Todo mundo sabe que a Seleção Brasileira chegou aos Estados Unidos para a Copa do Mundo de 2026 com 91 membros na delegação e Neymar na lista apesar de uma lesão muscular grau 2. O que poucos sabem — e que muda a rotina de cada um dos 26 jogadores convocados — é o protocolo silencioso que a CBF montou dentro do hotel The Ridge, em Nova Jersey, para que nenhum bastidor vaze antes que o apito inicial ressoe.

O que levou a CBF a construir um manual de conduta para a Copa

A memória institucional da confederação é longa. Em 2014, no Mundial disputado em casa, imagens de festas na concentração e relatos de visitas não autorizadas circularam pela imprensa antes mesmo da estreia contra a Croácia, no Itaquerão, em 12 de junho. Em 2022, no Catar, o ambiente na concentração em Al Shahaniya foi marcado por disputas internas que extrapolaram o vestiário. A CBF aprendeu — ou ao menos é o que o documento que chegou à redação da reportagem sugere.

O pano de fundo histórico agrava a pressão. O Brasil não conquista um título mundial desde 2002, quando Ronaldo marcou os dois gols da vitória por 2 a 0 sobre a Alemanha na final disputada em Yokohama, no Japão — um jejum de 24 anos que só a campanha de 1994, nos Estados Unidos, interrompeu após um intervalo igualmente longo de 24 anos desde o tri mexicano de 1970. Repetir o palco americano, agora sob o comando de Carlo Ancelotti, carrega um simbolismo que a diretoria da CBF não quer ver contaminado por polêmicas extracamp.

Segundo o jornal O Globo, a privacidade no The Ridge será maior do que qualquer concentração registrada na Granja Comary, em Teresópolis, onde a Seleção treinou por décadas. A diferença estrutural começa pela geografia: o hotel em Nova Jersey oferece isolamento natural que o complexo fluminense, próximo à cidade, jamais garantiu.

O manual que veta o lobby e disciplina as redes sociais

Controlado.

Essa é a palavra que resume o esquema. A delegação de 91 pessoas — incluindo comissão técnica, preparadores físicos, médicos e staff administrativo — não terá acesso ao lobby principal do The Ridge. A medida elimina o ponto mais vulnerável de qualquer hotel: o espaço de passagem onde jornalistas, torcedores e pessoas não credenciadas costumam aguardar.

As folgas foram calendadas com precisão cirúrgica. Na primeira fase, os atletas terão um dia de descanso após cada partida do grupo: 14 de junho, depois do confronto contra o Marrocos; 20 de junho, na sequência do jogo contra o Haiti; e 25 de junho, após o duelo com a Escócia. Nesses intervalos, familiares e amigos poderão visitar os jogadores — mas apenas aqueles previamente aprovados pela própria CBF. A confederação se reserva o direito de vetar o acesso de qualquer pessoa à concentração, sem necessidade de justificativa pública.

O manual contempla ainda diretrizes para o uso das redes sociais por parte de todos os membros da delegação. Publicações que revelem informações táticas, imagens internas da concentração ou detalhes da rotina médica dos atletas estão entre os itens regulados. O episódio que envolveu Neymar e o jovem Robinho Jr. em um treino do Santos, em 2026 — quando o camisa 10 agrediu o atleta de 18 anos com um tapa e uma rasteira, fato que o próprio Neymar reconheceu publicamente —, ilustra exatamente o tipo de situação que a CBF quer manter longe dos holofotes durante o Mundial.

"Reconheço que exagerei na reação", disse Neymar após o incidente com Robinho Jr. no Santos, lamentando a dimensão que o caso tomou fora do clube.

O que muda no dia a dia dos 26 jogadores em relação à Granja Comary

A Granja Comary tem história. Inaugurada em 1987, o centro de treinamento em Teresópolis serviu de base para todas as campanhas brasileiras entre 1994 e 2022. Mas o modelo tem limitações conhecidas: a proximidade com o Rio de Janeiro facilitou o acesso de pessoas não autorizadas ao longo dos anos, e a estrutura física do complexo não foi projetada para o nível de isolamento que uma Copa do Mundo exige nos dias de hoje.

O The Ridge opera em lógica diferente. A escolha do hotel se baseou em dois critérios objetivos: conforto para uma delegação de 91 membros e segurança perimetral. A localização em Nova Jersey, a menos de 30 quilômetros de Nova York, permite acesso rápido às instalações de treino sem expor a delegação ao fluxo turístico intenso das grandes cidades-sede.

Para os 26 jogadores, a mudança mais concreta é o controle das visitas. Na Granja Comary, familiares tinham acesso em dias pré-determinados com relativa flexibilidade. No The Ridge, cada nome precisa passar pela aprovação da CBF antes de entrar. A medida pode gerar tensão, especialmente entre atletas com filhos pequenos, mas a confederação avaliou que o custo social é menor do que o risco de uma polêmica que desvie o foco técnico.

"A privacidade do time brasileiro será maior do que na concentração na Granja Comary", informou O Globo, citando fontes ligadas à organização da delegação.

A trajetória recente de Neymar ilustra bem o desafio. Fora da Seleção desde outubro de 2023 — quando rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo em partida contra o Uruguai pelas Eliminatórias —, o camisa 10 do Santos retornou ao futebol brasileiro em janeiro de 2025 após rescindir com o Al-Hilal, clube pelo qual disputou apenas sete jogos devido à lesão. Com 128 partidas e 79 gols pela Seleção, ele é o maior artilheiro da história da Amarelinha em jogos reconhecidos pela Fifa. Seu histórico em Mundiais — 13 jogos, oito gols, quatro assistências — justifica a convocação de Ancelotti. Mas o histórico de polêmicas recentes justifica, com a mesma intensidade, o manual de conduta.

A estreia do Brasil na Copa do Mundo de 2026 está marcada para 14 de junho, contra o Marrocos. Ancelotti terá exatamente 10 dias, a partir da chegada da delegação aos Estados Unidos, para ajustar o esquema tático e testar a coesão de um grupo que inclui nomes como Vinicius Jr., Rodrygo e Raphinha ao lado de um Neymar que busca protagonismo em sua quarta Copa — a mesma quantidade de torneios mundiais que Pelé disputou entre 1958 e 1970, três deles com título. É o mesmo cenário que a Seleção de 1994 viveu nos Estados Unidos, apostando em disciplina e organização para romper um jejum histórico — só que agora a aposta é diferente, porque o mundo inteiro já sabe que o Brasil chegou.