Quando o árbitro chileno Piero Maza apitou o final do jogo no Estádio Jorge Luis Hirschi, em La Plata, o placar de 1 a 1 entre Estudiantes e Flamengo era o menor dos problemas rubro-negros. Jogadores com hematomas nas pernas e nas costelas, Arrascaeta diagnosticado com fratura na clavícula direita e Leonardo Jardim expulso pela primeira vez em sua carreira de treinador — esse foi o saldo da terceira rodada do Grupo A da Copa Libertadores, disputada na noite de quarta-feira (29).
Uma guerra fora do Maracanã
O diretor de futebol do Flamengo, José Boto, não poupou palavras na zona mista. O português descreveu dois lances específicos que, segundo ele, exigiam expulsão: a tesoura de Farías em Emerson Royal no primeiro tempo — que resultou apenas em cartão amarelo — e a entrada com os dois pés de Tomás Palácios em Bruno Henrique no segundo tempo, mesmo o argentino já estando advertido.
"Estamos ali dentro com uma série de jogadores cheios de hematomas. Parece que saíram de uma guerra e não de um jogo de futebol. Agressividade é uma coisa e violência é outra. Os árbitros não sei por que conduzem o jogo de uma forma diferente na Argentina. Há dois lances claramente de expulsão que ele deixa para trás e é impossível jogar assim", disparou Boto.
O dirigente foi além e apontou um padrão que extrapola o jogo isolado: segundo ele, a Conmebol precisa investigar por que árbitros adotam critérios distintos dentro e fora da Argentina. Commentaristas de arbitragem da TV Globo, como PC Oliveira, corroboraram a avaliação: a entrada de Farías em Emerson Royal era lance para expulsão direta, e o VAR não recomendou revisão.

Histórico que não pode ser ignorado
A reclamação rubro-negra ressoa em um contexto mais amplo. A apuração do SportNavo mostra que equipes brasileiras acumulam, nas últimas edições da Libertadores, ao menos quatro episódios de alta repercussão envolvendo arbitragens em estádios argentinos — casos que vão desde penáltis não marcados para times cariocas e paulistas até expulsões relâmpago de jogadores brasileiros por reações a faltas não punidas. O denominador comum, em praticamente todos os episódios, é a percepção de que o árbitro tolera um nível de agressividade nos anfitriões que seria punido de forma mais rígida em partidas fora do país.
No caso específico desta quarta-feira, Leonardo Jardim entrou no campo justamente para tentar conter o tumulto que se formou após a entrada em Bruno Henrique. A resposta de Maza foi expulsá-lo — uma decisão que o auxiliar José Barros precisou explicar na coletiva de imprensa, já que o treinador português deixou o banco de forma inédita em sua carreira.
"Vocês têm as imagens, assistiram ao jogo e têm até mais condições do que nós para avaliar todos os lances. Os nossos jogadores tiveram uma performance impecável a nível mental. Não perderam a cabeça, mesmo tendo motivos para isso", afirmou José Barros, auxiliar que substituiu Jardim na coletiva.
A lesão de Arrascaeta e o espectro do Mundial
O dano mais tangível da noite foi a fratura na clavícula direita de Arrascaeta, confirmada ainda na madrugada. O meia uruguaio saiu ainda no primeiro tempo após dividida violenta e foi diagnosticado com a contusão imediatamente após o jogo. Boto admitiu que o tempo de recuperação pode comprometer a participação do jogador na Copa do Mundo, que terá início em junho.
"É uma infelicidade grande. É um tempo de recuperação que pode pôr em risco o Mundial, mas vamos ver. Há sempre recuperações mais rápidas do que outras", disse o dirigente português.
Léo Pereira, que não viajou ao jogo por conta de um corte profundo na canela esquerda sofrido contra o Atlético-MG — e que precisou levar pontos na Arena MRV — acompanhou a partida de longe e não se conteve. O zagueiro publicou, no Instagram, a imagem da entrada de Palácios em Bruno Henrique com a frase: "Que vergonha não dar nem cartão amarelo". A postagem viralizou e sintetizou o humor do vestiário rubro-negro.
O que a Conmebol precisa responder
O Flamengo termina a terceira rodada na liderança do Grupo A, com sete pontos, três à frente do Estudiantes, que soma cinco. A vantagem na tabela, porém, não dissolve a questão estrutural levantada pela delegação brasileira: de que forma a Conmebol pretende padronizar os critérios arbitrais em solo argentino? A análise do SportNavo indica que, enquanto não houver resposta concreta — seja por meio de notas oficiais, escalação de árbitros neutros com histórico mais consistente ou revisão de protocolos do VAR —, o tema voltará a pautar cada rodada.
Léo Pereira tenta se recuperar a tempo de ser relacionado para o clássico contra o Vasco, marcado para domingo (3), às 16h (horário de Brasília), no Maracanã, pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro. Arrascaeta, por sua vez, inicia o processo de recuperação da fratura e tem prazo apertado para tentar chegar à Copa do Mundo em condições físicas ideais.








