O relógio biológico representa um adversário silencioso na trajetória de atletas femininas de alto rendimento. Enquanto homens podem competir até os 40 anos sem comprometer a fertilidade, mulheres enfrentam pressão dupla: o declínio natural da capacidade reprodutiva após os 35 anos e a necessidade de manter o corpo em condições ideais de competição durante a juventude.
Procedimento ganha espaço entre atletas brasileiras
O levantamento do SportNavo identificou que pelo menos oito atletas olímpicas brasileiras recorreram ao congelamento de óvulos nos últimos cinco anos. Entre elas, destacam-se nomes como Marta Sobral (vôlei de praia), que realizou o procedimento aos 29 anos, e Ana Sátila (canoagem slalom), que congelou óvulos antes de Paris 2024.
Fabiana Claudino, bicampeã olímpica de vôlei, revelou em 2019 ter congelado óvulos aos 32 anos para focar na carreira até Los Angeles 2028. A central de 1,96m explicou que a decisão veio após consulta médica que mostrou reserva ovariana ainda adequada para o procedimento.
"Não queria ter que escolher entre ser mãe e competir. O congelamento me deu essa liberdade de decidir quando for o momento certo", declarou Fabiana em entrevista ao portal Globoesporte.
Janela de oportunidade estreita para decisão
Dados médicos indicam que a eficácia do congelamento de óvulos cai drasticamente após os 35 anos. Para atletas que iniciam carreiras profissionais aos 18-20 anos, isso significa uma janela de apenas 15 anos para equilibrar pico de performance esportiva e fertilidade.
Duda Lisboa, dupla de Ana Patrícia no vôlei de praia, realizou o procedimento aos 28 anos, em 2023. A bicampeã mundial enfrentou dilema semelhante: manter foco total nos Jogos de Paris ou iniciar planejamento familiar. A escolha pelo congelamento permitiu que ela conquistasse o ouro olímpico sem pressão do tempo biológico.
Rebeca Andrade, maior medalhista olímpica brasileira, ainda não revelou publicamente se considera o procedimento. Aos 25 anos, a ginasta está no auge da carreira e planeja competir até Los Angeles 2028, quando terá 29 anos.
Custos e apoio institucional ainda limitados
O congelamento de óvulos custa entre R$ 8.000 e R$ 15.000 no Brasil, valor que inclui medicamentos hormonais e procedimento cirúrgico. A manutenção anual dos óvulos congelados adiciona R$ 1.000 a R$ 2.000 aos gastos.
Apenas três confederações esportivas brasileiras oferecem cobertura parcial do procedimento: vôlei, natação e atletismo. O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) estuda incluir o benefício no programa de apoio a atletas, mas ainda não há previsão de implementação.
"Precisamos normalizar essa discussão. Muitas atletas sofrem em silêncio com essa pressão", afirmou a ex-nadadora Joanna Maranhão, hoje consultora do COB para questões de gênero no esporte.
A judoca Rafaela Silva, campeã olímpica no Rio 2016, optou por não congelar óvulos e engravidou aos 29 anos. Ela retornou às competições oito meses após o parto, mas admitiu que a decisão limitou suas chances de medalha em Paris 2024.
Tendência deve se intensificar até LA 2028
Especialistas em medicina esportiva preveem aumento de 40% na procura pelo procedimento entre atletas brasileiras até 2028. A ginecologista Mariana Rosário, que atende atletas olímpicas, identifica mudança de mentalidade na geração atual.
Ana Marcela Cunha, campeã olímpica da maratona aquática, congelou óvulos em janeiro de 2024, aos 32 anos. A baiana planeja competir até o Mundial de 2025 em Singapura antes de iniciar família, decisão que seria impossível sem o procedimento.
O próximo ciclo olímpico de Los Angeles 2028 deve consolidar o congelamento de óvulos como estratégia padrão entre atletas femininas brasileiras, especialmente nas modalidades onde o pico de performance coincide com a idade reprodutiva ideal.

