Não, Neymar não é mais o eixo gravitacional em torno do qual o Santos orbita. E a cena mais reveladora da noite desta quarta-feira (13), no Couto Pereira, não foi uma jogada genial do camisa 10 — foi exatamente o momento em que outro jogador o ignorou. Gabriel Bontempo, pela esquerda, recebeu a bola na entrada da área, viu Neymar centralizado pedindo o passe, e chutou. Gol. Couto Pereira calado, 36 mil torcedores paranaenses engolindo a desvantagem, e um sinal tático que o SportNavo acompanhou com atenção: o Santos aprendeu a jogar sem esperar permissão do seu nome mais famoso.

O Santos que chegou ao Couto Pereira ainda carregava cicatrizes

A classificação para as oitavas da Copa do Brasil não chegou sem tensão prévia. O empate em 0 a 0 no jogo de ida, na Vila Belmiro, deixou o Peixe obrigado a vencer fora de casa — diante de uma torcida hostil e um Coritiba que iniciou a partida em ritmo acelerado, pressionando e chegando a balançar as redes aos 14 minutos com Bruno Melo, gol anulado por impedimento após intervenção do VAR. Nos primeiros oito minutos, Gabriel Brazão precisou se esticar para espalmar chute de Lucas Ronier da entrada da área. O Santos mal trocava passes e João Schmidt saiu lesionado, sendo substituído por Willian Arão ainda no primeiro tempo.

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O Santos que chegou ao Couto Pereira ainda carregava cicatrizes Bontempo ignorou
O Santos que chegou ao Couto Pereira ainda carregava cicatrizes Bontempo ignorou

Cuca, que havia repetido a escalação que bateu o Red Bull Bragantino por 2 a 0 no domingo (10) pelo Brasileirão, manteve Neymar como falso 9 e deixou Gabigol no banco. A escolha diz muito sobre a fase atual: o técnico prioriza mobilidade e construção coletiva a uma referência fixa de área. E foi dentro dessa lógica que o Santos sobreviveu ao sufoco inicial e, em sete minutos cirúrgicos, resolveu a eliminatória.

Dois gols, duas únicas finalizações certas — e Neymar como coadjuvante

Aos 19 minutos, Bontempo recebeu pela esquerda, conduziu até o bico da grande área e acertou chute colocado no canto esquerdo de Pedro Rangel. O passe que originou a jogada partiu de Neymar — uma assistência registrada nas estatísticas, mas que, na realidade, foi um toque simples e curto, longe do gesto técnico que costuma definir partidas. Aos 26, Adonis Frías ampliou de cabeça após jogada ensaiada: cobrança curta de escanteio, Neymar acionou Igor Vinícius, que cruzou na medida para o zagueiro argentino — o mesmo que havia marcado contra o Bragantino dias antes — subir livre e testar firme. Dois gols, duas únicas finalizações certas do Santos em toda a partida, conforme os dados de finalização do jogo.

Neymar, por sua vez, transitou entre lampejos e apagões. Mostrou evolução física — movimentou-se mais, buscou a bola em posições recuadas, sofreu faltas —, mas os momentos de explosão individual seguiram escassos. Quando foi ao cara a cara com o goleiro, o zagueiro Jaci o cortou. Quando finalizou dentro da área no segundo tempo, acertou em cima da defesa. Aos 38 minutos da etapa final, saiu para a entrada de Gabigol. Ao chegar ao banco, respondeu às provocações da torcida do Coxa com o sinal de 2 a 0, mandando beijos e acenando para a arquibancada — e quase foi acertado por um copo d'água.

"E vocês vão ficar em casa", respondeu Neymar aos torcedores que entoavam que ele não iria à Copa do Mundo.

O que mudou na hierarquia ofensiva do Santos e o que isso significa

Há dois meses, a cena de Bontempo ignorando o pedido de Neymar seria impensável na Vila Belmiro. O camisa 10 pedia, o camisa 10 recebia. O que Cuca construiu nas últimas semanas é uma redistribuição real de poder dentro do campo: Rollheiser e Bontempo aparecem como protagonistas de jogadas, a equipe circula com mais fluidez, e Neymar funciona como mais um elemento do sistema — não como seu centro nervoso. O Santos saiu do Couto Pereira com a segunda vitória consecutiva, embolsando os R$ 3 milhões de premiação da CBF pela vaga nas oitavas, e com algo mais difícil de quantificar: a sensação de que o time pode jogar bem mesmo quando Neymar não está em seu melhor dia.

Para a convocação da seleção brasileira, anunciada por Carlo Ancelotti na segunda-feira (18), no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, a atuação desta quarta pouco acrescenta ao argumento técnico do jogador. A assistência existe, mas foi um toque simples. O impacto decisivo que Ancelotti precisaria ver — aquele que justifica levar um atleta de 34 anos com histórico recente de lesões a uma Copa do Mundo — não apareceu no Couto Pereira. O Santos avançou apesar de Neymar ter sido, como descreveu uma das coberturas da noite, apenas mais um em campo.

"Apesar de adicionar mais uma participação em gol aos seus números na temporada, individualmente não trouxe novos ou melhores argumentos por uma vaga entre os 26", escreveu um dos analistas que acompanhou o jogo.

O Santos volta a campo no domingo (17), às 11h (horário de Brasília), para enfrentar o mesmo Coritiba — desta vez pela 16ª rodada do Brasileirão, na Neo Química Arena. Será o último teste de Neymar antes da convocação: se ele não mudar os ponteiros de Ancelotti em 90 minutos diante do Coxa, a resposta sobre sua presença ou ausência no Mundial chegará na segunda-feira, 18 de maio.