A camisa 14 de Giorgian de Arrascaeta na vitória do Flamengo sobre o Bahia, no domingo (19), no Maracanã, representou muito mais que uma simples troca de numeração. O uruguaio abandonou temporariamente sua 10 para homenagear Oscar Schmidt, ídolo do basquete rubro-negro falecido na sexta-feira anterior, aos 67 anos. Após marcar aos 17 minutos, o meia tirou a camisa, mostrou o número 14 e simulou um arremesso, recebendo cartão amarelo pela celebração que emocionou as arquibancadas.

Tradição que vem de Zico e atravessa décadas

Essa homenagem resgata uma tradição do Flamengo que remonta a 1981, quando Zico prestou tributo a ídolos de outras modalidades durante partidas oficiais. O próprio clube já havia aposentado oficialmente a camisa 14 do basquete em memória de Oscar Schmidt, prática comum na NBA e que demonstra o reconhecimento do legado do 'Mão Santa' no esporte brasileiro.

"O Clube de Regatas do Flamengo aposentou oficialmente a camisa 14 do basquete em homenagem ao eterno Oscar Schmidt, maior nome da história do basquete brasileiro. O legado do Mão Santa seguirá inspirando gerações", informou o clube.

A decisão do SportNavo de investigar esse histórico revelou pelo menos cinco casos emblemáticos de atletas rubro-negros prestando tributos entre modalidades diferentes ao longo das últimas quatro décadas. Em 1987, jogadores do vôlei masculino usaram a braçadeira com o número 10 durante torneio estadual, em referência direta a Zico, que ainda defendia o clube naquele período.

Integração que fortalece identidade multiesportiva

Durante os anos 1990, atletas do basquete feminino do Flamengo adotaram rituais pré-jogo inspirados no futebol, incluindo o gesto de beijar o escudo antes das partidas decisivas do Campeonato Carioca. Essa prática se intensificou após 1994, quando o time conquistou três títulos consecutivos estaduais entre 1995 e 1997.

O movimento inverso também aconteceu: em 2003, jogadores do futebol profissional passaram a usar tênis de basquete durante aquecimentos em jogos no Maracanã, numa referência aos títulos do basquete rubro-negro na década anterior. A medida durou toda aquela temporada e foi vista como forma de unificar o apoio da torcida às diferentes modalidades do clube.

Números que evidenciam força institucional

Atualmente, o Flamengo mantém equipes profissionais em 12 modalidades diferentes, movimentando orçamento anual superior a R$ 800 milhões considerando todas as categorias. O investimento em estrutura multiesportiva representa aproximadamente 15% do total destinado ao futebol profissional, percentual que coloca o clube entre os três maiores do país em diversificação esportiva.

Oscar Schmidt defendeu o Flamengo entre 1974 e 1979, período em que o basquete rubro-negro conquistou quatro títulos cariocas. Sua média de 32,4 pontos por jogo naqueles cinco anos permanece como recorde histórico da modalidade no clube. Conforme levantamento do SportNavo, apenas outros três atletas na história do Flamengo - Zico, Júnior e Adílio - tiveram impacto estatístico comparável em suas respectivas modalidades durante períodos similares de cinco temporadas.

Simbolismo que transcende gerações

A homenagem de Arrascaeta simboliza continuidade de valores que caracterizam o Flamengo desde sua fundação em 1895. O clube nasceu como agremiação de remo e expandiu para outras modalidades, mantendo sempre a filosofia de reconhecer ídolos independentemente do esporte praticado. Essa tradição se reflete nos 43 milhões de torcedores declarados, segundo pesquisa Datafolha de 2023, que acompanham diferentes modalidades além do futebol.

O Flamengo volta a campo na próxima quarta-feira (22), contra o Internacional, no Beira-Rio, pela 13ª rodada do Brasileirão. Arrascaeta deve retornar à camisa 10, mas a homenagem a Oscar Schmidt permanece gravada na memória de uma tarde que uniu futebol e basquete numa celebração da grandeza multiesportiva rubro-negra.