"O substituto do Raphinha é uma grande incógnita." A frase é do colunista Arnaldo Ribeiro, pronunciada no Posse de Bola do Canal UOL, e ela resume com precisão o estado de espírito da comissão técnica brasileira a 72 horas do confronto com a Escócia, em Miami, na próxima quarta-feira (24). Raphinha sentiu a parte posterior da coxa e é desfalque confirmado. Com 4 pontos no Grupo C, o Brasil lidera a chave, mas uma derrota pode complicar a classificação dependendo do resultado de Marrocos e Haiti.
O buraco tático que Raphinha deixa no 4-3-3 de Ancelotti
Raphinha não é apenas um ponta-direita. No sistema de Carlo Ancelotti, ele cumpre função dupla que poucos jogadores do elenco conseguem replicar. Com a posse, abre o campo pela direita e cria amplitude. Sem a bola, integra a primeira linha de pressão sobre a saída adversária, junto com Vinícius Júnior. O 4-3-3 que o Brasil apresentou nos dois jogos da Copa tem variações: sem a bola, Matheus Cunha e Lucas Paquetá formam um losango no meio-campo, com Casemiro centralizado e Bruno Guimarães fechando pelo lado direito. É uma estrutura que exige do atacante aberto disciplina posicional e capacidade de transição rápida.
Ancelotti dificilmente abandonará esse desenho. A tendência é manter o 4-3-3 e buscar um perfil que se encaixe nas responsabilidades de Raphinha — e não um jogador que force uma adaptação do sistema ao seu estilo.
"O trio de meio de campo posicionado daquela forma me agrada. O Matheus Cunha me agrada", disse Arnaldo Ribeiro ao avaliar a evolução do Brasil do primeiro para o segundo jogo, ressaltando que a organização tática ajuda o time a 'correr menos'.
Os cinco candidatos e onde cada um se encaixa
Luiz Henrique é o nome que mais se aproxima do perfil exigido. O atacante do Botafogo conhece a função de ponta-direita aberta no 4-3-3 de Ancelotti, tendo executado exatamente esse papel nos amistosos contra França e Croácia em março. Contra os croatas, foi titular em um esquema 4-2-4. Atua aberto pela direita, ataca a profundidade e mantém o equilíbrio tático que o treinador italiano valoriza. Os amistosos pré-Copa contra Panamá e Egito reduziram seu prestígio momentaneamente — o desempenho ficou abaixo do esperado —, mas nenhum outro nome no elenco reproduz as características de Raphinha com a mesma fidelidade.
Savinho foi o primeiro escolhido quando Raphinha deixou o campo lesionado contra o Haiti. A partida já estava controlada em 2 a 0, e Ancelotti aproveitou o cenário favorável para lançar o jovem atacante em sua estreia em Copas do Mundo. O gesto é relevante: indica que o treinador vê nele uma opção real, não apenas emergencial. Savinho tem velocidade e capacidade de driblar em espaços reduzidos, mas sua leitura tática no sistema sem bola ainda está em desenvolvimento.
Rodrygo é o nome com mais crédito acumulado no Real Madrid, onde jogou ao lado de Ancelotti por três temporadas. Versátil, pode atuar pela direita ou como segundo atacante. O problema é que sua melhor versão aparece quando tem liberdade para se movimentar por dentro — o que colide com a função específica de abrir o campo pela direita que Raphinha cumpria. Usá-lo como ponta pura significaria desperdiçar sua principal qualidade.
Martinelli é uma carta fora do baralho convencional. Canhoto natural, atua preferencialmente pela esquerda, o que tornaria sua utilização pela direita um ajuste forçado. Sua presença na lista reflete a escassez de opções com perfil idêntico ao de Raphinha, não uma preferência tática de Ancelotti.
Igor Jesus aparece como quinta opção, mas por razão diferente. O centroavante do Botafogo não substitui Raphinha na posição — substitui Igor Thiago como referência central, liberando Matheus Cunha para uma função mais adiantada e criando uma variação no ataque. Ancelotti já comparou os perfis: "Igor Thiago é uma referência na área, forte nos duelos e muito agressivo na recuperação da bola", disse o treinador. Igor Jesus tem características similares e poderia entrar se Ancelotti decidir mudar o ponto de apoio ofensivo em vez de replicar a função de Raphinha.
O que a escolha revela sobre o plano de Ancelotti para o mata-mata
A decisão vai além do jogo contra a Escócia. Mauro Cezar Pereira, em análise publicada pelo UOL, classificou como "protocolares" as justificativas públicas da comissão técnica e alertou que a seleção ainda tenta "trocar o pneu com o carro andando" — e que qualquer erro no mata-mata pode ser fatal. A escolha do substituto de Raphinha é, portanto, um ensaio para o que vem depois.
Se Ancelotti escalar Luiz Henrique, o recado é de continuidade: o sistema permanece intacto e o Brasil entra em campo com a mesma identidade que funcionou contra o Haiti. Se optar por Rodrygo, o sinal é de adaptação: o treinador prefere qualidade individual a fidelidade posicional. Se usar Savinho desde o início, é uma aposta no futuro — e um risco calculado num jogo que ainda define a posição do Brasil no grupo.
"Vou meter Endrick no momento correto. Temos que esperar um pouco. Vai ser importante", disse Ancelotti ao ser questionado sobre o jovem atacante, reforçando sua abordagem de administrar o elenco com critério de momento, não de pressão externa.
A polêmica em torno de Endrick — que sequer saiu do banco contra o Marrocos e entrou apenas nos minutos finais contra o Haiti — revela o quanto Ancelotti prioriza leitura tática e comportamento coletivo sobre talento individual. O atacante de 19 anos, nas palavras do próprio treinador, "não é um atacante associativo como Matheus Cunha, nem uma referência na área como Igor Thiago — é outra coisa". Esse perfil indefinido, que no futuro pode ser sua maior virtude, hoje funciona como argumento para mantê-lo como opção e não como solução.
Levantado em matéria do SportNavo, o quadro mostra que Ancelotti tem opções, mas nenhuma é perfeita. Luiz Henrique lidera a disputa pela fidelidade ao sistema. Brasil e Escócia se enfrentam na quarta-feira (24), às 19h de Brasília, em Miami, com árbitro mexicano César Ramos apitando — o mesmo que comandou Brasil 1x1 Suíça na Copa de 2018. Uma receita boa não se improvisa: os ingredientes precisam estar no lugar certo antes do fogo acender.








