A última vez que um presidente de clube baiano gerou tanto material jornalístico fora das quatro linhas foi na era Carlos Augusto Montenegro no Bahia — e mesmo assim, Montenegro raramente aparecia em vídeo viralizando nas redes sociais. Fábio Mota quebrou esse padrão com consistência: ao longo de sua gestão no Esporte Clube Vitória, o dirigente transformou entrevistas coletivas, áudios de WhatsApp e aparições em estádios em peças de comunicação que, para o bem ou para o mal, mantiveram o clube na pauta. Não há tragédia: há contabilidade — e o saldo de imagem é misto.

O gramado de Juazeiro e o custo invisível das lesões

A primeira declaração de impacto da temporada 2026 veio do interior da Bahia. Após a vitória por 4 a 1 sobre a Juazeirense, pela segunda rodada do Campeonato Baiano, Mota publicou um vídeo nas redes sociais criticando as condições do Estádio Adauto Moraes, em Juazeiro (BA).

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"São dois chuveiros para todo mundo tomar banho. Quando termina o jogo, fica uma fila. A parte de pia com a parte de mictório são dentro do vestiário. Não tem divisão. Fica um odor muito ruim", afirmou o presidente.

Além da estrutura sanitária, Mota apontou o gramado irregular como causa direta de duas lesões: o volante Caio Vinícius e o zagueiro Edu saíram do jogo após pisarem em falso nos buracos do campo. O técnico Thiago Carpini reforçou a crítica em coletiva, cobrando posição da Federação Bahiana de Futebol (FBF). Do ponto de vista financeiro, lesões em pré-temporada ou início de campeonato comprometem o planejamento de elenco — cada atleta afastado representa custo médico mais eventual necessidade de reposição no mercado.

O Ba-Vi na Fonte Nova e a provocação que viralizou

No clássico Ba-Vi disputado na Casa de Apostas Arena Fonte Nova, Mota estava no espaço reservado à diretoria do Vitória quando começou a receber xingamentos da torcida tricolor. A resposta do presidente foi filmada pela repórter Rafa Reina, do Canal do Dinâmico, e viralizou nas redes sociais: Mota fez gestos pedindo calma e sinalizou com o corpo a frase "calma, eu tô aqui". O vídeo acirrou a rivalidade Ba-Vi nas plataformas digitais e rendeu ao dirigente tanto aplausos da torcida rubro-negra quanto críticas por comportamento considerado inadequado para um presidente de clube.

O gramado de Juazeiro e o custo invisível das lesões As 5 falas de Fábio Mota qu
O gramado de Juazeiro e o custo invisível das lesões As 5 falas de Fábio Mota qu

O episódio tem valor de marketing mensurável — engajamento orgânico em redes sociais, sem custo de mídia paga — mas carrega risco reputacional proporcional. Clubes que buscam investidores institucionais precisam apresentar governança estável; gestores viralizando em provocações torcedoras podem gerar ruído em negociações formais.

"O Bahia é da Inglaterra" — a fala que dividiu o Nordeste

Em entrevista coletiva realizada em dezembro de 2025, Mota lamentou a queda de Sport, Fortaleza e Ceará para a Série B e aproveitou o contexto para alfinetar o rival. A lógica apresentada pelo dirigente era a de que o Vitória seria o único representante genuíno do Nordeste na elite do futebol brasileiro — excluindo o Bahia da categoria por conta da gestão do Grupo City, conglomerado inglês que controla a SAF tricolor.

"De cinco, restou só uma equipe que representa o Nordeste na elite do futebol, até espero que o nordestino nos ajude nisso. Só o Vitória representa a região, porque o outro é da Inglaterra, não é nordestino", cutucou Mota, em tom descontraído.

Provocou. A declaração tem uma camada econômica legítima: o Grupo City possui participações em clubes em seis continentes e aporta capital e infraestrutura que clubes independentes da região dificilmente acessam. A folha salarial do Bahia na Série A 2025 superava a do Vitória em múltiplos. Mas transformar a diferença de modelo societário em argumento de identidade regional é uma jogada de posicionamento de marca — não um dado financeiro.

Arena Barradão e o investimento que "não era para vir a Salvador"

No 2º Workshop Vitória SAF, realizado no Quality Hotel & Suites São Salvador, Mota apresentou as empresas responsáveis pela viabilização da nova Arena Barradão: a SDPlan, com portfólio que inclui as Arenas da Amazônia, Cuiabá e das Dunas, e a AR Foods, gestora dos bares da Neo Química Arena do Corinthians. O presidente confirmou que o projeto seria encaminhado ao Conselho Deliberativo em até 60 dias, com reuniões previstas com a Prefeitura de Salvador e o Governo da Bahia.

"O investimento chegou, a Arena vai sair do papel, porque os caras não estão para brincadeiras. Eu tenho certeza que o Vitória muda de patamar com isso", disse Mota no evento.

O dirigente revelou ainda um detalhe que gerou burburinho: "Esse investimento não era para vir para Salvador, ia para Guarulhos, mas deu problema, graças a Deus." Arenas multiuso com gestão profissional de hospitalidade representam receita recorrente independente de resultados esportivos — modelo que clubes como Corinthians e Atlético-MG já exploram para reduzir dependência de cotas de TV e bilheteria. O Barradão, hoje, ainda opera com restrições de infraestrutura que limitam eventos e, consequentemente, receita não-futebolística.

Para contextualizar a escala financeira: em áudio que circulou entre torcedores, Mota havia detalhado que o Barcelona de Ilhéus pagou R$ 408 mil de aluguel para usar o Barradão em uma partida do Campeonato Baiano. Somado aos R$ 200 mil arrecadados na Arena Fonte Nova em outro jogo, o total chegou a aproximadamente R$ 600 mil — recurso que o presidente usou para justificar a cessão do estádio ao rival de torcida. A conta é pequena perto do que uma arena moderna pode gerar anualmente.

"Respeitem o Vitória" — o desabafo contra a arbitragem

A quinta declaração de maior repercussão veio após a derrota para o Athletico-PR na 13ª rodada do Brasileirão 2026, na Arena da Baixada, em Curitiba. Mota foi direto ao ponto, citando nominalmente o presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, Rodrigo Cintra.

"Quero começar este pronunciamento deixando claro que não é um recado, é uma indireta para Rodrigo Cintra e para a comissão de arbitragem: respeitem o Vitória. Respeitem o Vitória", declarou o dirigente.

Mota elencou três lances que considerou determinantes: um pênalti marcado contra o Vitória que classificou como inexistente; um cartão amarelo em Zé Vitor que, segundo ele, deveria ter sido expulsão direta do adversário; e uma falta do zagueiro do Athletico em Renê que também não resultou em cartão vermelho. O presidente mencionou ainda um jogo anterior contra o Flamengo, na rodada 9, como padrão de prejuízo arbitral acumulado.

Reclamações de arbitragem são rotina no futebol brasileiro. O que diferencia a abordagem de Mota é a nomeação direta de um dirigente da CBF — movimento que eleva o risco de punição disciplinar, mas também maximiza o alcance da mensagem. Calculado.

Com a SAF do Vitória em processo de implementação, o Barradão em fase de projeto para modernização e o elenco sendo reconstruído com renovações de Lucas Halter, Baralhas e Thiago Couto como prioridade declarada para 2026, Mota segue como o principal porta-voz — e personagem — do clube. O próximo capítulo concreto é a apresentação formal do projeto da Arena Barradão ao Conselho Deliberativo, prazo que vence dentro das próximas semanas conforme anunciado no Workshop de maio.