Todo mundo sabe que o Flamengo foi eliminado pelo Vitória na quinta-feira (14). O que poucos param para calcular é o tamanho do que se perdeu naquele 2 a 0 no Barradão — não apenas em pontos de classificação ou em prêmios da CBF, mas na arquitetura de um projeto que o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, tinha construído publicamente, com nome e sobrenome, horas antes do apito inicial. Bap estava no "São Paulo Innovation Week" quando declarou, sem hesitar, que queria a tríplice coroa em 2026: Brasileirão, Libertadores e Copa do Brasil. O Vitória, com dois ataques e dois gols, respondeu antes que o presidente chegasse de volta ao Rio.
O que construiu a armadilha do Barradão
A eliminação não nasceu na quinta-feira. Ela foi sendo preparada ao longo de uma sequência de escolhas que o próprio Bap reconheceu publicamente. A demissão de Filipe Luís — anunciada logo após uma goleada de 8 a 0 sobre o Madureira, com o Flamengo classificado para a final do Campeonato Carioca — foi justificada pelo presidente com uma lógica fria: "Não está funcionando, mas vamos dar mais uma chance. Mas não dá para fazer a mesma coisa e esperar um resultado diferente." A contratação de Leonardo Jardim veio como resposta a esse diagnóstico. O técnico português assumiu um elenco qualificado, mas ainda em processo de assimilação de uma nova metodologia de jogo, e a Copa do Brasil cobrou esse preço antes dos demais.
Os números do jogo no Barradão são, ao mesmo tempo, o principal argumento de defesa de Jardim e o mais perturbador dado da noite: 74% de posse de bola para o Flamengo, 26 finalizações contra apenas cinco do Vitória, bola na trave, chances desperdiçadas na pequena área. E dois gols sofridos — um aos 7 minutos, em chute descrito pelo próprio treinador como "indefensável", e outro em falha defensiva num escanteio. Erick e Luan Cândido fizeram o que a estatística não previa e mandaram o Mengão para casa.
Jardim recusa o rótulo de vexame — mas os fatos têm peso próprio
Há quem defenda que uma equipe com 26 chutes e 74% de posse não pode ser acusada de entregar o jogo. O argumento tem base. Mas ele ignora uma variável central do futebol de mata-mata: eficiência. Dominar a bola sem converter é, em eliminatórias, equivalente a não dominar nada. O Vitória não precisou de mais do que cinco finalizações para avançar às oitavas de final da Copa do Brasil.
"Quando um time chuta 26 vezes e não marca, o problema não é técnico — é de mentalidade competitiva. Há uma diferença entre criar chances e saber matar o jogo", avaliou um comentarista esportivo que acompanhou a partida ao vivo no Barradão.
Jardim, por sua vez, foi direto na coletiva pós-jogo: "Não subestimamos. Sabíamos das dificuldades de jogar aqui. Entramos bem no jogo, controlamos, tivemos 70% de posse de bola, chutamos 26 vezes." E completou: "Não é vexame, mas é inesperado. O Flamengo contra qualquer adversário é sempre favorito." A afirmação é defensável na forma, mas o resultado a contradiz na substância. Ser favorito e cair para um adversário que finalizou cinco vezes não é vexame pelo esforço — mas é uma derrota que exige explicação além da narrativa de azar.
Com a eliminação na quinta fase, o Flamengo encerra sua participação na Copa do Brasil 2026 com apenas R$ 2 milhões em prêmios. A vaga nas oitavas de final renderia mais R$ 3 milhões pela tabela da CBF — dinheiro que ficou em Salvador. Não é o rombo financeiro que define o tamanho do problema, mas o simbólico: o clube mais rico do Brasil foi eliminado por uma equipe que luta para não cair na Série A.
O que resta ao Flamengo quando a Copa do Brasil fecha a porta
A pergunta agora não é sobre o que foi perdido — é sobre o que ainda pode ser construído. Bap, mesmo antes de saber do resultado, já havia colocado o Brasileirão como prioridade máxima ao justificar a demissão de Filipe Luís: "Você não ganha o Brasileiro no início, mas você perde." Com a Copa do Brasil fora do caminho, o foco se concentra em dois fronts: o campeonato nacional e a Libertadores.
A agenda dos próximos dias é imediata e exigente. No domingo (17), o Flamengo enfrenta o Athletico-PR, às 19h30, na Arena da Baixada, pela 16ª rodada do Brasileirão — um adversário que joga em casa e que historicamente complica a vida dos times grandes no Paraná. Três dias depois, na terça-feira (20), o Mengão recebe o Estudiantes, às 21h30, pela fase de grupos da Libertadores. E no dia 23, o Palmeiras espera no Brasileirão, em confronto que pode definir posições na tabela.

Jardim tem agora a agenda desobstruída de um torneio e o argumento de que a rotatividade do elenco — elogiada pelo próprio Bap como "nunca tão bem-feita quanto agora" — pode ser melhor gerenciada com dois objetivos ao invés de três. A tese é razoável. A execução, porém, começa já no domingo, na Arena da Baixada, contra um time que não vai facilitar só porque o Flamengo acabou de perder uma Copa do Brasil.









