Todo mundo sabe que Alessandro Zanardi se tornou um dos maiores exemplos humanos do automobilismo mundial. O que poucos imaginavam era que a voz capaz de contar essa história com mais precisão e emoção viria de um rival de pista — Christian Fittipaldi, que dividiu boxes, trajetórias e respeito com o italiano ao longo de anos de competição na Fórmula 1 e na Indy.
A cena
Em entrevista ao Motorsport.com, Fittipaldi mal conseguiu terminar as frases quando o assunto chegou a Zanardi. O ex-piloto brasileiro, hoje com 53 anos e atuando como chefe de equipe na Stock Car, pausou, respirou fundo e deixou os olhos úmidos fazerem parte da resposta. Não era performance. Era memória de pista convertida em emoção crua.
"Alguém que lutou sempre", disse Fittipaldi ao se referir a Zanardi, numa síntese que carregava décadas de convivência dentro e fora dos cockpits.
A cena do piloto gaúcho — criado na tradição automobilística dos Fittipaldi, família que moldou a identidade do esporte no Brasil — emocionado ao falar de um rival italiano não é banal. É o tipo de gesto que revela o que a velocidade frequentemente esconde: a humanidade dos que vivem à beira do limite.
O contexto que explica
Fittipaldi e Zanardi dividiram o grid da Fórmula 1 nos anos 1990, quando o italiano corria pela Jordan e pela Lotus e o brasileiro defendia as cores da Minardi e da Footwork. Eram pilotos de estilos distintos: Zanardi, exuberante e agressivo nas ultrapassagens; Fittipaldi, metódico e calculista na construção de ritmo. A rivalidade ganhou novo capítulo na CART, a principal categoria americana da época, onde Zanardi foi bicampeão em 1997 e 1998 — temporadas em que Fittipaldi também competia pela Newman/Haas Racing.
Segundo apuração do SportNavo, os dois chegaram a dividir etapas memoráveis na Indy, com disputas que raramente precisavam de palavras depois da linha de chegada — o respeito era comunicado pelo centímetro de espaço que cada um deixava para o outro nas curvas. Zanardi, em especial, tinha o hábito de transformar qualquer ultrapassagem numa declaração de arte cinética.
Em setembro de 2001, na pista de Lausitzring, na Alemanha, o mundo do automobilismo parou. Zanardi sofreu um acidente gravíssimo durante uma etapa da CART: perdeu as duas pernas após um impacto brutal com o carro de Alex Tagliani. A recuperação foi longa, dolorosa e, para muitos, aparentemente impossível. O que viria depois, no entanto, reescreveu o roteiro.
As implicações imediatas
Zanardi não apenas sobreviveu — competiu. Tornou-se atleta paraolímpico de handbike e conquistou quatro ouros nos Jogos Paralímpicos, incluindo medalhas em Londres 2012 e Rio 2016. Em 2020, sofreu novo acidente grave durante uma prova de handbike na Toscana e voltou a lutar pela vida. A família confirmou seu falecimento em 1º de maio de 2026, aos 59 anos, encerrando uma trajetória que havia se tornado referência mundial de resiliência.
"Zanardi foi um dos maiores exemplos de vida que o automobilismo já produziu", afirmou Augusto Farfus, piloto brasileiro da BMW, em nota divulgada após a morte do italiano — palavras que ecoaram o sentimento de toda uma geração de pilotos.
Para Fittipaldi, a morte do amigo fecha um capítulo que começou nas pistas mas se prolongou muito além delas. A análise do SportNavo sobre as declarações do ex-piloto aponta que a emoção de Christian não é apenas luto — é o reconhecimento de que Zanardi representava uma forma de viver o esporte que poucos conseguem articular em palavras. A rivalidade dos anos 90, travada em trajetórias de 300 km/h, havia se convertido numa amizade moldada pelo respeito mútuo diante da adversidade.
Fittipaldi, que encerrou sua carreira como piloto profissional no início dos anos 2000 e construiu uma segunda vida no automobilismo como gestor na Stock Car brasileira, carrega agora a memória de um rival que foi, acima de tudo, um espelho de coragem. O italiano que perdeu as pernas e pedalou com os braços rumo a quatro medalhas paralímpicas deixa um arquivo de humanidade que nenhuma ultrapassagem poderia superar. Alessandro Zanardi tinha 59 anos.









