Confesso: eu errei sobre o Brasil de 2022. Escrevi, com convicção, que aquele elenco tinha a profundidade de banco necessária para sustentar uma campanha longa no Qatar. Acreditei que a geração de Neymar, Casemiro e Alisson ainda tinha pelo menos um ciclo inteiro pela frente. Hoje, com os números do Transfermarkt na mão e a Copa do Mundo 2026 batendo à porta, entendo onde estava o erro: confundi qualidade pontual com sustentabilidade de ciclo.

O que os números do Transfermarkt revelam sobre o elenco verde-amarelo

A Seleção Brasileira valia 1,05 bilhão de euros — aproximadamente R$ 6,13 bilhões — no momento em que entrou em campo no Qatar, em dezembro de 2022. Hoje, às vésperas de estrear na Copa do Mundo sediada por México, Estados Unidos e Canadá, esse valor caiu para 932,2 milhões de euros (R$ 5,4 bilhões). A redução de 11,5%, equivalente a R$ 730 milhões, não é catastrófica em termos absolutos — mas o que ela esconde é mais revelador do que o número em si.

Verona - Como

Dos 15 jogadores remanescentes do ciclo anterior, apenas três tiveram valorização de mercado: Vinicius Jr. (Real Madrid), que passou de 100 milhões para 150 milhões de euros; Raphinha (Barcelona), que saltou de patamar para chegar a 80 milhões de euros; e Bruno Guimarães (Newcastle), avaliado em 75 milhões de euros. São três jogadores em ascensão real na Europa — e não por acaso, os três estão entre os mais jovens do grupo de remanescentes.

O restante do grupo conta uma história diferente. Neymar, que em 2022 valia 90 milhões de euros, hoje aparece no Transfermarkt com apenas 10 milhões — uma queda de 88,8% no valor de mercado. Alisson, que custava cifras expressivas há quatro anos, está avaliado em 17 milhões de euros. Ederson, agora no Fenerbahçe, vale 13 milhões. Casemiro, ainda no Manchester United, chegou a 8 milhões de euros. São números que falam sobre lesões, idade, desempenho irregular e, no caso de alguns, a decisão de retornar ao futebol brasileiro.

Alex Sandro, Danilo e Paquetá — o retorno ao Brasil como termômetro de mercado

Três nomes do ciclo 2022 que hoje vestem a camisa do Flamengo sintetizam com precisão o que aconteceu com essa geração. Alex Sandro, lateral-esquerdo que foi titular em Qatar, está avaliado em 1,5 milhão de euros. Danilo, capitão daquele torneio, aparece com 2,5 milhões de euros. Paquetá, que chegou a ser um dos meias mais caros do futebol europeu quando estava no Lyon e no West Ham, hoje vale 35 milhões de euros — número que reflete tanto a queda de patamar quanto as polêmicas extracampo que cercaram sua carreira recente.

O retorno ao Brasil, para esses jogadores, não foi derrota — foi gestão de carreira. Mas o mercado não é sentimental: o Transfermarkt registra valor de mercado com base em desempenho em ligas de alto nível, e o Brasileirão, apesar do crescimento real de audiência e receita nos últimos anos, ainda não move o ponteiro das plataformas europeias de avaliação. Segundo apuração do SportNavo, essa discrepância entre o crescimento do futebol brasileiro e o reconhecimento internacional é um dos debates mais urgentes do mercado esportivo nacional em 2026.

Weverton, goleiro do Grêmio e remanescente de 2022, aparece com 700 mil euros — o valor mais baixo entre os 15 nomes da lista. Marquinhos (PSG), zagueiro e um dos poucos que manteve presença constante na Europa, está em 30 milhões de euros. Bremer, da Juventus, figura com 35 milhões, e Fabinho, hoje no Al-Qadsiah, aparece com 17 milhões de euros.

Três que subiram — e o que isso diz sobre o Brasil que vai à Copa

A valorização de Vini Jr., Raphinha e Bruno Guimarães não é coincidência: os três jogam em clubes de elite europeia, têm menos de 30 anos e viveram suas melhores temporadas justamente entre 2023 e 2026. Vini Jr. é o jogador mais valioso da Seleção com 150 milhões de euros — um ativo que o Real Madrid protege com contrato longo e que Carlo Ancelotti usa como referência ofensiva central. Raphinha, no Barcelona, chegou à condição de camisa 10 efetivo do clube catalão e acumula números de gol e assistência que justificam cada euro da avaliação. Bruno Guimarães, no Newcastle, consolidou-se como um dos melhores volantes da Premier League, posição em que o Brasil historicamente produziu jogadores de nível mundial.

Esses três nomes formam, na prática, o núcleo de valor real do elenco brasileiro para 2026. São como uma frente fria que avança com força enquanto o restante do mapa ainda registra tempo encoberto — pressão acumulada, mas sem a energia cinética necessária para definir uma Copa do Mundo. O desafio de Ancelotti é transformar essa assimetria de valor em equilíbrio coletivo dentro de campo.

Martinelli (Arsenal), com 45 milhões de euros, é o nome mais valioso entre os que não estavam em 2022 e que agora integram o grupo. Ele representa exatamente o que o Brasil precisava: um atacante jovem, em clube de ponta, com valor crescente e sem o peso de uma Copa anterior nas costas. A Copa do Mundo começa em junho de 2026, e a Seleção abre sua campanha no Grupo D — o desempenho em campo nas próximas semanas vai dizer se os 932 milhões de euros valem mais ou menos do que o Transfermarkt calcula.

O Brasil chega à Copa valendo menos no papel, mas com três jogadores que nunca valeram tanto.