Todo mundo sabe que o empate em 1 a 1 contra o Grêmio não foi o pior resultado da semana do Bahia. A eliminação para o Remo na Copa do Brasil, na quinta fase, já havia feito isso. O que a tarde de domingo na Arena Fonte Nova fez foi expor, com vaias e faixas, o quanto o clube chegou a um ponto de ruptura com Rogério Ceni — mesmo que o técnico insista em não usar essa palavra.
Ceni sob fogo cruzado na Fonte Nova
A crise não esperou o apito final para aparecer. Antes mesmo do início da partida deste domingo (17), torcedores já haviam estendido faixas pedindo a saída do treinador. Durante os 90 minutos, os cânticos foram diretos: "Rogério Ceni, o Bahia não precisa de você". Willian José e Everton Ribeiro também deixaram o campo vaiados ao serem substituídos no segundo tempo.
O Grêmio abriu o placar aos 16 minutos do segundo tempo com o zagueiro Viery, em cobrança de escanteio de Pedro Gabriel — o único chute dos gaúchos no alvo em toda a partida. O Bahia havia finalizado 17 vezes, com apenas um gol. Sanabria, saindo do banco, empatou aos 26 minutos após cruzamento de Rodrigo Nestor. Everaldo ainda acertou a trave nos acréscimos. Placar final: 1 a 1.
Após o jogo, Ceni foi direto ao responder sobre seus limites:
"Se o meu limite for o que aconteceu hoje, então esse, realmente, é o limite. Ter sete oportunidades claríssimas de gol. O que eu não consigo controlar é a bola entrar ou não."
O treinador completou com uma defesa de sua rotina de trabalho:
"Eu saio de casa sete da manhã, chego sete da noite. Eu monto o treino, dou o treino, assisto o treino após ele, assisto o adversário, apresento correções. Se o teto é você ter todas as possibilidades de ganhar o jogo, mas a bola não entrar, por ela bater na trave, o goleiro fazer defesas, aí considero um teto, mas foge do meu controle."
Os números que a torcida do Bahia não quer ver
Cinco jogos sem vencer no Brasileirão — duas derrotas e três empates — colocaram o Bahia na 7ª posição com 23 pontos após 16 rodadas. A queda para fora do G-6 acontece numa sequência que inclui também a eliminação na fase prévia da Copa Libertadores, diante do O'Higgins, ainda no início da temporada.
O padrão de criação é o problema mais visível. Contra o Grêmio, o Bahia finalizou 17 vezes para apenas 1 gol marcado — aproveitamento de 5,8%. Weverton, goleiro do Grêmio, fez ao menos duas defesas difíceis só na primeira etapa, quando o time baiano gerou 9 finalizações e acertou o alvo 3 vezes. A eficiência ofensiva, ou a falta dela, é recorrente nesta sequência sem vitórias.
A eliminação para o Remo na Copa do Brasil é o dado que mais pesa no currículo recente de Ceni. O clube paraense, da Série B, eliminou o Bahia em partida que o próprio técnico admitiu ter sido "fora do tom", mesmo reconhecendo que o Bahia controlou o jogo. Resultado é preponderante — e o Bahia caiu.
Ceni está no clube desde o final de 2023. Neste ciclo, conquistou o Campeonato Baiano em 2026, batendo o Vitória, o que representa o único título da temporada. O contexto de lesões e saídas de jogadores é citado pelo treinador como fator de desequilíbrio no plantel, mas a diretoria ainda não se pronunciou publicamente sobre a continuidade do trabalho.
O que o Grêmio mostrou que o Bahia precisa resolver
O Grêmio chegou à Fonte Nova na 15ª posição, com 18 pontos — mesma pontuação de Santos e Corinthians, que ocupam o 16º e 17º lugares, respectivamente. Um time na beira do Z-4 conseguiu sair de Salvador com um ponto. Isso diz mais sobre o Bahia do que sobre o adversário.
O time gaúcho finalizou apenas 3 vezes em toda a partida. Não criou uma única chance clara no primeiro tempo. E ainda assim abriu o placar e administrou a vantagem por mais de dez minutos. A fragilidade do Bahia em converter pressão em resultado concreto é o nó que Ceni ainda não desatou.
Questionado se pediria demissão, o treinador foi enfático:
"Você abandonaria sua profissão se alguém te ofendesse? Eu tenho 36 anos de carreira. Uma coisa que nunca fui é acomodado e nunca tive preguiça de trabalhar."
O Bahia volta a campo na próxima segunda-feira (25), visitando o Coritiba no Couto Pereira, pela 17ª rodada do Brasileirão. Uma derrota fora de casa, para um adversário direto na tabela, pode tornar o debate sobre a permanência de Ceni ainda mais difícil de ignorar — dentro e fora do clube. O jogo do Couto Pereira é o termômetro mais imediato desta crise.









