Não, o problema dos ingressos da Copa do Mundo não é uma questão de demanda insuficiente por futebol. A questão mais precisa — e mais incômoda para a Fifa — é outra: o que acontece quando uma entidade que arrecadou mais de US$ 7 bilhões no último ciclo de competições precificou seus produtos com tal opacidade que agora não consegue vendê-los a valores anunciados?

Ingressos sem comprador e uma semana para o apito inicial

A uma semana do início da Copa do Mundo de 2026, a BBC Sport identificou milhares de ingressos disponíveis em múltiplas plataformas, muitos deles abaixo do valor original de face. Mais revelador ainda: a própria Fifa foi acusada de redirecionar ingressos não vendidos para o site de revenda SeatGeek — uma manobra que contradiz frontalmente a narrativa oficial de que o torneio estaria com ingressos esgotados. A entidade prometeu lotação total. O mercado secundário conta outra história… e aí vem o problema.

A opacidade estrutural do processo agrava o diagnóstico. Torcedores que participaram do sorteio oficial nunca tiveram acesso à tabela de preços antes de confirmar a compra — os valores só foram revelados no momento do pagamento. Mapas de estádios foram alterados sem comunicação prévia, com novas categorias de assentos adicionadas às primeiras fileiras a preços 50% superiores aos lugares imediatamente atrás. Alguns compradores que pagaram por uma categoria receberam ingressos de categoria inferior, mais distantes do gramado. Não se trata de falha operacional isolada; trata-se de um modelo de comercialização construído sobre assimetria de informação.

A reação institucional já chegou ao campo jurídico. Os procuradores-gerais de Nova York e Nova Jersey abriram formalmente uma investigação sobre as práticas da Fifa, intimando a entidade a responder a acusações de "inflação artificial de preços" e "dano aos torcedores". Duas jurisdições americanas que sediam jogos do torneio agora investigam o próprio organizador do evento.

O espelho do Mundial de Clubes e o que ele reflete sobre a Copa

A comparação com o Mundial de Clubes de 2025 é inevitável — e pouco lisonjeira para a Fifa. Naquele torneio, realizado nos Estados Unidos, ingressos foram comercializados a preços irrisórios nas semanas finais para evitar arquibancadas visivelmente vazias. A estratégia funcionou parcialmente como cosmético televisivo, mas expôs uma falha de calibragem entre o valor percebido pelo torcedor e o preço exigido pela entidade. A diferença entre o ingresso mais barato do Mundial de Clubes e o ingresso equivalente para a fase de grupos desta Copa do Mundo é da ordem de grandeza da distância entre Recife e Porto Alegre — geograficamente enorme, economicamente absurda para quem mora fora do eixo de renda dos países ricos.

"A Fifa adotou precificação variável, em vez da precificação dinâmica, que altera os preços em cada ponto de venda com base na demanda anterior", explicou a BBC Sport em reportagem publicada na semana passada, detalhando o mecanismo que tornou o processo ainda mais imprevisível para o consumidor.

A distinção técnica entre precificação variável e precificação dinâmica não é trivial. No modelo dinâmico, os preços respondem em tempo real à demanda, o que pelo menos oferece transparência sobre o estado do mercado. No modelo variável adotado pela Fifa, os preços são definidos por categorias fixas, mas a alocação dessas categorias foi manipulada ao longo do processo — tornando impossível para o torcedor calcular o custo real antes de comprometer o pagamento.

A mesa de decisão que a Fifa preferia que não existisse

O paradoxo central desta situação é institucional. A Fifa construiu, ao longo de décadas, uma narrativa de que a Copa do Mundo é o evento mais desejado do planeta — com 500 milhões de pedidos de ingresso registrados em ciclos anteriores sendo citados como prova dessa demanda reprimida. Se a demanda existe, por que sobram ingressos? A resposta passa necessariamente pelo modelo de distribuição: uma fatia significativa das entradas é alocada para federações nacionais, parceiros comerciais, hospitalidade corporativa e delegações oficiais. O que chega ao torcedor comum já é o resíduo de um sistema pensado primariamente para outros públicos.

"O processo de compra de ingressos tem sido como uma gincana", registrou a BBC Sport, descrevendo a experiência de torcedores que navegaram por janelas de venda, sorteios e categorias alteradas sem qualquer aviso prévio.

A janela final de vendas ao público aberta em abril trouxe uma promessa vaga: mais ingressos poderiam ser liberados até o início das partidas. Para quais jogos? A que preços? Em quais categorias? A Fifa não respondeu objetivamente a nenhuma dessas perguntas — e esse silêncio, em si, é uma forma de gestão da informação que os procuradores de Nova York e Nova Jersey agora colocam sob escrutínio.

O espelho do Mundial de Clubes e o que ele reflete sobre a Copa Como a Fifa tent
O espelho do Mundial de Clubes e o que ele reflete sobre a Copa Como a Fifa tent

Para os jogos envolvendo seleções de menor tradição comercial, a queda de preços no mercado secundário já é visível. Partidas com menor apelo de torcida organizada — especialmente de países africanos e asiáticos cujos torcedores enfrentam barreiras adicionais de visto, câmbio e logística — estão com ingressos disponíveis bem abaixo do valor original, tanto no site oficial de revenda quanto em plataformas independentes. O risco concreto é que a maior Copa do Mundo da história, com 48 seleções e três países anfitriões, inaugure sua fase de grupos com setores vazios visíveis nas transmissões globais.

A Copa do Mundo começa em 11 de junho de 2026. Nos próximos dias, a Fifa terá de decidir entre manter a ficção de ingressos esgotados — com o risco de imagens constrangedoras de cadeiras vazias circulando em rede — ou adotar uma política explícita de redução de preços que confirme, publicamente, o que o mercado já sinaliza. Qualquer uma das escolhas tem custo reputacional. A investigação dos procuradores americanos, porém, adiciona um terceiro elemento: o custo jurídico de ter construído esse processo sobre opacidade sistemática.