Não, Agustín Canobbio não é o atacante mais talentoso da seleção uruguaia. Nunca foi. Mas é exatamente aí que a narrativa popular sobre ele erra feio — porque Copa do Mundo não se vence só com talento. Vence-se com quem corre quando os outros andam, com quem empurra quando os outros esperam. E no Hard Rock Stadium, em Miami Gardens, neste domingo de calor úmido de dar tontura, foi justamente esse uruguaio do Fluminense quem decidiu.
O gol que derrubou a narrativa do Uruguai dependente
Cabo Verde havia feito o que ninguém esperava: abriu o placar aos 20 minutos com uma falta violenta cobrada por Kevin Pina, que superou Muslera e entrou para a história como o primeiro gol cabo-verdiano em Copas do Mundo. O estádio, tomado por uma torcida que havia adotado os africanos como a sensação do torneio, explodiu. A mãe de Vozinha, Ana Candida Évora, estava nas arquibancadas — a Federação Cabo-Verdiana bancou a viagem da família do goleiro após sua atuação lendária contra a Espanha, quando o arqueiro de 40 anos fez sete defesas e foi eleito o melhor em campo.
O Uruguai levou um susto. Maxi Araújo empatou logo em seguida, mas a partida ainda estava em aberto quando o cronômetro marcou 50 minutos do primeiro tempo. Foi então que Ugarte recebeu na intermediária, cruzou na medida para Maxi Araújo, que desviou de cabeça para Canobbio. O atacante não perdoou: empurrou para as redes e virou o placar. Gol de centroavante oportunista. Gol de jogador que aparece quando precisa.
Nas redes sociais, a reação foi imediata.
"Podem falar o que quiserem do Canobbio, mas ele é um jogador extremamente voluntarioso e que se dedica 100% ao time."O comentário, que viralizou entre torcedores, capturou com precisão o que o atacante representa para o Uruguai de Bielsa — não o craque que resolve sozinho, mas o jogador que faz o time funcionar.
O que o gol contra Cabo Verde revela sobre Canobbio na Copa
A narrativa mais comum sobre este Uruguai é a da dependência de Arrascaeta. Parte dos torcedores chegou ao ponto de dizer que "a seleção uruguaia sem Arrascaeta é nível Série B", e as redes sociais explodiram com variações desse argumento após o primeiro tempo truncado. Mas essa leitura ignora um dado concreto: Canobbio tem sido o jogador mais presente em momentos decisivos da temporada.

No Fluminense, o atacante acumulou 18 participações em gols ao longo da temporada — 10 delas em partidas eliminatórias. Ele dita o ritmo de pressão, cobre o lado direito com Samuel Xavier, e mantém um cronograma físico rigoroso fora dos treinos, com dieta e recuperação controladas. Não é acaso que pessoas próximas ao clube relatam um jogador que ficou visivelmente incomodado ao assistir de camarote à semifinal da Copa do Brasil contra o Vasco — ele odeia ficar fora de campo.
Esse perfil tem um paralelo preciso para quem conhece o futebol paulistano: é o jogador que você não percebe no primeiro tempo, mas que no segundo você não consegue tirar dos olhos. Como o trânsito da Avenida Paulista às 18h — invisível antes, inevitável depois.

Canobbio titular contra a Arábia Saudita e o histórico que preocupa os sauditas
O confronto contra a Copa do Mundo já tem um capítulo com Canobbio e Arábia Saudita. Na primeira rodada do Grupo H, o atacante entrou no segundo tempo e infernizou a defesa rival. Em uma das jogadas, o saudita Al-Harbi entrou duro no uruguaio — sem receber cartão amarelo, o que gerou revolta generalizada nas redes. O comentarista PC Oliveira, da Globo, avaliou que o lance merecia advertência. Canobbio saiu gritando de dor, mas voltou a correr. Esse detalhe diz tudo sobre ele.
Agora, com a virada contra Cabo Verde no currículo e a confiança de Bielsa aparentemente consolidada, o atacante deve começar como titular no próximo confronto. A Arábia Saudita já sabe o que ele é capaz de fazer — e vai precisar de uma resposta melhor do que Al-Harbi deu na primeira rodada.
Canobbio não é o nome que aparece na manchete. É o nome que faz a manchete acontecer.








