A câmera encontrou o banco de reservas antes de encontrar o campo. Era a tarde de 28 de maio em Teresópolis, e o homem sentado com uma bolsa de gelo na perna direita não estava com o grupo nos exercícios táticos. Neymar observava. E enquanto ele observava, a comissão técnica de Carlo Ancelotti calculava — não em sentimentos, mas em dias.

O diagnóstico que a CBF não queria confirmar

O médico da Copa do Mundo, Rodrigo Lasmar, foi direto na coletiva desta quinta-feira (28): lesão muscular de grau 2 na panturrilha direita, prazo de recuperação entre duas e três semanas. A matemática é cruel. A estreia do Brasil é dia 13 de junho, contra Marrocos. O limite regulamentar da Fifa para substituição de jogadores lesionados é 24 horas antes do primeiro jogo — ou seja, até 12 de junho. Neymar teria, na melhor das hipóteses, zero dias de treino com o grupo antes de entrar em campo num Mundial.

"Ele segue em tratamento, e em duas ou três semanas estará liberado. Vamos avaliar dia a dia. A expectativa é essa", declarou Lasmar.

O episódio carrega uma camada de constrangimento institucional. O Santos havia comunicado à CBF, até o dia 18 de maio — data da convocação —, que a condição de Neymar era um edema, não uma lesão estrutural. Os exames solicitados pela própria federação e realizados na noite de quarta-feira (27) revelaram o grau 2. Segundo apuração do SportNavo, a divergência entre o laudo do clube e o diagnóstico da seleção gerou desconforto interno na CBF, que se sentiu mal informada sobre o real estado físico do atleta.

A lição de 1994 que Ancelotti carrega na memória

Há uma ironia elegante na situação. Carlo Ancelotti não chega à Copa de 2026 como treinador de seleção pela primeira vez. Em 1994, foi auxiliar de Arrigo Sacchi na Itália — e viveu exatamente o dilema que agora precisa resolver com Neymar. Naquela Copa, duas referências absolutas do time chegaram comprometidas fisicamente: Franco Baresi e Roberto Baggio. Baresi havia sido submetido a uma cirurgia no joelho durante o torneio e voltou para a final contra o Brasil, em Pasadena, com menos de um mês de recuperação. Baggio carregava um problema muscular que limitava sua mobilidade. A Itália perdeu nos pênaltis, com Baggio chutando a última cobrança para fora.

O diagnóstico que a CBF não queria confirmar Como Baggio e Baresi ensinaram Ance
O diagnóstico que a CBF não queria confirmar Como Baggio e Baresi ensinaram Ance

A pergunta que Ancelotti precisou responder em 1994 — e que precisará responder novamente em junho — não é sobre carinho ou legado. É sobre se um jogador sem ritmo de jogo e com musculatura comprometida consegue suportar 90 minutos de Copa do Mundo sem agravar a lesão e sem prejudicar o esquema coletivo. Não há tragédia nisso: há contabilidade.

As metas físicas que Neymar precisa atingir nos treinos

Casemiro, um dos capitães da seleção, tentou equilibrar o tom na mesma coletiva em que Lasmar apresentou o diagnóstico. O volante reconheceu a importância do companheiro, mas foi cuidadoso em não criar uma hierarquia pública.

"Neymar é experiente. Sabemos que a geração 92 tem muita força. É um jogador experiente e está indo para a sua quarta Copa. Já passou por inúmeras coisas e pode agregar muita coisa", disse Casemiro.

O que Ancelotti observará nas avaliações diárias vai além do simples retorno aos treinos. Para que Neymar seja considerado para a estreia contra Marrocos, a comissão técnica precisa ver: capacidade de aceleração máxima sem dor na panturrilha, resistência a mudanças de direção em alta velocidade, e ao menos cinco dias de treinos com carga total antes do jogo — o que, dado o prazo, só seria viável se a liberação médica viesse antes de 8 de junho. O cenário mais realista, segundo o próprio clube, é que ele esteja disponível para a segunda rodada da fase de grupos, contra o Haiti, em 19 de junho.

O problema tático é concreto. Ancelotti construiu um esquema que exige pressão alta e mobilidade intensa nos corredores. Um Neymar que chega ao primeiro jogo sem ritmo de competição desde a partida contra o Coritiba — quando saiu de campo ainda no primeiro tempo com o incômodo na panturrilha — precisará de ao menos duas semanas de carga progressiva para atingir a intensidade mínima exigida. Sem isso, entra como referência técnica e criativa, mas não como peça tática funcional no sistema.

Os cenários possíveis antes de 12 de junho

A CBF definiu três possibilidades práticas para os próximos 15 dias. Primeiro: Neymar evolui dentro do esperado, treina com o grupo a partir de 5 ou 6 de junho, e fica disponível como opção para Marrocos — cenário considerado improvável pela própria comissão técnica. Segundo: ele se recupera, mas sem condições de começar jogando, sendo escalado a partir do segundo jogo contra o Haiti, em 19 de junho. Terceiro: a evolução é insuficiente, a CBF envia laudo médico à Fifa comprovando incapacidade de participação, e um substituto da lista provisória assume a vaga — lembrando que a substituição não é automática e depende de aprovação da Comissão Médica da Fifa.

Neymar não jogou nenhum dos dois amistosos preparatórios — contra Panamá (30 de maio) e Egito (6 de junho). Isso significa que, independentemente de qualquer recuperação milagrosa, chegará ao primeiro jogo do Brasil sem minutos oficiais desde a derrota do Santos por 3 a 0 para o Coritiba, na Neo Química Arena. O histórico recente pesa: entre 2022 e 2026, o atacante acumulou mais de 219 dias afastado por lesões em três temporadas diferentes. Ancelotti sabia desse histórico quando o convocou. A diferença é que agora o relógio não é de clube — é de Copa do Mundo.

Se Neymar for liberado até 10 de junho e treinar dois dias completos com o grupo, Ancelotti o usará desde o início contra o Haiti ou apenas como recurso no banco contra Marrocos? E se o desempenho for abaixo do esperado nas primeiras partidas, o técnico terá coragem de deixá-lo no banco — ou repetirá o dilema de Sacchi com Baggio em 1994?