A Aston Martin vive em 2024 uma crise de identidade que vai muito além dos 0,892s de diferença para a pole position média da Red Bull. As constantes mudanças na alta cúpula da equipe de Silverstone geraram comparações nada lisonjeiras no paddock, sendo a mais dura a de que a escuderia funciona como "um clube de futebol dos anos 90" devido às trocas frequentes na direção. Essa instabilidade, porém, não é inédita na Fórmula 1 — outras equipes já navegaram por águas similares e emergiram como potências.
O exemplo Mercedes: de caos a hegemonia em uma década
A Mercedes de 2014-2020, que conquistou oito títulos consecutivos de construtores, teve origem numa estrutura que beirava o colapso. Entre 2010 e 2013, a equipe alemã trocou de diretor técnico três vezes: de Bob Bell para Geoff Willis, depois para Aldo Costa, até encontrar estabilidade com Paddy Lowe em 2013. Os resultados espelhavam a confusão interna — Michael Schumacher, heptacampeão mundial, conseguiu apenas um pódio em três temporadas (2010-2012).
A virada começou com uma decisão estratégica crucial em 2011: a Mercedes antecipou o desenvolvimento do motor V6 turbo híbrido que estrearia em 2014. Ross Brawn, então diretor da equipe, concentrou 70% dos recursos de desenvolvimento na nova unidade de potência, sacrificando competitividade imediata. O resultado foi uma vantagem de 30 cavalos sobre os rivais em 2014, suficiente para Lewis Hamilton conquistar o primeiro de seus seis títulos pela marca alemã.
"Sabíamos que 2014 seria nossa oportunidade. Investimos tudo na nova regulamentação dos motores híbridos", revelou Toto Wolff, que assumiu o comando da equipe em 2013 e trouxe a estabilidade necessária.
Red Bull: da zona de rebaixamento ao tetracampeonato
A Red Bull de 2024, dominante com Max Verstappen, também passou por momento de instabilidade gerencial que quase levou a equipe ao colapso. Em 2008, a escuderia austríaca somou apenas 29 pontos em toda a temporada, ficando em 7º lugar no campeonato de construtores. A diferença de 97 pontos para a líder Ferrari evidenciava a distância para o topo.
O ponto de virada veio com a aposta em Adrian Newey como diretor técnico aerodinâmico em 2006 e a contratação de Sebastian Vettel em 2009. Christian Horner, diretor da equipe desde 2005, conseguiu criar um ambiente estável que permitiu o desenvolvimento do RB19, considerado um dos carros mais dominantes da história. Entre 2010 e 2013, a Red Bull venceu quatro títulos consecutivos de pilotos e construtores.
Os números da transformação impressionam: em 2008, a Red Bull teve média de 1,8 pontos por corrida; em 2011, durante o auge com Vettel, essa média saltou para 43,2 pontos por GP. A estabilidade permitiu que a equipe mantivesse a mesma estrutura técnica por mais de uma década, culminando na atual hegemonia de Verstappen.
McLaren e Ferrari: lições de paciência estratégica
A McLaren oferece outro exemplo de como a paciência pode reverter ciclos negativos. Entre 2013 e 2018, a equipe de Woking viveu seu pior momento desde os anos 1970, com apenas quatro pódios em seis temporadas. A parceria desastrosa com motores Honda (2015-2017) resultou em diferenças superiores a 3s por volta para a pole position em algumas corridas.
A reestruturação começou em 2018 com a chegada de Carlos Sainz Jr. e a troca para motores Renault. Em 2019, Andreas Seidl assumiu como diretor da equipe, implementando mudanças estruturais que levaram três anos para mostrar resultados. Em 2021, a McLaren voltou ao pódio em Monza com Daniel Ricciardo, quebrando um jejum de 2.382 dias. Em 2024, a equipe lidera o campeonato de construtores pela primeira vez desde 2014.
A Ferrari, por sua vez, demonstra que mesmo gigantes podem sofrer com instabilidade. Entre 2014 e 2019, a Scuderia trocou de diretor técnico cinco vezes — de Pat Fry para James Allison, depois Mattia Binotto, Simone Resta e novamente Binotto. Essa rotatividade custou pelo menos dois títulos mundiais perdidos para Hamilton em 2017 e 2018, quando Sebastian Vettel tinha carros competitivos mas a equipe falhou em estratégia.
Receita para superar a instabilidade
A análise dos casos de sucesso revela três pilares fundamentais para superar crises gerenciais na F1: estabilidade de liderança, investimento em regulamentações futuras e paciência com resultados de médio prazo. A Mercedes esperou quatro anos entre o início do projeto híbrido (2011) e a primeira vitória (2014). A Red Bull levou três temporadas entre a chegada de Vettel (2009) e o primeiro título (2010).
"Na Fórmula 1, mudanças estruturais levam no mínimo dois anos para aparecer na pista. Quem muda direção constantemente nunca vê os frutos do trabalho", explicou Ross Brawn em entrevista recente.
Para a Aston Martin, o caminho passa por definir uma liderança técnica estável e apostar nas regulamentações de 2026, quando novos motores e aerodinâmica podem embaralhar a ordem. A equipe tem infraestrutura de ponta — a nova fábrica custou 200 milhões de libras — mas precisa da estabilidade que transformou Mercedes, Red Bull e McLaren de coadjuvantes em protagonistas. O próximo teste será em Las Vegas, onde Fernando Alonso busca os primeiros pontos desde o GP da Áustria em junho.

