Três coisas: um árbitro, um empurrão e um apito silenciado. Tudo o que o torcedor brasileiro precisa saber sobre a escalação de César Ramos para o jogo decisivo desta Copa do Mundo começa e termina nessa tríade de Rostov, 17 de junho de 2018.

O dia em que Miranda caiu e o México não viu

O Hard Rock Stadium de Miami receberá na quarta-feira, 24 de junho, o confronto entre Brasil e Escócia pela terceira e última rodada do Grupo C da Copa do Mundo 2026. A FIFA anunciou neste domingo, 21, que o responsável por comandar a partida será o mexicano César Ramos, de 43 anos, com os assistentes compatriotas Alberto Morin e Marco Bisguerra, o quarto árbitro norueguês Espen Eskas e o árbitro reserva Jan Erik Engan, também da Noruega.

O nome de Ramos não chegou à redação como uma informação neutra. Chegou como uma cicatriz reaberta. Naquela tarde de 2018 em Rostov-on-Don, o Brasil entrou em campo como favorito absoluto contra a Suíça e saiu com um empate de 1 a 1 que comprometeu o saldo de gols e o moral da campanha. O gol suíço, marcado por Steven Zuber aos 50 minutos do segundo tempo, nasceu de uma jogada em que o atacante deslocou o zagueiro Miranda com um empurrão inequívoco — ignorado por Ramos, ignorado pelo VAR. Minutos depois, Gabriel Jesus foi derrubado na área por Manuel Akanji numa dividida que levou a Arena Rostov ao delírio protestatório, mas o árbitro mexicano seguiu em frente sem sequer consultar o monitor. O Brasil terminou o jogo com dois episódios de arbitragem que, somados, custaram potencialmente dois pontos e a liderança do Grupo E daquele torneio.

Seria injusto chamar o que aconteceu naquela tarde de maldição — mas é uma maldição em escala documental para qualquer analista que abre o arquivo e relê o relatório técnico daquele jogo.

O que Ramos fez entre 2018 e a Copa do Mundo 2026

O currículo de César Ramos entre as duas Copas não é de um árbitro periférico. No Catar, em 2022, ele apitou três partidas, incluindo a vitória de Marrocos sobre a Bélgica por 2 a 0 na fase de grupos — jogo tecnicamente limpo e sem grandes polêmicas registradas pela FIFA. No Mundial de Clubes de 2025, protagonizou um episódio inusitado ao expulsar o argentino Nicolás Figal, do Boca Juniors, em partida contra o Benfica: ao exibir o cartão vermelho, Ramos segurou junto com ele uma imagem da Virgem de Guadalupe, padroeira do México, cena que circulou globalmente nas redes sociais. Na Copa do Mundo 2026, já apitou o empate por 2 a 2 entre Irã e Nova Zelândia, em Los Angeles, sem incidentes dignos de nota.

O árbitro mexicano, portanto, chega a Miami com um histórico que vai além de 2018 — mas o futebol tem memória seletiva, e a memória seletiva do torcedor brasileiro tem o sobrenome Ramos gravado a ferro e fogo desde Rostov.

O que Brasil precisa e o que a arbitragem vai arbitrar

A situação do Brasil no Grupo C é matematicamente confortável, mas psicologicamente exigente. Com a vitória sobre o Haiti por placar não divulgado nas fontes disponíveis na sexta-feira, 19, a Seleção chegou a quatro pontos e assumiu a liderança, com dois gols de vantagem sobre Marrocos — que venceu a Escócia por 1 a 0 na rodada anterior. Um empate contra os escoceses garante a classificação. Uma vitória, somada a um tropeço de Marrocos diante do Haiti em Atlanta, assegura a liderança do grupo e o direito de manter a base em Morristown, estrutura elogiada internamente pela comissão técnica desde 2 de junho.

O cruzamento das oitavas de final também está em jogo: os dois classificados do Grupo C enfrentarão times do Grupo F, que reúne Holanda, Suécia, Japão e Tunísia. A posição final na chave define o adversário — diferença relevante para o planejamento de Ancelotti nas rodadas seguintes.

Nesse cenário, a arbitragem de Ramos incide sobre um jogo em que o Brasil pode jogar pelo empate, o que historicamente aumenta a tensão nas disputas de bola na área e nos duelos físicos — exatamente o tipo de lance que ficou para sempre associado ao nome do mexicano. A Escócia, eliminada com apenas três pontos ou menos dependendo dos resultados, tem incentivo para buscar o resultado e pode adotar um jogo mais físico, especialmente nas bolas aéreas, onde historicamente os britânicos exploram a vantagem de estatura.

"A torcida brasileira ainda lembra de Rostov. E não é paranoia — é experiência acumulada", como resumiu a percepção geral da imprensa especializada ao receber o nome de Ramos para o jogo de quarta-feira.

Do ponto de vista técnico, um árbitro que apitou três jogos no Catar e já tem uma partida neste Mundial não chega despreparado. A FIFA não escala árbitros para jogos de definição de grupo sem critério mínimo de desempenho nas rodadas anteriores. O empate 2 a 2 entre Irã e Nova Zelândia em Los Angeles, o jogo de estreia de Ramos nesta Copa, foi conduzido sem registros formais de reclamação junto à comissão de arbitragem da entidade.

"Ele apitou o Brasil-Suíça em 2018 e a torcida nunca esqueceu. Mas o que importa agora é o que ele vai fazer em Miami", ponderou fonte da delegação brasileira, segundo informações disponíveis na cobertura da imprensa nacional.

O Brasil joga na quarta-feira, 24 de junho, às 22h (horário de Brasília), no Hard Rock Stadium, em Miami, precisando de ao menos um empate contra a Escócia para avançar às oitavas de final da Copa do Mundo 2026 — com César Ramos no apito e oito anos de memória coletiva pesando sobre cada lance na área adversária.