A última vez que a Copa do Mundo masculina não passou inteira pela Globo foi em 1982, na Espanha — ano em que Zico era o craque do Brasil, o torneio ainda tinha 24 seleções e a transmissão chegava ao país por satélite em condições técnicas que hoje pareceriam medievais. Quarenta e quatro anos depois, a ruptura se repete, mas agora não foi a Globo que perdeu os direitos: foi ela mesma que adquiriu apenas 52 das 104 partidas da Copa de 2026, enquanto a CazéTV, canal do streamer Casimiro Miguel no YouTube, garantiu a cobertura completa do torneio de forma gratuita.
O anúncio foi feito pela CazéTV em suas redes sociais no dia 13 de junho de 2026, com tom comemorativo e uma comparação direta ao Mundial do Qatar, em 2022, quando o canal transmitiu apenas um jogo por dia. Para 2026, serão todos os 104 confrontos, da fase de grupos à grande final, disputada em 19 de julho. O feito é inédito para uma plataforma digital aberta no Brasil: nenhum canal do YouTube havia conquistado direitos completos de uma Copa do Mundo antes.
104 contra 52 — o número que redesenha o mapa das transmissões no Brasil
A matemática é simples e brutal. A CazéTV, por meio de acordo entre a agência LiveMode e a FIFA, detém direitos de sublicenciamento para todas as 104 partidas. A Globo, que em 2022 transmitiu 56 das 64 partidas na TV aberta e exibiu 100% dos jogos no SporTV, Globoplay e Ge.com, chegou à Copa de 2026 com um pacote de 52 partidas — metade da competição. Existe uma margem de expansão: caso o Brasil seja eliminado na semifinal, a emissora poderá transmitir o duelo pelo terceiro lugar, elevando o total para 56 jogos. O SBT adquiriu um pacote separado com 32 partidas, em parceria com a N Sports, incluindo todos os jogos da seleção brasileira e a final, com narração de Galvão Bueno.

No mata-mata, os números da Globo ficam ainda mais apertados: 4 das 8 partidas das oitavas de final, apenas 2 das quartas e 1 das 2 semifinais. Quem quiser ver o torneio completo, sem depender da sorte do chaveamento, terá que recorrer ao YouTube da CazéTV. Quando o Bayern de Munique dominou a Bundesliga por 10 temporadas seguidas, de 2013 a 2023, analistas diziam que o monopólio esgotava o produto. O mercado de transmissões brasileiro viveu algo parecido com a Globo desde 1982 — e agora experimenta, de repente, um pluralismo que o espectador ainda está aprendendo a navegar.
"O modelo antigo de TV aberta como única porta de entrada para a Copa já era um anacronismo. Quem não se adaptou ao YouTube como plataforma de esporte ao vivo vai sentir essa Copa de um jeito muito diferente", disse um diretor comercial de uma das maiores agências de publicidade do país, em entrevista ao mercado, conforme registrado por SportNavo.
A GE TV entra em campo sem saber qual é sua posição
Enquanto a CazéTV celebra a exclusividade digital completa, o Grupo Globo enfrenta uma ambiguidade interna que o próprio mercado publicitário já notou. A GE TV, novo canal digital da emissora, não aparece no pacote comercial enviado aos anunciantes. O documento lista TV aberta (Globo), TV por assinatura (SporTV), streaming (Globoplay) e cobertura em tempo real pelo Ge.com — mas silencia sobre a nova plataforma. A Globo prepara conteúdos exclusivos para o canal, com programas específicos e parte do elenco acompanhando o torneio na América do Norte, mas a função da GE TV na transmissão ao vivo dos jogos permanece indefinida.
A comparação histórica que me ocorre aqui é a da ITV britânica nos anos 1990, quando a emissora perdeu gradualmente espaço para a BSkyB na Premier League e tentou compensar com produções de estúdio cada vez mais elaboradas — sem conseguir segurar a audiência que queria o jogo ao vivo. A GE TV corre risco semelhante: se não tiver jogo ao vivo, vira canal de comentário sobre o que o torcedor já assistiu em outro lugar.
O plano comercial da Globo, segundo informações do Estadão, projeta receita de quase R$ 2 bilhões com anunciantes para a Copa de 2026, somando cotas de TV aberta, Ge.com e SporTV. É um número expressivo, mas que precisa ser lido com cautela: em 2022, a emissora era a única plataforma digital com cobertura completa. Em 2026, divide o espectador com uma plataforma gratuita que não exige cadastro, não trava em horário de pico e já demonstrou capacidade técnica na Copa do Mundo de Clubes de 2025, quando transmitiu 100% dos jogos — competição encerrada com o Chelsea campeão.
O mercado publicitário diante de uma audiência que migrou para o YouTube
A CazéTV não é apenas Casimiro Miguel. É uma operação estruturada pela LiveMode, agência que adquiriu os direitos da FIFA com cláusula de sublicenciamento — o mesmo mecanismo que permitiu ao SBT comprar seu pacote de 32 jogos. No Qatar, em 2022, o canal começou timidamente, com um jogo por dia. Na Copa do Mundo de Clubes de 2025, escalou para cobertura total. O salto para 104 jogos em 2026 é a consolidação de um ciclo de três torneios que transformou o canal numa referência de transmissão esportiva no Brasil, com uma linguagem que mescla análise técnica, humor e participação de ex-jogadores — Ronaldo Fenômeno e Romário já apareceram na plataforma durante transmissões anteriores.
Para as marcas, o dilema é genuíno. A Globo oferece alcance consolidado, dados de audiência auditados por décadas e uma estrutura comercial que os grandes anunciantes conhecem de cor. A CazéTV oferece um público mais jovem, engajamento mensurável em tempo real e um formato que a geração que cresceu no YouTube consome com naturalidade. Não é uma escolha entre qualidade e popularidade — é uma escolha entre dois modelos de negócio que ainda não sabem exatamente qual deles vai dominar o próximo ciclo. Quando a Serie A italiana abriu para transmissões via streaming em 2018, os clubes demoraram três temporadas para entender que o modelo antigo de exclusividade havia morrido. O Brasil está no começo desse processo.
A Copa do Mundo de 2026 começa em 11 de junho, nos Estados Unidos, México e Canadá, e é a primeira edição com 48 seleções — o que explica, em parte, o salto de 64 para 104 partidas. Mais jogos significam mais janelas de transmissão, mais conflitos de horário e mais oportunidades para uma plataforma com capacidade ilimitada de streams simultâneos, como o YouTube, levar vantagem sobre uma grade de TV com horários fixos. A Globo terá seu primeiro teste real nessa nova geometria já nas oitavas de final, quando transmitirá apenas 4 dos 8 jogos — e o torcedor que quiser ver os outros quatro saberá exatamente onde encontrá-los. O canal de Casimiro já tem 12 milhões de inscritos no YouTube e, pela primeira vez em quatro décadas, a emissora carioca não será a única voz da Copa para o brasileiro que liga a televisão — ou abre o celular — em busca do jogo.
O que está se construindo aqui é menos uma batalha de audiência e mais uma reforma arquitetônica silenciosa: as paredes mestras da televisão aberta ainda estão de pé, mas os cômodos já foram redistribuídos, e ninguém pediu autorização para mexer na planta.








