O meia nasceu em São Paulo, cresceu nas categorias de base de clubes brasileiros e hoje treina diariamente no CT do Palmeiras. Mas quando a lista do Paraguai foi divulgada na segunda-feira, 1º de junho, o nome de Maurício apareceu ali, entre Ramon Sosa e Gustavo Gómez, compondo um trio palmeirense numa seleção adversária. O motivo é simples e legalmente impecável: o pai de Maurício é paraguaio, o que lhe garantiu a naturalização e o direito de defender a Albirroja na Copa do Mundo de 2026.
Esse cenário, que décadas atrás seria visto como exceção curiosa, tornou-se uma das marcas desta edição do torneio. O futebol brasileiro, que por muito tempo exportou talentos para a Europa, agora também exporta identidade para seleções que cruzarão o caminho de nações de todo o mundo nos Estados Unidos, México e Canadá.
Maurício e o Paraguai de Alfaro — uma seleção construída no Brasileirão
O técnico Gustavo Alfaro convocou sete jogadores que atuam no futebol brasileiro para o Paraguai, sendo três apenas do Palmeiras. Gustavo Gómez é capitão e pilar defensivo da seleção há anos. Ramon Sosa é um dos principais criadores. Maurício, porém, é o caso que mais gerou debate: nascido no Brasil, sem histórico na base paraguaia, chegou à seleção exclusivamente pela descendência paterna. Nas redes sociais, a reação foi polarizada.
"Ainda acho muito ruim esse caso Maurício na seleção paraguaia… aparentemente, fora a descendência, ele não tem ligação nenhuma com o país, com a seleção etc."
Do lado oposto, torcedores do Palmeiras defenderam o convocado com dados práticos: Maurício é tecnicamente superior a várias opções do elenco paraguaio e pode ser decisivo num grupo que inclui Turquia e Estados Unidos. O Paraguai retorna à Copa do Mundo após 16 anos de ausência — a última participação foi em 2010, quando chegou às quartas de final com Óscar Cardozo e Roque Santa Cruz.
Memphis Depay e o paradoxo do holandês que mora em Itaquera
Se o caso de Maurício levanta questões sobre identidade nacional, o de Memphis Depay inverte completamente a lógica. O atacante do Corinthians é holandês, formado nas categorias de base do PSV Eindhoven, com passagem por Manchester United, Barcelona e Atlético de Madrid. Mas em 2026 ele está no Brasil — e foi convocado pela Holanda com a camisa 10 nas costas.
Segundo dados do portal Placar, Memphis é o primeiro jogador europeu atuando no Brasileirão a ser convocado para uma Copa do Mundo. A camisa 10 da seleção holandesa carrega um peso histórico imenso: Ruud Gullit a usou no Mundial de 1990, Dennis Bergkamp em 1998. Memphis já havia vestido esse número nas Eliminatórias e chega ao torneio como referência de uma geração que inclui Tijjani Reijnders, com a mítica camisa 14 de Johan Cruyff, e o capitão Virgil Van Dijk, com o número 4.
"Memphis já vinha utilizando a numeração nas eliminatórias para a Copa. O atleta do Timão é o primeiro jogador europeu atuando no Brasil a ser convocado para o Mundial", destacou a Revista Placar em matéria do SportNavo sobre a numeração da seleção holandesa.
A tendência que a Copa de 2026 consolida no futebol mundial
O fenômeno não se restringe a Maurício e Memphis. Itália, Espanha e Portugal convocaram ao longo das últimas Copas jogadores com raízes brasileiras que optaram por defender outras bandeiras — casos como Thiago Motta, que defendeu a Azzurra após anos com a camisa do Brasil sub-20, ou Deco, que trocou a Seleção Brasileira por Portugal em 2002 e foi campeão europeu em 2004. A Copa de 2006 já havia sido marcada por essa discussão, quando Marcos Senna e Lúcio representaram países diferentes numa mesma edição do torneio.
Em 2026, o Brasileirão como polo de atração amplificou esse movimento. Ao todo, 32 atletas que atuam na Série A — e até na Série B — estarão no Mundial. O Flamengo lidera com nove convocados para Brasil, Uruguai, Equador e Colômbia. O Palmeiras aparece com sete, incluindo o trio paraguaio. O Atlético-MG emplacou quatro, sendo três pelo Equador.
A questão jurídica é clara: a FIFA permite que um atleta defenda uma seleção desde que tenha nacionalidade do país correspondente e não tenha representado outra federação em competição oficial. Maurício nunca vestiu a camisa do Brasil em nenhuma categoria oficial da FIFA, o que torna sua opção pelo Paraguai absolutamente válida.
O que esperar desses jogadores na fase de grupos
O Paraguai estreia no dia 14 de junho contra a Turquia, em Vancouver — curiosamente, a mesma Turquia que volta ao Mundial após 24 anos, com Arda Güler e Kenan Yildiz como destaques. Na sequência, os paraguaios enfrentam os próprios turcos no dia 20 de junho, em Santa Clara. Maurício pode ser a peça que garante criatividade num meio-campo que historicamente foi o ponto fraco paraguaio.
Memphis, por sua vez, estreia pela Holanda num grupo ainda a ser confirmado, mas já com a pressão de quem carrega o número 10 de Gullit e Bergkamp. Seu rendimento no Corinthians ao longo de 2026 será o principal argumento para quem defende — ou questiona — a escolha do técnico holandês.
Quando Maurício entrar em campo de vermelho e branco em Vancouver, um torcedor palmeirense vai sentir algo difícil de nomear. Será que esse mesmo torcedor torce contra o atleta que vê toda rodada no Allianz Parque, ou torce pelo jogador que, afinal, ajudou a construir a melhor fase do Palmeiras na última década?












