"Como todo mundo sabe, Zico é o 'Deus do futebol' no Japão." A frase é de Kiyomi Nakamura, dita durante a Copa do Catar ao portal Terra — e ela resume, com precisão cirúrgica, por que uma jornalista de Tóquio passou quase três décadas acompanhando a seleção brasileira por meio mundo. Quando Zico assumiu como coordenador técnico do Brasil em 1998, Kiyomi tinha uma aposta a fazer. Ela a fez. E 28 anos depois, a aposta a colocou no centro das coletivas da Copa do Mundo como um dos rostos mais reconhecíveis de toda a cobertura jornalística.

Da arquibancada do Kashima até a Granja Comary com Zico

A relação de Kiyomi com o futebol brasileiro começa entre 1991 e 1994, quando ela acompanhou a passagem de Zico pelo Kashima Antlers, clube que o ídolo ajudou a construir no nascente futebol profissional japonês. Não era cobertura jornalística ainda — era admiração pura. Quando Zico migrou para o cargo de coordenador técnico da seleção brasileira em 1998, Kiyomi enxergou uma janela e elaborou um projeto editorial para televisão, editoras e revistas. Dois veículos apostaram nela. A partir daí, ela acompanhou o Brasil desde os treinos na Granja Comary, em Teresópolis, até a final da Copa da França — que terminou com derrota por 3 a 0 para os anfitriões. Quem começa a carreira assim aprende cedo que jornalismo esportivo exige estômago. Ela ficou.

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Nos anos seguintes, Kiyomi foi a campo para cobrir o pentacampeonato na Coreia do Sul em 2002, depois esperou pelo hexa no Brasil em 2014 — que não veio, claro, e virou o trauma coletivo que todos conhecem. Cada Copa, ela estava lá. Este ano, nos Estados Unidos, é o oitavo Mundial da carreira dela. Tem repórter nato de futebol brasileiro que não chegou a quatro edições.

O português pausado que derrubou a resistência das coletivas

Depois de 1998, Kiyomi tomou uma decisão que mudou o rumo de toda a sua trajetória profissional: aprendeu português. Não para sobreviver nos bastidores — para pertencer a eles. O resultado é um idioma fluente, pronunciado com uma cadência lenta e um sotaque que mistura japonês com a musicalidade do Rio, e que virou sua marca registrada. Nas coletivas da Copa do Mundo, quando ela formula uma pergunta, há um instante de atenção coletiva na sala — e não é por exotismo. É porque o carinho com que ela fala do futebol brasileiro atravessa o idioma.

Nas redes sociais, os torcedores reagiram com uma intensidade que poucos jornalistas credenciados conseguem provocar. "Mais torcedora que muitos outros jornalistas que são brasileiros natos", escreveu um usuário. "Sabe o hino melhor que o Belo e a Alcione", brincou outro. Dizem no Brasil que quem não tem cão caça com gato — e Kiyomi, sem ser brasileira, foi buscar o futebol canarinho com uma dedicação que envergonha muito jornalista de casa. O resultado é uma popularidade orgânica, construída sem assessoria de imprensa e sem estratégia de conteúdo: só 28 anos de presença consistente.

Ancelotti e a dinâmica que virou fenômeno nas coletivas da Copa

Carlo Ancelotti não é conhecido por se soltar em entrevistas coletivas. O técnico italiano tem 65 anos de experiência acumulada em vestiários de Real Madrid, Bayern de Munique, Milan e Napoli, e costuma medir cada palavra com cuidado. Mas com Kiyomi, algo muda. Ele responde com uma descontração incomum, faz brincadeiras no melhor português que consegue articular — um sotaque descrito pelos que assistem como "ítalo-portenho" — e demonstra uma atenção especial que não aparece com a maioria dos credenciados.

"Ela tem a atenção absoluta do técnico! Podemos fazer dela a jornalista oficial da seleção?", perguntou um torcedor nas redes sociais, em comentário que viralizou durante a fase de grupos da Copa.

O elenco também adotou Kiyomi. A forma como ela se refere ao futebol brasileiro — com um misto de reverência técnica e afeto genuíno — criou uma cumplicidade rara entre repórter e grupo. Isso tem valor jornalístico concreto: fontes que confiam em quem as cobre falam mais, revelam mais e permitem uma cobertura mais profunda. Kiyomi construiu esse capital ao longo de quase três décadas, Copa a Copa, coletiva a coletiva, conforme registrado pelo SportNavo ao acompanhar as reações da imprensa credenciada no torneio.

O fenômeno Kiyomi Nakamura é, no fundo, uma história sobre persistência e pertencimento. Ela começou cobrindo um brasileiro em solo japonês, atravessou o Pacífico com um projeto editorial embaixo do braço, aprendeu um idioma inteiro para fazer o trabalho direito e acumulou oito Copas do Mundo de credencial. O Brasil joga sua próxima partida no torneio com ela na sala de coletiva, caderno na mão, português pausado pronto — e vale gravar o momento em que Ancelotti sorrir para ela de novo, porque essa é uma das imagens mais genuínas que esta Copa tem produzido.