A última vez que o Paraguai chegou às quartas de final de uma Copa do Mundo, em 2010 na África do Sul, Gustavo Gómez tinha 19 anos e ainda sonhava com a chance que hoje está bem diante dele. Dezesseis anos depois, o capitão da Albirroja não sonha mais — ele visualiza, com detalhes cirúrgicos, o que pretende fazer no dia 12 de junho, em Los Angeles.

A cena que Gómez já ensaiou na cabeça

O calor de Los Angeles em junho não perdoa ninguém. No SoFi Stadium, onde o Paraguai estreia contra os Estados Unidos, a temperatura pode facilmente passar dos 30 graus. Mas o ambiente que Gómez já construiu mentalmente é mais quente do que qualquer previsão meteorológica. Em entrevista ao podcast PodpahTV, o zagueiro descreveu, quase como um roteiro de cinema, o que pretende viver naquele gramado.

"Vai vir o escanteio, eu vou pular, vou cabecear, fazer o gol e comemorar. Visualizo isso", afirmou Gómez, com a convicção de quem já repetiu a cena mil vezes no treino.

Não é fanfarronice. Ao longo de sua carreira no Palmeiras — onde conquistou dois títulos da Copa Libertadores, em 2020 e 2021 — Gómez construiu reputação sólida como um dos zagueiros mais perigosos no jogo aéreo do continente. Sua altura de 1,87m, combinada com tempo de salto e leitura de trajetória fora do comum, transforma cada bola parada em ameaça real ao adversário.

O jogo aéreo como arma tática de Gustavo Alfaro

Quando faz a leitura do escanteio antes da bola sair, Gómez já sabe para onde vai. Quando faz o movimento de antecipação na segunda trave, raramente erra o timing. Esse repertório não é acidental — é o produto de anos de refinamento sob técnicos que entenderam cedo que o zagueiro paraguaio é uma arma ofensiva disfarçada de defensor.

Gustavo Alfaro, treinador do Paraguai, tem no jogo aéreo um dos pilares táticos da equipe para a Copa do Mundo. O Grupo D apresenta adversários de perfis distintos: os Estados Unidos, anfitriões e favoritos no confronto inicial; a Turquia, com bloco defensivo compacto; e a Austrália, que chega ao torneio após uma campanha de classificação marcada pela consistência. Contra todos eles, a bola parada pode ser o caminho mais curto para os pontos que o Paraguai precisa.

A seleção paraguaia retorna à Copa do Mundo pela nona vez em sua história após ficar fora das edições de 2014, 2018 e 2022 — um jejum de 12 anos que torna este torneio ainda mais carregado de significado para um país inteiro. A melhor campanha da história continua sendo aquela de 2010, quando a equipe eliminou o Japão nas oitavas e parou apenas diante da Espanha nas quartas de final.

Trump na arquibancada e o gol que deixaria a festa mais cara

O lado político da Copa do Mundo 2026 é impossível de ignorar. Com três países-sede — Estados Unidos, México e Canadá — e o governo americano de Donald Trump envolvido diretamente na organização do torneio, cada confronto envolvendo os anfitriões ganha uma camada extra de narrativa. Gómez entrou nessa brincadeira com elegância e timing perfeito.

"Não sei se o Donald Trump vai estar no jogo, mas acho que vai estar meio triste se nós ganharmos. É nessas coisas que começamos a pensar", disse o capitão paraguaio, arrancando risadas na entrevista.

A frase tem leveza, mas o subtexto é real. Uma vitória paraguaia sobre os Estados Unidos na abertura do Grupo D seria um dos resultados mais impactantes da primeira rodada do Mundial. Los Angeles receberia o choque. E o zagueiro do Palmeiras, nascido em Luque, no Paraguai, estaria no centro da história.

A cena que Gómez já ensaiou na cabeça Como Gómez planeja cabecear nos EUA e de
A cena que Gómez já ensaiou na cabeça Como Gómez planeja cabecear nos EUA e de

O que o Paraguai precisa fazer antes de Los Angeles

Antes de encarar os americanos, o Paraguai cumpre um último compromisso preparatório: um amistoso contra a Nicarágua em casa, onde Alfaro deve testar as últimas variações táticas e dar ritmo de jogo aos titulares. A partida serve também para afinar justamente as jogadas de bola parada — o conjunto de escanteios, faltas laterais e variações de movimentação que podem ser decisivas contra uma defesa americana que, apesar de organizada, tem vulnerabilidades no duelo aéreo com jogadores de alto porte.

O calendário do Paraguai no Grupo D prevê, após o confronto com os EUA em 12 de junho, duelos contra Turquia e Austrália. A progressão matemática é clara: um resultado positivo na estreia abre espaço para a classificação às oitavas de final com menos pressão nas rodadas seguintes. Uma derrota, por outro lado, coloca a equipe numa situação de recuperação difícil contra adversários que também chegam motivados.

Gómez treina, visualiza e espera. O escanteio vai ser cobrado. A bola vai cruzar a área. E Los Angeles vai descobrir, no dia 12 de junho, se o capitão paraguaio é bom de profecia.