O silêncio era ensurdecedor em Mumbai. Durante meses, enquanto emissoras do mundo inteiro assinavam contratos, exibiam grades de programação e vendiam espaços publicitários para a Copa do Mundo de 2026, a Índia — com seus 1,4 bilhão de habitantes e um apetite crescente por futebol — permanecia num vazio desconcertante: o maior torneio do planeta corria o risco de não ter endereço fixo para mais de um sétimo da humanidade. Então, a dez dias do pontapé inicial, a Copa do Mundo de 2026 ganhou sua janela indiana.

O acordo que quase não veio antes do apito inicial

A Fifa e a Zee Entertainment fecharam o contrato de transmissão para o mercado indiano a menos de duas semanas do início do torneio — um prazo que, no universo das grandes negociações esportivas, equivale a assinar a escritura do imóvel enquanto a mudança já está na porta. O impasse havia se arrastado por meses, numa negociação que envolvia valores de direitos, janelas de exibição e a divisão entre TV aberta, por assinatura e plataformas digitais. A Zee Entertainment, um dos maiores conglomerados de mídia da Ásia, opera canais em mais de 170 países e alcança cerca de 1,3 bilhão de espectadores globalmente — números que transformam qualquer acordo com a empresa numa alavanca de audiência sem paralelo.

Segundo fontes próximas às negociações, citadas pela imprensa especializada em direitos esportivos, a demora refletia uma disputa sobre o modelo de distribuição: a Fifa queria garantir acesso em plataformas de streaming para capturar a geração mais jovem de fãs indianos, enquanto a Zee buscava consolidar o conteúdo em seus canais lineares, onde a monetização publicitária é mais previsível. O desfecho foi um modelo híbrido, com transmissão simultânea em TV e digital — o mesmo caminho que outras grandes ligas, como a Premier League, já adotaram no subcontinente.

A Índia como variável decisiva na equação global da Fifa

Existe uma cena em Moneyball — o filme de 2011 baseado no livro de Michael Lewis sobre o Oakland Athletics — em que o personagem de Brad Pitt olha para uma planilha e diz que o erro dos times é não enxergar o valor real do que está diante deles. A Fifa, ao deixar o mercado indiano em aberto por tanto tempo, correu exatamente esse risco: subestimar o peso de uma nação que, nas últimas duas décadas, transformou-se num dos terrenos mais férteis para o crescimento do futebol fora da Europa e da América Latina.

Os dados sustentam essa leitura. A Copa do Mundo de 2022, no Catar, registrou audiência televisiva acumulada superior a 5 bilhões de espectadores em todo o mundo, segundo relatório da própria Fifa divulgado em 2023. A Índia respondeu por uma fatia expressiva desse número, mesmo com a transmissão fragmentada entre operadoras concorrentes. Com a Zee Entertainment centralizando os direitos em 2026, a tendência é que a audiência indiana cresça de forma significativa — o que, para os patrocinadores globais do torneio, representa uma ampliação direta do retorno sobre investimento.

A Índia também não é mais apenas um mercado passivo de futebol. A Indian Super League, criada em 2013, já ultrapassou a marca de 500 mil espectadores médios por partida em sua última temporada. Jogadores como Sunil Chhetri, que se aposentou da seleção nacional em 2024 após 150 partidas e 94 gols — tornando-se o maior artilheiro da história do futebol asiático entre jogadores de campo ativos —, ajudaram a construir uma base de torcedores que hoje se interessa pelo jogo em escala nacional.

O que muda para a audiência global a partir de agora

Com o acordo selado, a Copa do Mundo de 2026 passa a ter cobertura em todos os grandes mercados do planeta. A última lacuna relevante havia sido preenchida. Para a Fifa, o significado prático é imediato: contratos de patrocínio que preveem cláusulas de cobertura mínima em determinados mercados podem agora ser honrados integralmente, evitando disputas jurídicas que poderiam se arrastar durante e após o torneio.

"A Índia é um dos mercados de crescimento mais importantes para o futebol global", declarou Gianni Infantino em discurso no Congresso da Fifa realizado em maio de 2026, semanas antes do fechamento do acordo com a Zee. "Não podemos imaginar uma Copa do Mundo verdadeiramente global sem que cada indiano possa assistir ao jogo."

A frase de Infantino, proferida ainda durante as negociações, soava mais como pressão pública do que como constatação — mas o resultado prático chegou. Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, já se apontava que a ausência de um acordo indiano representava o maior risco de imagem para a edição expandida do torneio, que pela primeira vez contará com 48 seleções e três países-sede (Estados Unidos, México e Canadá).

Para os torcedores indianos, o impacto é direto: a Copa do Mundo de 2026 começa em 11 de junho, com o jogo inaugural entre México e África do Sul no Estádio Azteca, na Cidade do México — e agora há endereço certo para assistir. A Zee Entertainment deve transmitir os 104 jogos do torneio em seus canais de TV por assinatura e na plataforma ZEE5, com narração em hindi, inglês e ao menos quatro outros idiomas regionais, alcançando estados como Maharashtra, Bengala Ocidental e Kerala, onde o futebol tem penetração histórica mais profunda. É o mesmo cenário que o críquete viveu na Índia nos anos 1990, quando a entrada de emissoras privadas no mercado transformou uma paixão regional num fenômeno nacional de massa — só que agora a aposta é diferente, e o jogo em questão é redondo.