A crise financeira do Botafogo reacendeu o debate sobre o modelo das Sociedades Anônimas do Futebol no Brasil. Luiz Eduardo Baptista, presidente do Flamengo, disparou críticas contundentes ao sistema após o clube alvinegro protocolar pedido de recuperação judicial com dívidas que triplicaram desde a chegada da SAF em 2022. O passivo saltou de cerca de R$ 700 milhões para mais de R$ 2,5 bilhões, segundo dados apresentados pelo dirigente rubro-negro durante evento do Comitê Brasileiro de Clubes.

Números revelam fracasso financeiro da gestão botafoguense

Os dados apresentados por Bap expõem a dimensão do problema. Quando a Eagle Football Holdings, do empresário John Textor, assumiu 90% das ações do Botafogo em abril de 2022, a dívida total girava em torno de R$ 700 milhões. Menos de três anos depois, o passivo explodiu para valores próximos a R$ 2,5 bilhões, configurando um dos maiores fracassos financeiros do futebol brasileiro recente.

"Quando esta SAF foi constituída a dívida era da ordem de 700 milhões de reais, salvo engano. Hoje pelo que se lê a dívida é três vezes e meia esse valor. Você não cobriu a dívida antiga e fez mais 1 bilhão e tanto de dívida, e agora tem um pacote único de reformulação", questionou Bap.

A situação do Botafogo contrasta drasticamente com outros modelos de SAF no país. O Red Bull Bragantino, por exemplo, mantém estrutura financeira sólida desde a chegada da Red Bull em 2019, com investimentos anuais controlados na casa dos R$ 150 milhões. O Bahia, sob comando do Grupo City, também demonstra gestão responsável com orçamento anual próximo aos R$ 200 milhões e crescimento sustentável de receitas.

Números revelam fracasso financeiro da gestão botafoguense Bap ataca modelo SAF
Números revelam fracasso financeiro da gestão botafoguense Bap ataca modelo SAF

Pressão por mudanças regulatórias ganha força

O modelo SAF brasileiro, regulamentado pela Lei 14.193/2021, permitiu a entrada de investidores privados no futebol nacional, mas casos como o do Botafogo evidenciam falhas de controle. Diferentemente de ligas europeias que adotam o Fair Play Financeiro, o Brasil ainda carece de mecanismos efetivos para monitorar gastos e endividamento dos clubes transformados em sociedades anônimas.

Segundo apuração do SportNavo, dirigentes de pelo menos seis clubes da Série A já manifestaram preocupação com a ausência de punições para SAFs que descumprem compromissos financeiros. A situação gera distorções competitivas significativas, uma vez que clubes endividados mantêm gastos elevados com folha salarial enquanto outros adotam política de austeridade fiscal.

"SAF é um mecanismo importante, mas tem que ter limites, obrigações. Não pode simplesmente dar crédito pra quem vai colocar dinheiro no clube e não cumprir com nada e sair ileso nisso", afirmou o presidente flamenguista.

Casos de sucesso mostram potencial do modelo

Apesar das críticas ao caso botafoguense, exemplos positivos demonstram que o modelo SAF pode funcionar quando aplicado com responsabilidade. O Bahia registrou crescimento de 240% nas receitas entre 2022 e 2024, saltando de R$ 120 milhões para R$ 408 milhões anuais. O Red Bull Bragantino mantém uma das menores relações dívida/receita da Série A, com passivo controlado em torno de R$ 80 milhões.

O Cruzeiro, mesmo enfrentando dificuldades iniciais na transição para SAF, conseguiu quitar R$ 400 milhões em dívidas trabalhistas em 2023 e retornou à elite do futebol brasileiro. Esses casos evidenciam que investidores comprometidos com planejamento de longo prazo podem transformar realidades financeiras de clubes tradicionais.

Futuro das SAFs depende de maior fiscalização

A pressão exercida por Bap e outros dirigentes já encontra eco no Congresso Nacional, onde tramitam projetos para endurecer regras de controle financeiro das SAFs. A proposta prevê criação de tribunal específico para julgar questões relacionadas a sociedades anônimas do futebol, além de estabelecer limites para endividamento baseados em percentual das receitas anuais.

O próximo capítulo dessa discussão ocorrerá na assembleia geral da CBF marcada para março de 2025, quando será votada proposta de alteração no regulamento das SAFs. Entre as mudanças sugeridas está a exigência de apresentação de garantias bancárias para investidores que pretendem assumir controle de clubes brasileiros. O Botafogo, enquanto isso, aguarda decisão judicial sobre seu pedido de recuperação, com primeira audiência marcada para 15 de fevereiro no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.