A última vez que uma seleção caribenha causou comoção semelhante numa estreia de Copa do Mundo, o Haiti de 1974 tomou 7 a 0 da Polônia e ninguém lembrou o nome de um único jogador haitiano. Cinquenta e dois anos depois, em Houston, no domingo 14 de junho, Curaçao sofreu o mesmo placar contra a Alemanha — 7 a 1 — e o nome Livano Comenencia já está gravado nos livros de história do futebol mundial.

O menor país da história e o peso de estar ali

Curaçao tem menos de 200 mil habitantes. Para efeito de comparação, é menos gente do que a cidade de Juiz de Fora, em Minas Gerais. Nenhum país tão pequeno jamais disputou uma Copa do Mundo, e a simples presença da seleção caribenha em Houston já representava uma anomalia estatística que a Copa do Mundo de 48 seleções tornou possível. Antes do apito inicial, a chamada Onda Azul — a torcida de Curaçao — foi às lágrimas durante a execução do hino nacional. Não havia pressão por resultado. Havia o peso de existir naquele palco.

TUNÍSIA E JAPÃO SE REENCONTRAM EM UMA COPA DO MUNDO APÓS 24 ANOS | #shorts | ge.globo

A história do país tem contornos recentes demais para não impressionar: até 2010, Curaçao era parte das extintas Antilhas Holandesas e hoje integra o Reino dos Países Baixos. A seleção nacional, portanto, tem apenas 16 anos de existência. Dos jogadores convocados para a Copa, apenas o meia Tahith Chong nasceu em solo curaçauense — os demais defendem o país por vínculos de origem, atuando majoritariamente em clubes europeus. Não há tragédia: há contabilidade.

O menor país da história e o peso de estar ali Como Curaçao marcou um gol contra
O menor país da história e o peso de estar ali Como Curaçao marcou um gol contra

O gol que parou o mundo por três minutos

A Alemanha abriu o placar cedo, como se esperava. O que ninguém esperava era o que viria a seguir. Comenencia, atacante que atua na Europa e carrega Curaçao no sobrenome tanto quanto no passaporte, converteu uma jogada para decretar o empate em 1 a 1 — o primeiro gol da história de Curaçao em Copas do Mundo. O estádio em Houston parou. A Onda Azul explodiu. Por alguns minutos, o resultado era 1 a 1 entre a tetracampeã mundial e o menor país a disputar o torneio.

O empate durou pouco. A Alemanha retomou o controle, marcou mais seis gols e fechou em 7 a 1 — placar que, inevitavelmente, evocou a semifinal de 2014 no Mineirão. O tabloide alemão Bild celebrou sem cerimônia:

"Nosso primeiro 7 a 1 da Copa desde a semifinal contra o Brasil."
Já o Die Welt, mais cauteloso, lembrou que o gol sofrido não era bom presságio:
"O gol do tremendo azarão foi totalmente desnecessário."
Desnecessário para a Alemanha, talvez. Para Curaçao, foi a razão de ser de toda uma Copa.

A resposta ao presidente da UEFA e o debate sobre os 48 países

O gol de Comenencia chegou em momento politicamente carregado. Horas antes da partida, Curaçao foi uma das federações signatárias de um comunicado de repúdio às declarações de Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, que afirmou publicamente que a expansão da Copa para 48 seleções produziria jogos "desinteressantes". O documento foi assinado também por Marrocos, Egito, Senegal e Costa do Marfim, entre outras confederações. Resistiu.

O gol que parou o mundo por três minutos Como Curaçao marcou um gol contra a Ale
O gol que parou o mundo por três minutos Como Curaçao marcou um gol contra a Ale

O portal alemão t-online destacou que a goleada fez a Alemanha superar o Brasil no número total de gols marcados em Copas do Mundo — dado que o Frankfurter Allgemeine Zeitung contextualizou com sobriedade ao escrever que, com o 7 a 1, a seleção alemã "ganhou principalmente uma coisa: tempo". O Tagesspiegel elogiou o ataque, mas apontou fragilidades defensivas que o adversário seguinte — de nível muito superior — poderá explorar. A vitória expressiva, portanto, gerou mais perguntas do que respostas sobre o real potencial alemão nesta Copa.

Comenencia e o legado que não cabe em um placar

Há uma ironia estrutural no 7 a 1 de Houston que o distingue radicalmente do 7 a 1 de Belo Horizonte em 2014. Naquele jogo, a goleada foi sinônimo de colapso institucional, de uma seleção que desmoronou sob o peso das próprias expectativas. Neste, a goleada é o pano de fundo de uma história de superação protagonizada pelo time menor — e o placar, paradoxalmente, não define quem saiu vencedor moralmente do NRG Stadium.

Conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta Copa, a edição de 48 seleções tem produzido exatamente o tipo de narrativa que seus defensores prometiam: nações pequenas, histórias grandes, gols que valem mais do que três pontos. Comenencia celebrou como se tivesse vencido o torneio. Porque, de certa forma, venceu. A seleção de Curaçao encerra a fase de grupos com mais uma partida pela frente — e com um gol que nenhum placar final poderá apagar.