O salão nobre da Mercado Livre Arena Pacaembu estava silencioso quando os nomes foram revelados. Depois, o barulho veio. Beatriz Souza e Rafaela Silva no mesmo card — duas campeãs olímpicas do judô brasileiro, em competição real, num evento que até então era território do boxe. O Spaten Fight Night de 29 de agosto não é mais o mesmo produto que colocou Anderson Silva e Wanderlei Silva no ringue. É outra coisa.
O judô como aposta central do evento
Nas duas primeiras edições, o Spaten Fight Night construiu sua identidade em torno de nomes do boxe e do MMA — Anderson Silva, Chael Sonnen, Acelino Popó Freitas e Wanderlei Silva foram os rostos que venderam o produto. A terceira edição rompe com esse modelo. Pela primeira vez, o evento incorpora jiu-jitsu e judô como modalidades competitivas, não como atração secundária. São três esportes no mesmo card, com representantes históricos de cada um na apresentação: Servílio de Oliveira, primeiro medalhista olímpico do boxe brasileiro; João Alberto Barreto, fundador da primeira federação de jiu-jitsu do mundo; e Chiaki Ishii, primeiro medalhista olímpico da história do judô no Brasil.
A sinalização é clara: o evento quer ser um festival de artes marciais, não apenas uma noite de boxe com convidados especiais. E a escolha de Bia Souza e Rafaela Silva para ancorar a parte do judô não é coincidência — é a decisão mais inteligente que a organização poderia tomar.
Bia Souza enfrenta Raz Hershko pela quinta vez
Beatriz Souza vai encarar a israelense Raz Hershko no dia 29 de agosto. Para quem acompanhou Paris 2024, o nome é familiar: foi diante de Hershko que Bia conquistou o ouro olímpico na categoria acima de 78kg. Mas o histórico vai além de uma única luta. As duas já se enfrentaram quatro vezes no circuito internacional, e Bia venceu todas. Quatro de quatro.
Isso não torna a luta irrelevante — torna ela mais interessante do ponto de vista técnico. Hershko é medalhista de prata olímpica, atleta de alto nível, e vai entrar no tatame com a motivação de quem precisa provar algo. Bia, por outro lado, tem domínio psicológico estabelecido sobre a adversária. A questão é se esse domínio se mantém num formato de evento diferente do circuito tradicional da IJF.
"Quando você enfrenta a mesma atleta cinco vezes, o jogo deixa de ser só físico — vira um xadrez mental. Quem muda o padrão primeiro, vence", disse um preparador físico de judô de alto rendimento que trabalha com seleções sul-americanas.
A análise faz sentido para esse confronto. Bia tem vantagem de envergadura e força na pegada, além de um uchi-mata que funcionou contra Hershko nas quatro ocasiões anteriores. Para a israelense virar o jogo, precisa alterar o padrão de distância e evitar a zona de conforto da brasileira nos primeiros 30 segundos de cada sequência.
Rafaela Silva e a medalha de prata de Paris no caminho
O outro confronto de judô escalado pelo Spaten Fight Night coloca Rafaela Silva diante de Prisca Awiti Alcaraz, medalhista de prata nos Jogos de Paris 2024 na categoria até 70kg. Rafaela conquistou seu ouro olímpico no Rio de Janeiro, em 8 de agosto de 2016, derrotando a mongol Sumiya Dorjsuren na final da categoria até 57kg com um waza-ari. Dez anos depois, ela volta ao tatame num evento de grande visibilidade.
Awiti Alcaraz é queniana-mexicana, competiu por Paris 2024 pelo México e chegou à final olímpica — ou seja, não é adversária decorativa. Rafaela, que acumula também o título de campeã mundial, vai precisar de mais do que reputação para vencer essa luta. A diferença de categoria original entre as duas (Rafaela competia até 57kg, Awiti Alcaraz até 70kg) sugere que o confronto será disputado em peso ajustado, o que nivela fisicamente as atletas.
O que Rafaela traz para esse tatame é técnica refinada e uma leitura de combate que poucos judocas do mundo têm. Seu ne-waza — o jogo no chão — foi historicamente subestimado pelos adversários. Awiti Alcaraz vai precisar resolver a luta em pé para ter chance real.
O que o Pacaembu vai ver em 29 de agosto
O card completo ainda não foi divulgado. A organização anunciou que outros nomes serão confirmados nas próximas semanas, o que indica que boxe e jiu-jitsu também terão confrontos de peso. Mas a âncora já está definida: os dois duelos de judô com medalhistas olímpicas são a atração principal, não coadjuvante.
Para o judô brasileiro, que vive um momento de visibilidade histórica após os resultados em Paris 2024, aparecer num evento de entretenimento desse porte é uma janela de exposição que o esporte raramente consegue fora do ciclo olímpico. Bia Souza e Rafaela Silva juntas num mesmo card, contra adversárias de nível olímpico, num palco como o Pacaembu — isso não é exibição. É competição com plateia nova.
O Spaten Fight Night acontece em 29 de agosto na Mercado Livre Arena Pacaembu, em São Paulo. Bia Souza enfrenta Raz Hershko buscando o quinto triunfo consecutivo sobre a israelense. Rafaela Silva mede forças com Prisca Awiti Alcaraz, prata olímpica de Paris. Dois tatames. Dois confrontos. Uma tese: o judô brasileiro não precisa de Olimpíada para lotar arena.
Uma receita que leva anos para fermentar não se explica pelo prato final — ela se revela no processo. O que o Spaten Fight Night está construindo com Bia e Rafaela é exatamente isso: uma cultura de consumo de judô de alto nível fora do calendário olímpico, tijolo por tijolo, evento por evento.












