Levar Neymar para resolver um problema político e acabar com dois problemas reais — esse é o paradoxo que Carlo Ancelotti construiu para si mesmo na Copa do Mundo de 2026. A lógica era simples: sem o camisa 10, qualquer tropeço seria automaticamente atribuído à ausência dele. Com ele, ao menos essa narrativa estaria bloqueada. O que ninguém previu é que o empate por 1 a 1 com Marrocos, no MetLife Stadium, destamparia uma pressão ainda maior — e com nome e sobrenome: Endrick.
O cálculo de Ancelotti que saiu pela culatra contra Marrocos
A decisão de incluir Neymar na lista foi revelada pelo próprio filho e auxiliar do treinador, Davide Ancelotti, à BBC: o atacante entrou na convocação poucos dias antes do anúncio, justamente para blindar o técnico de uma narrativa desgastante. Com 13 escalações diferentes em 13 jogos à frente da Seleção Brasileira, Ancelotti já carregava o peso de uma equipe sem identidade definida. A presença de Neymar, mesmo limitada fisicamente, servia de escudo.
O problema é que o escudo não parou a flecha. Depois do empate com Marrocos — resultado que incluiu uma falha de Alisson no gol adversário —, a irritação foi visível em todos os lados do vestiário. Matheus Cunha, questionado sobre até onde o Brasil poderia chegar com aquele desempenho, foi categórico na rispidez: disse que não era vidente. Alisson, ao ser perguntado sobre a falha individual, encurtou o caminho e afirmou que a equipe toda falhou. E Ancelotti, na saída de campo, quando pedido para analisar o jogo, limitou-se a dizer que o time precisa melhorar. Perguntado se havia algo específico, respondeu apenas "não" e foi embora.
"Não sou vidente", disse Matheus Cunha ao ser questionado sobre o potencial da Seleção após o empate com Marrocos.
Reparemos no detalhe: essa impaciência coletiva com perguntas legítimas é exatamente o reflexo do que a torcida sente ao ver respostas vagas e atuações abaixo do esperado. A irritação é de mão dupla, e nenhum dos lados está errado em se irritar.
Endrick na beira do campo enquanto a torcida grita o nome dele
Enquanto Neymar aparece em fotos de atividades físicas — ainda sem bola, ainda sem data confirmada para estrear — o clamor popular por Endrick cresce em volume e consistência. O atacante de 19 anos, que custou 72 milhões de euros ao Real Madrid quando ainda jogava no Palmeiras, acumulou mais de 600 mil novos seguidores nas redes sociais sem ter entrado em campo sequer um minuto na Copa. Esse número, por si só, diz algo sobre o tamanho do apetite da torcida por vê-lo jogar.
A ausência de Endrick na estreia não foi acidente tático — foi escolha deliberada de um treinador que ainda não encontrou o encaixe ideal para o jovem atacante dentro de um sistema que também não encontrou a si mesmo. Com Vinícius Júnior e Rodrygo ocupando as pontas e Raphinha no centro do ataque, o espaço para Endrick é estreito como corredor de ventilação — e qualquer movimentação ali exige precisão milimétrica de posicionamento e timing.
"A equipe toda falhou", respondeu Alisson ao ser questionado especificamente sobre sua falha no gol de Marrocos.
A renovação até 2030 garante o cargo mas não apaga o desconforto
A renovação de contrato de Ancelotti com a CBF até 2030 oferece ao italiano uma proteção institucional que poucos treinadores da Seleção tiveram. Mas esse respaldo administrativo tem limite claro: ele não entra em campo, não resolve a falta de identidade tática e não responde ao torcedor que quer ver o Brasil jogar com o melhor futebol disponível — e não com o futebol politicamente conveniente.
A questão que fica suspensa no ar, densa como temporal sem trovão, é se Neymar terá condições físicas de render o suficiente para justificar o espaço que ocupa na lista — e na cabeça do técnico. Aos 34 anos, com um histórico recente de lesões que o manteve mais de um ano afastado, o atacante ainda não demonstrou em campo que pode ser o diferencial que a convocação prometia. Enquanto isso, Endrick treina, aguarda e acumula expectativa.
O Brasil volta a campo na sexta-feira, 20 de junho, contra o Haiti, em jogo que Ancelotti já antecipou que usará para testar variações no elenco. Se Endrick não começar entre os titulares nessa partida — ou ao menos entrar nos primeiros 60 minutos —, a pressão que o técnico tentou desviar com a convocação de Neymar vai dobrar de intensidade antes mesmo da fase eliminatória começar.








