Quinze vitórias consecutivas, 76 pontos na tabela e cinco de vantagem sobre o Al Hilal. Os números do Al Nassr na 30ª rodada do Campeonato Saudita contam uma história que vai muito além da aridez do King Saud University Stadium, em Riade. Contra o Al Ahli nesta quarta-feira — que soma 66 pontos na terceira colocação —, Jorge Jesus tem a chance de ampliar ainda mais a vantagem sobre um rival que, por anos, dominou o futebol árabe como se fosse uma questão de decreto.
O arquiteto de uma era improvável
Quando Cristiano Ronaldo assinou pelo Al Nassr em janeiro de 2023, a narrativa dominante na imprensa europeia era a de um ocaso glamoroso — um astro em declínio trocando o exigente palco da Premier League pelo conforto financeiro do Oriente Médio. Dois anos depois, a realidade contradiz o ceticismo com a frieza dos dados. CR7 segue como artilheiro e principal jogador da equipe, construindo ao redor de si um elenco que hoje inclui Marcelo Brozovic, Kingsley Coman, João Félix e Ângelo — nomes que, em qualquer liga europeia de segunda linha, seriam titulares absolutos.
A escalação provável de Jorge Jesus para o duelo com o Al Ahli ilustra essa transformação: Al-Aqidi; Al-Ghanam, Simakan, Martínez e Al-Boushail; Al-Khaibari, Brozovic e Ângelo; Coman, Cristiano Ronaldo e João Félix. É, sem exagero, um onze que mistura identidade saudita com músculo europeu de alto nível. O português, que chegará aos 40 anos em fevereiro de 2025, segue sendo a peça central desse projeto.
Gegenpressing sob o sol de Riade
Na avaliação do SportNavo, o que Cristiano Ronaldo trouxe ao Al Nassr transcende a dimensão estatística. Sua chegada funcionou como um catalisador de credibilidade — o tipo de efeito que Beckham exerceu no LA Galaxy em 2007 ou que Zlatan Ibrahimović produziu no Paris Saint-Germain antes de o clube se tornar uma potência continental. A diferença é que, no caso saudita, o impacto esportivo parece mais duradouro. A sequência de 15 vitórias consecutivas não é acidente; é consequência de um modelo de jogo que Jorge Jesus foi capaz de implementar aproveitando a liderança comportamental de Ronaldo nos treinos e nos vestiários.

Do outro lado da chave, o Al Ahli chega ao duelo desfalcado de cinco titulares: os zagueiros Merih Demiral e Roger Ibañez, os laterais Ali Majrashi e Zakaria Hawsawi e o volante Valentin Atangana Edoa. Roberto Firmino, nome que animaria qualquer torcida, sequer está inscrito na liga saudita desde a chegada de Wenderson Galeno. Matthias Jaissle, técnico do clube, terá que improvisar com Mendy no gol e Ivan Toney como referência ofensiva — um cenário que, diante do Al Nassr em estado de graça, parece pouco animador.
Europa também tem seu clássico britânico
Enquanto a Arábia Saudita vive o seu momento de maior efervescência futebolística, a Europa apresenta nesta quinta-feira um confronto de sabor diferente: Nottingham Forest e Aston Villa se enfrentam no lendário City Ground pela semifinal da Liga Europa, às 16h (horário de Brasília), com transmissão exclusiva pela CazéTV no Brasil. O all-English tie reúne dois ex-campeões europeus em fases diametralmente opostas — o Forest de Vítor Pereira ainda brigando contra o rebaixamento na Premier League, enquanto o Villa de Unai Emery disputa uma vaga na próxima Champions League pela competição doméstica.
Segundo análise do SportNavo, Emery — tetracampeão da Liga Europa e talvez o maior especialista vivo no torneio — chega com o Villa em posição privilegiada: a equipe de Birmingham terminou a fase de liga na vice-liderança da tabela única com 21 pontos, resultado de sete vitórias e apenas uma derrota.
O Forest, por sua vez, avançou ao mata-mata após terminar a fase de liga na 13ª colocação geral. Há um paralelo curioso entre as duas histórias desta semana: assim como o Al Nassr de Ronaldo prova que ambição e recursos podem reescrever hierarquias estabelecidas no futebol saudita, o Nottingham Forest demonstra que resiliência em competições eliminatórias pode compensar inconsistências na liga doméstica. Vítor Pereira, técnico português que assumiu o clube em fevereiro, terá o City Ground a seu favor — um estádio que, nas noites europeias, carrega o peso histórico das conquistas de Brian Clough nos anos 1970.

O título saudita como questão de rodadas
Com cinco pontos de vantagem sobre o Al Hilal e a melhor sequência da temporada — 15 vitórias em sequência —, o Al Nassr precisa de mais algumas rodadas consistentes para selar o título. Uma vitória sobre o Al Ahli nesta quarta-feira ampliaria ainda mais a pressão sobre o rival histórico, que soma 71 pontos e vê a distância crescer a cada fim de semana. O título saudita representaria não apenas um troféu para Ronaldo, mas a confirmação de que a Saudi Pro League é capaz de produzir uma narrativa esportiva genuína — e não apenas um desfile de aposentadorias douradas.












