Três coisas: premiação recorde, governo Trump e imposto de 30%. Tudo se explica daí.
Quando a Fifa divulgou os números do Mundial de Clubes de 2025, a manchete que correu o mundo foi a do crescimento histórico — uma ampliação de 50% nos valores distribuídos em relação às edições anteriores, tornando a competição a mais lucrativa já organizada pela entidade. Fluminense, Palmeiras, Flamengo e Botafogo embarcaram para os Estados Unidos carregando a expectativa de uma transformação financeira real, o tipo de injeção que reposiciona um clube no mercado sul-americano por anos. O que ninguém queria ver na letra miúda era o que o fisco americano tinha reservado para eles.
A premiação que cresceu 50% e o impasse que ninguém esperava
A reunião do Conselho da Fifa realizada em Doha, no Catar, aprovou um pacote que, na Copa do Mundo de 2026, destinará US$ 727 milhões às 48 seleções participantes e mais US$ 355 milhões aos clubes que cederem jogadores ao torneio. No Mundial de Clubes, os valores seguiram a mesma lógica expansionista. O campeão Chelsea embolsou US$ 115 milhões; os clubes brasileiros, dependendo da campanha, acumularam premiações que chegaram a R$ 339 milhões no caso do Fluminense, semifinalista eliminado justamente pelo time londrino.
O problema começou antes mesmo da bola rolar. Segundo reportagem do jornal inglês The Guardian, a Fifa não havia conseguido fechar um acordo de isenção fiscal com o governo de Donald Trump — prática que é padrão em Copas do Mundo. No Brasil, em 2014, a Lei 12.350/2010 concedeu isenções fiscais à entidade para a realização do torneio. Nos Estados Unidos de 2025, esse tipo de negociação esbarrou num governo que não demonstrou a mesma disposição de abrir mão de receita tributária, ainda que se tratasse de um evento esportivo global.
O impacto prático é direto: os Estados Unidos retêm 30% de imposto de renda sobre os valores recebidos por entidades estrangeiras. Para um clube que esperava embolsar R$ 200 milhões, esse percentual representa R$ 60 milhões que ficam nos cofres do Tesouro americano antes mesmo de qualquer planejamento de elenco ser feito.
O mapa das taxações e por que jogar na Flórida valia mais dinheiro
A complexidade do sistema tributário americano adicionou uma camada extra de imprevisibilidade. O Mundial de Clubes foi disputado em 11 cidades distribuídas por dez estados, e cada um deles cobra alíquotas diferentes sobre o lucro gerado pela Fifa com ingressos, produtos licenciados e comercializações. A Califórnia, por exemplo, aplica 13,3% de imposto estadual — a maior taxa do país. A Flórida, que recebeu três estádios na competição, não cobra imposto estadual sobre esse tipo de renda. Washington D.C. cobra 10,5%; Nova Jersey, 10,75%; Ohio, apenas 3,5%.
Isso significa, conforme registrado pelo SportNavo durante a cobertura da competição, que dois clubes com campanhas idênticas em termos de vitórias e pontos poderiam receber valores líquidos diferentes dependendo de onde jogaram suas partidas. Um time que concentrou seus jogos em Miami ou Orlando saiu em condição tributária mais favorável do que outro que disputou partidas em Los Angeles ou Nova York. A assimetria, que parece detalhe burocrático, na escala de dezenas de milhões de dólares, representa diferenças concretas de orçamento.
Palmeiras e Fluminense foram os clubes brasileiros que mais publicamente demonstraram preocupação com o tema. Segundo apuração do UOL, os dois clubes trataram de comunicar ao mercado que não estavam, de repente, multimilionários. A lógica era simples: após a classificação para as quartas de final, a narrativa nas redes sociais e nos comentários esportivos era a de que os times poderiam gastar sem limite em reforços. A diretoria de ambos fez questão de desfazer essa imagem.
"Os impostos serão altíssimos", alertaram dirigentes dos clubes brasileiros, segundo apuração do UOL, reforçando que os valores brutos anunciados pela Fifa distam consideravelmente do que efetivamente entrará nos cofres.
O pagamento antecipado no Brasil e o que sobra no fim das contas
Para tentar contornar ao menos parte do problema, a Fifa adotou uma solução intermediária: pagou uma parcela de aproximadamente R$ 65 milhões diretamente no Brasil, antes do início da competição, a pedido dos próprios clubes brasileiros. Essa cota fixa, equivalente a pouco mais de US$ 15 milhões, foi transferida em território nacional justamente para escapar da tributação americana, recaindo sob as regras fiscais brasileiras — que, embora também cobrem impostos, são mais previsíveis e conhecidas pelos departamentos financeiros dos clubes.
O cálculo que Fluminense e Palmeiras faziam, segundo o UOL, era o seguinte: com a expectativa de pagar 30% sobre os valores recebidos nos EUA, os R$ 65 milhões já pagos no Brasil funcionavam como um escudo parcial. Ainda assim, a projeção era de que cada clube pagaria perto de R$ 65 milhões em impostos totais sobre suas premiações. Para o Fluminense, que acumulou R$ 339 milhões com a campanha até a semifinal, isso representaria uma mordida de quase um quinto do valor bruto.
O contexto financeiro do clube carioca torna os números ainda mais reveladores. A receita total do Fluminense em 2024 foi de R$ 684 milhões. A premiação do Mundial, mesmo com os descontos fiscais, representa algo próximo a 40% desse faturamento anual — uma injeção que, nas palavras de analistas do setor, tem capacidade de reposicionar o clube entre os maiores do país. O Palmeiras, com receita de R$ 1,3 bilhão no mesmo período, absorve o impacto de forma diferente, mas a preocupação com a transparência dos números foi igualmente explícita.
Há ainda os gastos operacionais que incidem sobre o valor bruto antes de qualquer cálculo de imposto: premiação para atletas, comissão técnica, custos de viagem, hospedagem e logística de uma delegação que passou semanas nos Estados Unidos. Esses itens, que variam de clube para clube, são frequentemente abatidos do valor total recebido, estreitando ainda mais a margem líquida que chega ao caixa.
"A premiação com prováveis R$ 65 milhões abatidos pode representar R$ 150 milhões", estimou fonte ligada ao planejamento financeiro de um dos clubes participantes, segundo o UOL — número que, mesmo reduzido, segue sendo transformador para a realidade do futebol brasileiro.
A definição exata dos valores que cada clube efetivamente receberá depende ainda das negociações em curso entre a Fifa e as autoridades fiscais americanas. Até o fechamento desta edição, não havia acordo definitivo sobre a alíquota consolidada aplicável. A data limite para a liquidação final das premiações do Mundial de Clubes de 2025 está prevista para setembro deste ano — quando os quatro clubes brasileiros saberão, com precisão, quanto do sonho milionário sobreviveu ao fisco americano.









