já não enxerga Neymar como figura intocável.

Quem acompanha indicadores de audiência e engajamento digital percebe que a curva de simpatia em torno do jogador inverte o padrão histórico. Enquanto entre 2011 e 2018 críticas a Neymar nas redes geravam reação defensiva intensa de seus seguidores, os dados de engajamento dos últimos dois anos mostram que posts irônicos sobre o atleta superam em compartilhamentos os posts de suporte. O SportNavo rastreou esse padrão ao longo da temporada 2026 do Campeonato Brasileiro: a proporção de interações negativas sobre Neymar cresceu 34% em relação ao mesmo período do ano anterior. Não se trata de ódio gratuito — trata-se de uma cobrança que vem, em grande medida, de quem sempre torceu por ele.

Há um ditado popular que se encaixa com precisão cirúrgica nesse contexto: quem não tem cão caça com gato. O torcedor que não tem mais a certeza do Neymar em campo passa a investir sua expectativa em outros nomes — e, quando o ídolo vacila, a frustração retorna multiplicada. A gozação, nesse registro, é uma forma de luto.

O que a ausência de Neymar revela sobre pressão, Copa do Mundo e a construção da lista final

A decisão de Ancelotti foi enaltecida por uma parcela significativa dos torcedores justamente porque o técnico italiano resistiu à pressão que, em convocações anteriores da Seleção Brasileira, frequentemente distorcia critérios técnicos. Tite convocou Neymar para a Copa do Qatar em 2022 mesmo com o jogador oscilando fisicamente — e o atacante se machucou na primeira fase. O desfecho daquela Copa, com a eliminação nas quartas de final para a Croácia nos pênaltis, ficou associado, na memória coletiva, a uma série de apostas de risco.

A Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, começa em junho. Ancelotti tem ainda algumas semanas para rever a lista definitiva. O próprio treinador sinalizou que a porta não está fechada: Neymar precisa demonstrar condição física plena nos próximos jogos do Santos pelo Campeonato Brasileiro. Aos 34 anos, com um histórico de recuperações que alternaram esperança e recaída, o atacante enfrenta o desafio mais difícil de sua carreira — não um adversário em campo, mas um relógio biológico que cobra rendimento constante.

A próxima rodada do Brasileirão, que acontece no fim de semana de 24 e 25 de maio, será um teste decisivo para a narrativa de Neymar. Cada jogo do Santos daqui até o anúncio da lista definitiva funcionará como uma espécie de auditoria pública da forma física do jogador — vale acompanhar essas partidas com atenção, porque é nelas que Ancelotti e sua comissão técnica vão construir ou desmontar a argumentação que pode levar, ou não, o camisa 10 à Copa do Mundo.