Confesso: quando Lise Klaveness começou a levantar a voz contra Gianni Infantino em 2022, no próprio Congresso da Fifa em Doha, achei que seria mais um protesto isolado, daqueles que geram manchete por 48 horas e somem no vácuo da política futebolística. Errei. A presidente da Federação Norueguesa de Futebol (NFF) não arrefeceu — e nesta terça-feira, 2 de junho de 2026, transformou aquela postura em ação jurídica concreta, às vésperas de a Noruega embarcar para a Copa do Mundo.

A NFF formalizou seu apoio à queixa ética apresentada ao comitê de ética da Fifa pela organização britânica de direitos humanos FairSquare, em dezembro de 2025. O alvo é Gianni Infantino. O motivo: a entrega do chamado FIFA Peace Prize inaugural a Donald Trump durante o sorteio da Copa do Mundo 2026, realizado em Washington D.C. no mesmo mês. Para a NFF e para a FairSquare, o gesto configura violação direta do Artigo 15 dos estatutos da Fifa, que obriga todos os oficiais da entidade a manterem neutralidade política estrita.

O prêmio que a Fifa criou sem o aval do Congresso

A cerimônia do sorteio em Washington foi, ao mesmo tempo, espetáculo e estopim. Infantino subiu ao palco e entregou pessoalmente o troféu a Trump, justificando a criação do FIFA Peace Prize como um instrumento para reconhecer indivíduos que promovem paz e unidade globalmente. O problema, segundo Klaveness, está na origem do prêmio: ele nunca foi debatido nem aprovado pelo Congresso da Fifa, o órgão máximo de deliberação da entidade.

"O prêmio não possui legitimidade, não foi ancorado no Congresso da Fifa e está claramente fora do mandato da entidade", declarou Klaveness em coletiva de imprensa nesta terça-feira, ao anunciar o apoio formal da NFF à denúncia.

A afirmação não é retórica: os estatutos da Fifa estabelecem que a criação de reconhecimentos oficiais da entidade deve passar por instâncias deliberativas. A ausência desse rito, combinada com a escolha de um nome de altíssima carga política global — Trump retornou à presidência dos EUA em janeiro de 2025 —, é o núcleo da argumentação jurídica apresentada ao comitê de ética.

A queixa da FairSquare e o que o comitê de ética terá que decidir agora

A FairSquare, organização com histórico de monitoramento de direitos humanos no esporte — foi dela parte da documentação crítica sobre as condições de trabalhadores na Copa do Catar em 2022 —, protocolou a denúncia inicial em dezembro de 2025, imediatamente após a cerimônia de Washington. O apoio da NFF, federação membro plena da Fifa, eleva o peso político do processo: uma federação nacional não assina uma queixa ética contra o presidente da entidade mãe sem calcular cada consequência diplomática.

O comitê de ética da Fifa, órgão formalmente independente da presidência, terá agora que avaliar se Infantino violou o Artigo 15. O artigo é claro ao determinar que dirigentes devem abster-se de qualquer ação que possa ser interpretada como endosso político. A entrega pessoal de um prêmio criado à margem dos processos institucionais a um chefe de Estado em exercício — no território do país anfitrião da Copa — dificilmente passa por escrutínio sem gerar pelo menos uma notificação formal.

"Pedimos ao comitê de ética que avalie se o presidente da Fifa violou as regras de neutralidade política", reiterou Klaveness, deixando claro que a NFF não busca apenas um pronunciamento simbólico, mas uma investigação de mérito.

O que a crise representa para a Copa do Mundo que começa em dez dias

O timing é cirúrgico — e provavelmente calculado. A Copa do Mundo começa em 11 de junho nos Estados Unidos, México e Canadá. A Noruega, que se classificou para o torneio com Erling Haaland como principal referência, parte para o Mundial carregando simultaneamente a expectativa esportiva e o peso de uma posição institucional inédita: ser a primeira federação a formalizar apoio a uma queixa ética contra o presidente da Fifa durante um Mundial.

Para Infantino, o cenário é delicado. Sua gestão já acumulou críticas pela aproximação com governos autoritários, pelo processo de expansão do Mundial para 48 seleções e pelas investigações sobre contratos de mídia. Uma abertura formal de investigação pelo comitê de ética — ainda que o processo seja lento e raramente resulte em punição imediata — produziria uma sombra institucional sobre cada aparição pública do presidente durante o torneio. Nos corredores do poder do futebol mundial, imagem é moeda.

O comitê de ética da Fifa não tem prazo público para se pronunciar sobre a admissibilidade da queixa ampliada pela NFF. A Noruega enfrenta seu primeiro jogo na fase de grupos da Copa do Mundo em 15 de junho — Klaveness estará nas arquibancadas, e Infantino, inevitavelmente, também.

A queixa tem fundamento estatutário e uma federação nacional como signatária — falta o comitê de ética ter a coragem institucional de abrir o processo.