Quantas seleções campeãs do mundo já voltaram para a edição seguinte com o mesmo grupo, o mesmo técnico e a mesma fome — e não conseguiram repetir o feito? A resposta, desde 1962, é: todas. A Argentina de Lionel Scaloni entra em campo nesta terça-feira (16) às 22h de Brasília, em Kansas City, diante da Argélia, carregando um peso que nenhum elenco aguentou por mais de seis décadas. A pergunta que não sai da cabeça de qualquer torcedor que acompanha o futebol com um mínimo de senso histórico é simples e brutal: desta vez vai ser diferente?
Para entender a dimensão do desafio, é preciso voltar ao Chile de 1962. Garrincha, Didi e Zagallo voltaram ao torneio após o título de 1958 na Suécia e repetiram o bicampeonato com uma seleção que, apesar de perder Pelé na segunda rodada por lesão, tinha maturidade coletiva suficiente para superar o obstáculo. Desde então — Itália em 1938 foi o último bicampeão antes dos brasileiros — nenhuma nação conseguiu renovar o contrato com a glória. Alemanha (1974 e 1990), Brasil (1970 e 2002), França (1998 e 2018): todos chegaram às edições seguintes como favoritos e caíram. A Argentina sabe disso melhor do que ninguém.
A espinha dorsal que Scaloni preservou desde o Qatar
Quando Scaloni divulgou a lista para a Copa do Mundo de 2026, a primeira coisa que chamou atenção foi aquilo que não havia mudado. Enzo Fernández, um dos motores do Chelsea na Premier League 2025/2026 com 11 gols e 9 assistências, segue como o pulmão criativo do meio-campo argentino. Alexis Mac Allister, que fez a transição do Brighton para o Liverpool e se firmou como titular sob Slot, também permanece. Cristian Romero, agora com status de líder na zaga do Tottenham, e Emiliano Martínez, ainda referência no Aston Villa, completam uma estrutura que já foi testada em dois ciclos de Copa América — 2021 e 2024 — além do título no Qatar.
Quando Scaloni mantém esse bloco compacto e deixa os setores laterais com liberdade de criação, a Argentina funciona com uma eficiência que lembra o Milan de Arrigo Sacchi entre 1988 e 1990: organização defensiva rigorosa como base, transição rápida como arma. Quando a equipe perde a bola rapidamente e a pressão adversária é bem executada, as mesmas linhas podem mostrar as costuras. Contra a Argélia, que retorna à Copa após 12 anos de ausência — a última participação foi no Brasil em 2014, quando os africanos eliminaram a Coreia do Sul, venceram a Rússia e só perderam para a Alemanha na prorrogação da oitava de final —, o teste será exatamente esse: manter a estrutura quando o adversário pressionar as transições.

"Messi está recuperado e vai jogar. A semana de treinos foi boa", confirmou Scaloni em coletiva nos dias que antecederam a estreia, encerrando a preocupação gerada por uma lesão muscular sofrida no período preparatório.
Messi aos 38 anos e o paralelo com Zidane em 2006
Lionel Messi disputa sua sexta Copa do Mundo. O número em si já é história — apenas Lothar Matthäus e Antonio Carbajal chegaram a esse patamar. Mas o contexto de 2026 tem um paralelo mais preciso: Zinedine Zidane em 2006. O francês voltou da aposentadoria, liderou a França até a final contra a Itália em Berlim, foi expulso pela cabeçada em Materazzi e encerrou a carreira entre a genialidade e o colapso. Não é uma comparação pessimista — é um lembrete de que craques nessa faixa etária carregam uma carga emocional que vai muito além do físico.
Messi, aos 38 anos, chegou a esta Copa recuperado de uma lesão muscular sofrida no período preparatório. Atuou no amistoso de preparação e foi confirmado entre os titulares por Scaloni. A diferença em relação ao Qatar é que, em 2022, a Argentina dependia quase que exclusivamente da inspiração do camisa 10 nos momentos decisivos. Hoje, com Julián Álvarez consolidado no Manchester City e Lautaro Martínez vindo de mais uma temporada sólida na Inter de Milão, a Albiceleste tem mais caminhos para o gol — o que, paradoxalmente, também reduz a pressão sobre o astro.
"Quero encerrar minha carreira da melhor forma possível. Essa Copa é muito especial para mim", declarou Messi em entrevista à ESPN Argentina durante a preparação, numa das poucas falas em que abordou diretamente o caráter de despedida do torneio.
O que a Argélia pode fazer para complicar a Argentina
A Argélia retorna ao Mundial pela quinta vez na história com uma geração de jogadores formados majoritariamente nas categorias de base europeias — muitos deles filhos ou netos de imigrantes que poderiam ter vestido as camisas da França, Espanha ou Bélgica. O perfil tático dos Fennecs, como são conhecidos, é de uma equipe compacta, organizada em bloco médio-baixo e perigosa nas transições rápidas. Em 2014, essa receita funcionou contra adversários de maior qualidade técnica.
O histórico argentino em estreias de Copa do Mundo também serve de alerta. Em 2022, a Argentina perdeu para a Arábia Saudita por 2 a 1 na estreia do Qatar — o choque mais inesperado do torneio desde Camarões 1 x 0 Argentina em 1990. A Albiceleste se recuperou, venceu os seis jogos seguintes e levantou a taça, mas o susto inicial deixou marcas. Scaloni sabe que uma tropeção diante da Argélia, mesmo que a equipe se classifique depois, criaria uma narrativa difícil de administrar.
Se a Argentina vencer em Kansas City, o próximo compromisso do Grupo J será no dia 22 de junho, às 14h de Brasília, em Dallas, seguido da última rodada no dia 27 de junho, às 23h, também em Dallas. Uma vitória nesta terça-feira não resolve a equação do bicampeonato — mas muda o tom de toda a campanha que vem pela frente.








