Quando o árbitro apitou o encerramento do empate em 1 a 1 entre Estudiantes e Flamengo, no Estadio Ciudad de La Plata, a sensação predominante no lado rubro-negro não era de alívio pelo ponto conquistado fora de casa — era de indignação legitimada por pelo menos três lances que, analisados friamente, contrariaram as regras do jogo. O resultado coloca o Flamengo em situação delicada na fase de grupos da Libertadores e reacende um debate que a competição insiste em não resolver: a qualidade da arbitragem em partidas envolvendo clubes brasileiros em território sul-americano.

Os três lances que definiram o debate

O primeiro e mais emblemático erro ocorreu aos 16 minutos do segundo tempo. Emerson Royal avançou pela direita, penetrou na área do Estudiantes e foi claramente calçado por Farias. A jogada reunia dois elementos para punição simultânea: a marcação de pênalti e o cartão vermelho por acumulação — Farias já carregava um amarelo. O árbitro não sinalizou nem uma coisa nem outra. Ao invés disso, optou por expulsar os dois técnicos, decisão que não encontra amparo técnico nos lances que antecederam o cartão vermelho duplo.

O segundo ponto de contestação envolve Tomas Palacios. O zagueiro argentino, que também tinha cartão amarelo, atingiu Bruno Henrique com contato violento após o intervalo. A câmera registrou o lance com clareza suficiente para acionar o protocolo do VAR — mas o chileno Juan Lara Luco, responsável pela cabine de vídeo, não chamou a revisão. A omissão é agravada pelo contexto: Palacios sairia de campo com cartão vermelho caso o segundo amarelo fosse aplicado, alterando o equilíbrio numérico dos times na reta final.

Ao longo dos 90 minutos, outros contatos duros dos argentinos tampouco resultaram em punições proporcionais. A coerência da arbitragem foi, na prática, a de tolerar a violência física — o que beneficiou sistematicamente a equipe da casa, mais afeita ao jogo de força.

O jogo antes e depois do gol

A partida já havia sido impactada por um revés físico antes dos lances polêmicos. Aos 20 minutos do primeiro tempo, Arrascaeta saiu com contusão séria na clavícula, lesão que, segundo relatos da delegação, pode tirá-lo da sequência da Copa. A perda do uruguaio, peça central na criação rubro-negra, desorganizou o meio-campo do Flamengo em um momento em que a equipe ainda buscava o equilíbrio defensivo.

O gol que abriu o placar, marcado por Luiz Araújo aos 33 minutos do primeiro tempo, nasceu de uma jogada individual de Bruno Henrique, que acionou o companheiro para bater de esquerda sem chances para Muslera. O Flamengo chegou ao intervalo na frente e com a perspectiva de administrar o resultado — perspectiva que durou apenas 11 minutos na etapa final, quando Carrillo aproveitou um cruzamento para empatar de cabeça, em mergulho.

Antes do empate, ainda na primeira parte da etapa complementar, Bruno Henrique e Luiz Araújo desperdiçaram contra-ataques em posições privilegiadas — falhas que, combinadas aos erros de arbitragem subsequentes, compõem o retrato de uma noite que o Flamengo preferiria esquecer.

O impacto direto na classificação

A análise do SportNavo indica que o ponto perdido nesta partida — transformado em empate pelo gol do Estudiantes sem que os dois lances passíveis de expulsão argentina fossem punidos — pode ser decisivo na definição do avanço às oitavas de final. Jogar os próximos compromissos sem Arrascaeta, em um grupo competitivo, torna a margem de erros ainda mais estreita para a equipe de Alexandre Medina.

Os três lances que definiram o debate Arbitragem deixa o Flamengo refém em La
Os três lances que definiram o debate Arbitragem deixa o Flamengo refém em La
"A Libertadores mostrou mais uma vez a sua face suja. Voltou aos anos 1960, quando argentinos e uruguaios faziam a festa em cima dos juízes", escreveu um dos principais colunistas de esportes do país ao analisar os lances da partida em La Plata.

A crítica ecoa um padrão histórico de reclamações brasileiras sobre arbitragem em território argentino na Libertadores — um debate que a Conmebol até hoje não resolveu com transparência ou com critérios públicos de avaliação de árbitros. O torneio completa mais de seis décadas de história e segue sem um protocolo claro de responsabilização para erros flagrantes de VAR.

Regulamento e precedentes do VAR

Pelo regulamento vigente da Conmebol para a Libertadores, o VAR deve ser acionado em casos de violência clara que escapem à visão do árbitro central. A agressão de Palacios em Bruno Henrique, captada pelas câmeras, se enquadra nessa definição. A não intervenção do chileno Juan Lara Luco contraria o próprio manual de uso da tecnologia — o que abre espaço para que o Flamengo protocole uma reclamação formal junto à entidade, embora o histórico mostre que punições retroativas a árbitros raramente resultam em reversão de resultados.

A partida de volta entre Flamengo e Estudiantes está prevista para o Maracanã, e o empate em La Plata significa que o Rubro-Negro precisará vencer em casa para avançar com conforto, já que qualquer tropeço pode beneficiar diretamente o adversário argentino na briga por classificação no grupo.