Folha salarial menor, orçamento apertado, resultados maiores. Três variáveis que Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente do Flamengo, usou nesta sexta-feira (15/5) para elogiar, publicamente, o maior rival carioca.
O que Bap disse na São Paulo Innovation Week
Uma frase resumiu tudo. Durante o painel "O plano do Flamengo para se tornar hegemonia no esporte", na São Paulo Innovation Week, Bap comparou os investimentos do Flamengo e do Palmeiras com o retorno entregue pelo Fluminense — e o diagnóstico foi direto.
"Quando eu olho o que eu coloco de dinheiro, o que o Palmeiras coloca. O Fluminense é mais eficiente que Flamengo e Palmeiras. Não muda nada meu sentimento em respeito, é um reconhecimento óbvio. Quando você tem menos, é muito mais criterioso nas decisões. Não ter dinheiro é muito ruim, mas faz você ser mais criativo nas soluções. Quando você tem, fica relaxado, preguiçoso. E quando ganha piora. O futebol toda quarta e domingo está ali para mostrar: 'baixa tua bola'"
A declaração veio de forma espontânea, em resposta a perguntas de jornalistas presentes no evento. Bap não estava obrigado a citar o Fluminense — fê-lo por escolha, e o contexto financeiro sustenta cada palavra.
A diferença de folha salarial entre Flamengo e Fluminense
A distância entre os dois clubes, em reais, é abissal. Em 2025, quando o Fluminense chegou à semifinal do Mundial de Clubes da Fifa, a folha de pagamento do elenco tricolor era de aproximadamente R$ 16 milhões mensais — a oitava maior do futebol brasileiro na época. O Flamengo, no mesmo período, encerrou o ano com gastos mensais de cerca de R$ 40 milhões em salários de jogadores.
A proporção é clara: o Flamengo desembolsava 2,5 vezes mais por mês em salários do que o Fluminense. Considerando 12 meses, a diferença anual supera R$ 288 milhões apenas em folha — sem contar luvas, bônus por desempenho e valores de transferências.
O Palmeiras, citado por Bap na mesma frase, opera em patamar ainda mais elevado de investimento graças ao suporte da Crefisa, patrocinadora master que injetou mais de R$ 350 milhões no clube ao longo dos últimos anos. Ainda assim, Bap colocou os dois gigantes atrás do Flu em termos de eficiência.
Como o Fluminense transforma restrição em método
A semifinal do Mundial de Clubes da Fifa em 2025 não foi acidente. O Fluminense chegou àquela fase com um elenco avaliado muito abaixo dos rivais europeus, mas com um modelo de gestão esportiva que priorizou coesão tática, aproveitamento de jogadores em fim de contrato e valorização de ativos formados na base.
O clube das Laranjeiras tem histórico de contratar jogadores com valor de mercado depreciado e revendê-los com lucro expressivo. Um dos exemplos mais citados internamente é o de Ganso, recontratado com salário compatível com a realidade do clube e transformado em peça central de uma campanha continental. O modelo reduz o custo de aquisição e mantém a folha sob controle.
No mercado de transferências, o Fluminense também opera com critério diferente dos rivais. Enquanto o Flamengo e o Palmeiras podem pagar luvas de contratação na faixa de 10% a 15% do valor total do negócio, o Flu costuma negociar sem luvas ou com percentuais simbólicos, compensando com tempo de contrato e cláusulas de bônus por metas esportivas. Essa estrutura reduz o desembolso imediato e dilui o risco financeiro ao longo dos anos.
A receita total do Fluminense em 2025 ficou abaixo dos R$ 600 milhões, enquanto o Flamengo superou a marca de R$ 1,5 bilhão no mesmo período — uma diferença de mais de 2,5 vezes, que espelha quase exatamente a proporção das folhas salariais.
O efeito cascata para os rivais e o mercado nacional
O elogio de Bap tem consequência prática para o mercado. Quando o presidente de um clube com receita de R$ 1,5 bilhão admite que o rival é mais eficiente, o sinal enviado aos patrocinadores, investidores e gestores de outros clubes é de que volume de dinheiro não é garantia de retorno esportivo.
Para clubes de médio porte do Brasileirão — que operam com folhas entre R$ 5 milhões e R$ 12 milhões mensais —, o modelo do Fluminense funciona como referência mais alcançável do que o Flamengo ou o Palmeiras. A lógica de identificar jogadores subvalorizados, construir elencos coesos e manter disciplina orçamentária é replicável em escalas menores.
O impacto também chega ao mercado de contratações. Clubes que passam a ser reconhecidos por eficiência de gestão tendem a atrair jogadores dispostos a aceitar salários menores em troca de protagonismo e visibilidade — um ciclo que o Fluminense já alimenta há pelo menos três temporadas consecutivas.

Para o próprio Flamengo, a declaração de Bap funciona como autocrítica velada. Com R$ 40 milhões mensais em folha e uma estrutura que inclui o CT Ninho do Urubu e receitas de patrocínio superiores a R$ 400 milhões anuais, o clube rubro-negro ainda não conseguiu transformar investimento em hegemonia absoluta — tema central, aliás, do painel em que Bap falou nesta sexta.
O Fluminense enfrenta o Flamengo no Campeonato Brasileiro no segundo semestre de 2026, em data ainda a ser confirmada pela CBF. Se o Flu chegar àquele clássico com desempenho acima do esperado para seu orçamento, Bap vai lembrar exatamente do que disse hoje.
É o mesmo cenário que o Athletico-PR viveu em 2019 — só que agora a aposta é que o Fluminense repita a façanha de transformar restrição financeira em vantagem competitiva duradoura, não em ciclo isolado.











