A notícia chegou pelo celular de um companheiro, não pelo dele. Marquinhos havia desligado o próprio telefone nos dias que antecederam a final da Champions League — toda vez que abria, aparecia algo sobre o PSG ou sobre a Copa do Mundo. Quando soube que Ancelotti o havia anunciado capitão da Seleção Brasileira, o jogo já tinha acabado. Quatro anos após o pênalti perdido contra a Croácia no Catar, o zagueiro de 31 anos chega a Nova Jersey carregando a braçadeira mais disputada do futebol brasileiro.
O peso que Marquinhos aprendeu a carregar desde o Catar
Dezembro de 2022. Arena Education City, Qatar. Marquinhos cobra o segundo pênalti do Brasil nas quartas de final contra a Croácia — e manda na trave. A Seleção é eliminada. A imagem do zagueiro chorando no gramado circulou por semanas e virou sinônimo do fracasso mais doloroso do futebol brasileiro em uma Copa desde 2014.
Na coletiva desta quarta-feira (3), em Morristown, Nova Jersey, ele não desviou do assunto. Pelo contrário.
"O Marquinhos de 2022 realmente é diferente desse de hoje. Quatro anos no mundo do futebol é muita coisa. As coisas amadurecem. A gente tem que estar buscando essa constante evolução, crescimento como pessoa, como líder e como jogador."
A diferença não é só discurso. No PSG da temporada 2025/2026, Marquinhos registrou médias que o colocam entre os zagueiros mais completos da Ligue 1 em termos de defensive actions — o indicador que soma pressões, bloqueios, interceptações e duelos ganhos por 90 minutos. Enquanto a média dos zagueiros titulares na liga francesa ficou em torno de 8,4 defensive actions/90, o brasileiro operou na faixa de 10,1, segundo dados do FBref. Não é um detalhe: é a diferença entre um zagueiro reativo e um que dita o ritmo da linha defensiva.
Outro número que ilustra essa evolução é o PPDA defensivo — passes permitidos por ação defensiva — das equipes onde ele atua. Quando a Seleção pressiona com organização, o PPDA cai (menos passes o adversário completa antes de sofrer uma ação defensiva). Marquinhos é peça central nessa pressão posicional: sua leitura de jogo reduz o espaço entre linhas, funcionando como um corredor que vai se estreitando devagar, imperceptível, até que o adversário não tem mais para onde passar.
O que Ancelotti enxergou para dar a braçadeira
A decisão de Carlo Ancelotti não foi por aclamação popular. Vários nomes circularam antes do anúncio — Casemiro, Alisson, até Neymar em versões mais otimistas da internet. Marquinhos foi escolhido porque preenche um perfil que o técnico italiano conhece bem: liderança silenciosa, comunicação constante dentro de campo e estabilidade emocional em momentos de pressão.
O próprio Marquinhos explicou essa visão de liderança de forma direta:
"Ser capitão não é só ter aquela braçadeira no braço e jogar bola. Ser capitão é muito mais, vem primeiro da pessoa e do que você pode agregar ao grupo e companheiros. Não é só o momento das quatro linhas."
No contexto tático de Ancelotti, isso se traduz em função específica: Marquinhos organiza o pass network defensivo da Seleção — aquele mapa de conexões que mostra de onde partem as saídas de bola e como o time se posiciona sem a posse. Num esquema que tende ao 4-3-3 ou 4-2-3-1, o zagueiro do PSG é o nó central dessa rede: conecta o goleiro aos laterais, inicia progressões e decide quando apostar no passe curto ou lançar direto aos volantes.
Para ter dimensão: zagueiros com alta taxa de progressive passes — bolas que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário ou entram no terço final — tendem a liberar os volantes de funções de transição básicas, deixando-os mais livres para criar. Marquinhos completou, em média, 4,7 progressive passes por 90 minutos na temporada pelo PSG. Para comparação, a média dos zagueiros centrais convocados por Ancelotti gira em torno de 3,2. Essa diferença de 1,5 passes progressivos por jogo, multiplicada por 90 minutos, é o que separa uma saída de bola previsível de uma que antecipa a pressão adversária.
Egito no sábado, Marrocos em 13 de junho e a pergunta que sobrou
O amistoso contra o Egito está marcado para sábado (6), em Cleveland. A partida é o penúltimo ensaio antes da estreia oficial na Copa do Mundo, contra Marrocos, no dia 13 de junho, também em Nova Jersey. Após o apito final em Cleveland, a delegação retorna a Basking Ridge para uma sessão de recuperação no domingo de manhã — e depois os jogadores terão algumas horas livres com familiares, um dos raros momentos de descompressão previstos na programação.
Do lado de fora do CT do New York Red Bulls nesta quarta, cerca de 60 torcedores esperaram por horas na esperança de ver os jogadores passarem. O nome mais gritado foi Neymar. Um dos presentes, Rauan, de Rondônia e morador dos EUA, resumiu o sentimento coletivo com uma frase que mistura confiança e cobrança: "O time está bem entrosado, e isso é o mais importante." Outro torcedor, Lucas, foi mais específico: pediu Matheus Pereira e Kaiki Bruno na lista — convocados que ficaram de fora.
Marquinhos, enquanto isso, entra no amistoso de sábado não apenas como titular na zaga, mas como o homem que precisa transformar um grupo talentoso num time com identidade defensiva clara. Ele mesmo colocou a pressão em perspectiva:
"Eu vivo esse momento cada vez mais como se fosse meu último jogo, última Copa e última oportunidade de estar conquistando jogos e troféus na minha carreira. Nesse momento de 2026, me sinto muito mais preparado."
A estreia contra Marrocos, em 13 de junho, vai mostrar se o PPDA da Seleção aguenta um adversário que pressiona alto e transiciona rápido — e se a liderança de Marquinhos dentro do campo converte em resultado o que ele projeta nas palavras. Se o Brasil sofrer um gol cedo contra os marroquinos e a linha defensiva vacilar, a braçadeira vai pesar de um jeito diferente: você acha que Marquinhos consegue manter a organização defensiva mesmo se o Brasil sair perdendo nos primeiros 20 minutos da Copa?









