Três números: 20, 0 e 3. Vinte anos de ausência. Zero pontos na fase de grupos. Três gols sofridos na derrota para o México que encerrou a passagem da Copa do Mundo de 2026. Esses três algarismos, juntos, contam uma história que a República Tcheca tentou reescrever e não conseguiu.
A volta que custou pênaltis e dois anos de sofrimento
Classificar-se para este Mundial não foi simples. A seleção tcheca precisou sobreviver à repescagem das Eliminatórias da Uefa, eliminando Irlanda e Dinamarca nos pênaltis — dois confrontos decididos nos metros finais da tensão, sem margem para erro. Era o sinal de que a equipe chegava ao torneio com a cicatriz ainda aberta, sem a folga psicológica que uma classificação direta costuma oferecer. Ainda assim, o técnico abraçou o desafio com bom humor: recebeu uma bota de cowboy de presente antes da estreia no México e brincou fingindo beber nela diante das câmeras, num gesto de leveza calculada para descomprimir o grupo.
A intenção era clara. O corpo técnico sabia que o fantasma de 2006 rondava cada conversa de vestiário, e a estratégia de comunicação passou por minimizar o peso histórico. Nas palavras de um analista que acompanhou a delegação tcheca durante a fase de grupos, conforme registrado pelo SportNavo,
"Eles falavam em 2006 o tempo todo, justamente para dizer que não iam falar mais. É difícil exorcizar um trauma que você mesmo insiste em nomear."
O que aconteceu em 2006 e por que a sombra não foi embora
Na Copa da Alemanha, a República Tcheca estreou com uma goleada de 3 a 0 sobre os Estados Unidos — gol de Jan Koller e dois de Tomáš Rosický — e parecia pronta para mostrar ao mundo o valor de uma geração que incluía Petr Čech no Chelsea, Pavel Nedvěd na Juventus, Tomáš Rosický no Arsenal, Milan Baroš no Lyon e Karel Poborský no Sparta Praha. A equipe ocupava o 2º lugar no ranking FIFA e havia chegado à semifinal da Eurocopa de 2004, caindo apenas no gol de ouro para a Grécia. O talento estava documentado. O resultado, não.
Lesões derrubaram peças fundamentais após a estreia. A República Tcheca perdeu para Gana e para a Itália, encerrou a fase de grupos com apenas três pontos e foi eliminada sem chegar ao mata-mata. Vinte anos depois, o roteiro se repetiu com variações mínimas: empate em um jogo, derrota em outro, e a eliminação confirmada na última rodada com uma goleada de 3 a 0 — o mesmo placar da vitória inaugural em 2006, agora invertido e sofrido.
O Azteca e os três gols que fecharam o ciclo
Na noite de quarta-feira, 24 de junho de 2026, diante de cerca de 80 mil torcedores no Estádio Azteca, o México construiu a vitória no segundo tempo. Aos 9 minutos da etapa final, Mateo Chávez recebeu de Luis Romo e bateu na saída do goleiro Matej Kovář para abrir o placar. Seis minutos depois, Julián Quiñones aproveitou um rebote de contra-ataque para fazer 2 a 0. O terceiro gol saiu nos acréscimos: após lançamento de Guillermo Ochoa — que entrou aos 31 minutos do segundo tempo e igualou a marca de seis Copas do Mundo, a mesma de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo —, Santiago Giménez finalizou, Kovář defendeu, e Álvaro Fidalgo completou para as redes.
O México encerrou o Grupo A com nove pontos, três vitórias e nenhum gol sofrido — a primeira vez na história que a seleção mexicana fecha uma fase de grupos de Copa com aproveitamento de 100%. O jornal espanhol Marca resumiu:
"O México tem licença para sonhar grande."Para a República Tcheca, sobrou a última colocação do grupo e o retorno ao aeroporto com a mesma bagagem de 2006.
Do ponto de vista técnico, a campanha tcheca revelou uma fragilidade estrutural que os dados de xG (gols esperados) já sinalizavam antes da última rodada — uma métrica que calcula a qualidade das chances criadas e sofridas com base na posição e no tipo de finalização. Em termos simples: mede se um time cria oportunidades reais ou apenas chega perto. Nos três jogos, a República Tcheca gerou xG abaixo de 1,0 por partida, enquanto sofreu pressão consistente nas transições defensivas. Não era uma equipe que perdia por azar; perdia porque produzia pouco e concedia espaço demais.
A República Tcheca encerra sua participação na Copa do Mundo de 2026 com zero vitórias, um empate, duas derrotas e quatro gols sofridos. O próximo ciclo de Eliminatórias da Uefa para a Copa de 2030 começa em setembro de 2026, e a federação tcheca já enfrenta a pergunta inevitável: trocar o técnico ou dar continuidade ao projeto que, ao menos, devolveu o país a um Mundial após duas décadas de ausência.












