Três números: 8, 16 e grau 2. Oito dias foi o prazo que a comissão de Zagallo deu a Neymar antes de cortar Romário em 1998. Dezesseis é o número de dias que a CBF atual decidiu esperar antes de bater o martelo. Grau 2 é o diagnóstico que conecta os dois momentos — e que coloca a Copa do Mundo de 2026 no mesmo corredor de tensão que o Brasil viveu em Paris.
O mesmo músculo, o mesmo exame, 28 anos depois
O médico da Seleção Brasileira, Rodrigo Lasmar, confirmou na manhã desta quinta-feira (28) o que o Santos tentou suavizar por dias: a lesão de Neymar na panturrilha direita é de grau 2, não um simples edema. O diagnóstico veio de uma ressonância magnética realizada na quarta (27), em uma clínica particular em Teresópolis — o mesmo tipo de exame que, em junho de 1998, selou o destino de Romário.
"Neymar se apresentou ontem. Fez os exames médicos complementares e terminamos com uma ressonância magnética, que confirmou lesão grau dois na panturrilha. Ele segue em tratamento, e em duas ou três semanas estará liberado. Vamos avaliar dia a dia"
Lasmar saiu sem responder perguntas. A cena — médico, microfone, silêncio — também não é nova. Em 1998, foi o médico Lidio Toledo quem comunicou o corte de Romário a 8 dias da estreia do Brasil contra a Escócia. O Baixinho havia chegado à concentração reclamando de dores, fazia exercícios à parte sem bola, e a comissão técnica formada por Zagallo, Zico e Toledo concluiu que ele não teria tempo de se recuperar. Romário sempre discordou. Chorou em coletiva e disse: "A minha relação com a Seleção eu tenho certeza que ainda não acabou." Parou. Saiu.
A diferença estrutural entre os dois casos está justamente no tempo de reação. Em 1998, a decisão foi tomada às pressas, com poucos dias de margem. Em 2026, a CBF definiu o dia 12 de junho como prazo-limite para reavaliar Neymar — véspera da estreia contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. O artigo 24 do regulamento da Fifa permite substituições por lesão até 24 horas antes da primeira partida da seleção, e a CBF está usando esse intervalo ao máximo.
O ruído entre Santos e CBF que 1998 não teve
Se em 1998 o problema era a velocidade da decisão, em 2026 o problema chegou antes: a comunicação. O departamento médico do Santos havia classificado a situação de Neymar como um edema — quadro mais leve — e projetava que o atacante estaria apto a treinar em campo na própria quarta (27). Não aconteceu. A lesão sentida no dia 17 de maio, véspera da convocação, em jogo contra o Coritiba pelo Brasileirão, era mais séria do que o clube admitia publicamente.

O Santos emitiu nota oficial reconhecendo o alinhamento com a CBF, mas o estrago já estava feito. Segundo apurou a ESPN, o departamento médico da Seleção foi informado pelo clube que o problema era algo leve, o que influenciou Carlo Ancelotti a atender ao apelo e incluir Neymar na lista de 26. Só quando a ressonância foi realizada pela equipe da CBF é que o grau 2 foi confirmado. Furou.
O ortopedista Maurício Leite, consultado pela Folha, foi além do prazo oficial da CBF: segundo ele, Neymar pode levar de quatro a seis semanas para voltar a jogar em alto nível — o dobro do estimado por Lasmar. A janela mais otimista da CBF (duas a três semanas a partir do dia 17) terminaria em torno do dia 31 de maio, exatamente quando o Brasil enfrenta o Panamá no Maracanã, amistoso que Neymar já está fora. O segundo amistoso, contra o Egito em Cleveland no dia 6 de junho, também está descartado.
"Absolutamente todos os exames realizados por Neymar Jr. foram compartilhados com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) até o dia 18, data da convocação. Os profissionais do Santos FC conhecem a capacidade de recuperação do atleta e estão confiantes de que Neymar estará pronto para disputar a Copa do Mundo"
O que mudou na medicina esportiva e o que isso muda no cálculo da CBF
A medicina esportiva de 1998 operava com critérios clínicos que hoje parecem primitivos. Sem o nível de precisão das ressonâncias atuais, sem protocolos de retorno ao jogo baseados em dados funcionais, a comissão de Zagallo tomou decisões no olho. A comparação que o SportNavo faz entre os dois momentos revela justamente isso: o corte de Romário foi uma decisão binária, tomada rápido, sem janela de espera.
Em 2026, a CBF tem ferramentas que 1998 não tinha. A equipe de fisioterapia da Seleção inclui profissionais do próprio Santos que acompanham Neymar há mais de dez anos — o que significa que o histórico de recuperação muscular do atleta está mapeado. Lesões de grau 2 na panturrilha, em jogadores de elite com suporte intensivo, têm janela de retorno que varia bastante conforme o perfil muscular individual. O protocolo atual trabalha com monitoramento diário, o que dá à comissão de Ancelotti uma visão em tempo real que Zagallo simplesmente não tinha.
Há, contudo, uma variável que nenhuma tecnologia resolve: o tempo. Se o prazo mais pessimista (seis semanas) se confirmar, Neymar estaria liberado apenas em torno do dia 28 de junho — quando o Brasil já teria disputado a fase de grupos inteira. Nesse cenário, o eventual substituto precisaria sair da lista de 55 enviada à Fifa, entre nomes como Pedro (Flamengo), Gabriel Jesus (Arsenal), Igor Jesus (Nottingham Forest) e Richarlison (Tottenham).
- Lesão de Romário em 1998 — edema na panturrilha direita; corte 8 dias antes da estreia; sem janela de espera
- Lesão de Neymar em 2026 — grau 2 na panturrilha direita; prazo de avaliação até 12 de junho; protocolo de monitoramento diário com equipe do Santos integrada à CBF
- Divergência de diagnóstico — em 1998, não houve; em 2026, Santos chamou de edema, CBF confirmou grau 2
- Janela regulatória — em 1998, não havia artigo equivalente ao atual; em 2026, o artigo 24 da Fifa permite substituição até 24h antes da estreia
O Brasil estreia contra Marrocos no dia 13 de junho, às 19h (de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey. A reavaliação de Neymar está marcada para o dia anterior, no mesmo local. Se a ressonância do dia 12 mostrar evolução insuficiente, a CBF precisa acionar o Comitê Médico da Fifa com documentação para oficializar o corte. Sem esse processo, Neymar permanece na lista — mesmo sem condições de jogar. Romário não teve essa burocracia. Teve apenas uma coletiva, lágrimas e a saída da sala.









