A morte de um espectador durante o Rally Sudamericano de Mina Clavero, na Argentina, reacende o debate sobre os protocolos de segurança no automobilismo sul-americano. O acidente, causado por um capotamento que invadiu a área destinada ao público, evidencia diferenças significativas entre as regulamentações brasileira e argentina para provas de rally em território urbano.

Protocolos brasileiros são mais restritivos

No Brasil, a Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) estabelece distância mínima obrigatória de 15 metros entre espectadores e a pista em trechos urbanos, com barreiras de concreto como requisito técnico fundamental. A medida foi implementada após o último acidente fatal envolvendo público no país, registrado em 2011 durante uma prova regional em Minas Gerais.

A Argentina, por sua vez, permite aproximação de espectadores até 10 metros da pista em determinados segmentos, utilizando principalmente cordas de isolamento e sinalização visual. Segundo apuração do SportNavo, essa diferença de cinco metros pode ser determinante em situações de capotamento ou saída de pista, considerando que veículos de rally atingem velocidades superiores a 150 km/h mesmo em áreas urbanas.

Dados estatísticos revelam cenário preocupante

Levantamento realizado pela Federação Internacional do Automóvel (FIA) aponta que 73% dos acidentes graves em rallies ocorrem em trechos com velocidade superior a 120 km/h, sendo que 60% desses incidentes resultam em saída de pista lateral. Os números demonstram que a zona de segurança estabelecida pode fazer diferença crucial na preservação de vidas.

O regulamento técnico brasileiro também exige presença obrigatória de ambulâncias UTI a cada três quilômetros de prova, enquanto o protocolo argentino prevê cobertura médica a cada cinco quilômetros. Essa densidade maior de atendimento de emergência contribuiu para que o Brasil registrasse tempo médio de resposta de 4,2 minutos em acidentes graves, contra 7,8 minutos na Argentina, conforme dados de 2024.

Tecnologia de monitoramento em tempo real

A CBA implementou desde 2019 sistema de telemetria obrigatória em todas as categorias nacionais de rally, permitindo monitoramento em tempo real da velocidade e posição dos competidores. O equipamento, instalado em parceria com empresa brasileira especializada, registra dados a cada 0,2 segundos e pode acionar automaticamente equipes de resgate em caso de impacto superior a 15G.

Na Argentina, esse tipo de monitoramento ainda não é obrigatório para todas as categorias, limitando-se às provas do Campeonato Mundial de Rally (WRC). A ausência dessa tecnologia dificulta a resposta rápida a acidentes e compromete a análise posterior dos incidentes para aprimoramento dos protocolos de segurança.

Impacto econômico versus segurança

A implementação de medidas de segurança mais rigorosas representa custos adicionais significativos para organizadores de eventos. No Brasil, cada quilômetro de prova urbana demanda investimento médio de R$ 12 mil apenas em barreiras e isolamento, valor que pode inviabilizar provas menores ou regionais.

Organizadores argentinos argumentam que a flexibilização de alguns protocolos permite maior proximidade do público com a competição, aspecto considerado fundamental para o crescimento comercial do esporte na região. Contudo, especialistas em segurança automotiva defendem que nenhum benefício econômico justifica exposição desnecessária de espectadores a riscos fatais.

A tragédia de Mina Clavero deve servir como marco para revisão dos protocolos de segurança em toda América do Sul. O próximo encontro da Comissão de Segurança da CODASUR (Confederação Desportiva de Automobilismo da América do Sul) está agendado para março de 2025, em Buenos Aires, onde será discutida padronização das normas de proteção ao público em eventos de rally.