US$ 1,25 trilhão. Esse é o volume de ativos geridos pelo Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita — o PIF —, o mesmo instrumento financeiro que comprou o Newcastle United, contratou Cristiano Ronaldo, Karim Benzema e Neymar para a Saudi Pro League e agora financia a candidatura do país como sede da Copa do Mundo de 2034. Quando a seleção saudita entra em campo contra a Espanha neste domingo, 21 de junho de 2026, em Atlanta, esse número está implícito em cada chute, em cada escanteio, em cada minuto de transmissão global que o país recebe gratuitamente.

O número que organiza a estratégia saudita no futebol mundial

A Arábia Saudita foi confirmada como sede do Mundial de 2034 em outubro de 2024, durante o congresso da FIFA em Ruanda. A partir daquele momento, a Copa de 2026, disputada entre Estados Unidos, Canadá e México, transformou-se em ensaio geral. Cada participação da seleção nacional equivale a minutos de audiência não-paga em mais de 180 países — o tipo de visibilidade que nenhuma campanha publicitária convencional reproduz com a mesma eficiência. Segundo estimativas da consultoria Nielsen Sports, uma única partida de Copa do Mundo com audiência global acima de 400 milhões de espectadores gera para o país-sede equivalente a US$ 200 milhões em exposição de marca. Para um país que quer redefinir sua imagem internacional, esse dado não é ornamental.

O plano tem nome e data de nascimento: Visão 2030, lançado pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman em abril de 2016. Seu objetivo declarado é reduzir a dependência da economia saudita do petróleo — que ainda responde por cerca de 70% das receitas do governo — e posicionar o país como hub de turismo, entretenimento e esporte. A Copa de 2034 é o evento-âncora dessa estratégia, o ponto de chegada que justifica todos os demais movimentos.

"Receber a Copa do Mundo é um dos principais marcos da Visão 2030", declarou o governo saudita em documento oficial divulgado após a confirmação da sede, comprometendo-se a construir e modernizar estádios, ampliar aeroportos e fortalecer a rede hoteleira do país até 2034.

A seleção saudita como vitrine em campo aberto

No Brasil, costuma-se dizer que "quem não tem cão caça com gato" — e a Arábia Saudita, que ainda não tem tradição consolidada no futebol de alto nível, escolheu caçar com os maiores felinos disponíveis no mercado global. A contratação de Cristiano Ronaldo pelo Al Nassr, em janeiro de 2023, foi o gatilho. Depois vieram Neymar, N'Golo Kanté, Riyad Mahrez e Karim Benzema. O efeito não foi apenas na Saudi Pro League: foi no índice de buscas, no engajamento digital e na percepção internacional do país como destino esportivo.

A seleção nacional, porém, é o ativo mais democrático dessa estratégia. Enquanto as contratações milionárias da liga doméstica atingem audiências segmentadas, a equipe verde e branca entra em campo diante de bilhões de pessoas simultaneamente. O histórico recente justifica a aposta: na Copa de 2022, no Qatar, a Arábia Saudita derrotou a Argentina de Lionel Messi por 2 a 1 na fase de grupos — resultado que gerou mais de 40 milhões de menções nas redes sociais em 24 horas, segundo levantamento da plataforma Brandwatch. Aquele jogo foi, por si só, um fenômeno de visibilidade que nenhum investimento convencional de marketing teria produzido.

"A campanha da seleção na Copa de 2026 ganha importância estratégica: uma boa participação ajuda a fortalecer o interesse do público pelo futebol local e mantém o país em destaque antes da organização do próximo Mundial", conforme registrado pelo SportNavo em análise sobre os bastidores do projeto saudita.

O técnico Georgios Donis, contratado às pressas após a demissão de Hervé Renard a menos de dois meses do início do torneio, herdou um grupo que mistura jogadores da Saudi Pro League com atletas naturalizados. A pressão sobre o desempenho em campo é real: uma eliminação precoce, especialmente contra uma Espanha que chega à Copa como uma das favoritas ao título, não compromete o projeto de 2034, mas diminui o capital simbólico acumulado desde 2022.

O que a Copa de 2034 exige que a de 2026 já entrega

A Federação Internacional de Futebol Associado — FIFA — estabeleceu, no processo de candidatura para 2034, requisitos que a Arábia Saudita ainda está longe de cumprir integralmente. O país precisa construir ou reformar 15 estádios, sendo que ao menos 11 deles ainda estão em fase de projeto ou construção inicial. O estádio King Salman, previsto para a grande final, terá capacidade para 92.760 pessoas e deve ser concluído em 2032, segundo o cronograma oficial do governo saudita. O investimento total em infraestrutura esportiva está estimado em US$ 15 bilhões.

Paralelamente, a Arábia Saudita acelerou sua presença em outros esportes de alto impacto global. O Grande Prêmio da Arábia Saudita de Fórmula 1, realizado anualmente em Jeddah desde 2021, o torneio de tênis em Riade que atraiu os maiores nomes do circuito mundial e os megacombates de boxe e MMA realizados no país compõem um portfólio de eventos que cumpre função específica: demonstrar capacidade logística e operacional para receber competições de alto padrão de forma recorrente. Cada evento bem executado é um argumento operacional para 2034.

Analistas de relações internacionais identificam nessa estratégia o conceito de soft power esportivo — a capacidade de um Estado ampliar sua influência global por meios culturais e econômicos em vez de militares. O Qatar usou a Copa de 2022 como laboratório dessa abordagem e, a despeito das críticas persistentes sobre direitos humanos e condições de trabalho dos migrantes, saiu do torneio com índices de reconhecimento de marca nacional significativamente superiores aos de 2010. A Arábia Saudita observou o experimento qatari de perto e está reproduzindo o modelo com escala maior e recursos ainda mais abundantes.

"Essas iniciativas fortalecem o chamado soft power, estratégia pela qual países ampliam sua influência internacional por meio da cultura, da economia e do esporte", avaliam especialistas em geopolítica consultados por publicações especializadas no tema.

A partida deste domingo contra a Espanha, com arbitragem brasileira designada pela FIFA, acontece no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, com capacidade para 71.000 espectadores. Uma vitória saudita garantiria a classificação para as oitavas de final e prolongaria por mais semanas a janela de visibilidade global do país. Uma derrota não encerra o projeto — mas o relógio para 2034 continua correndo, e cada Copa que passa sem presença relevante da seleção representa uma oportunidade desperdiçada de construção de narrativa. É o mesmo cenário que o Qatar viveu entre 2006 e 2010, quando investia pesado em infraestrutura esportiva sem ter seleção competitiva para alimentar o interesse doméstico — só que agora a aposta é diferente.