25 de maio de 2026. Naquele domingo na Neo Química Arena, Neymar cumpriu o protocolo que Carlo Ancelotti havia estabelecido como condição mínima para qualquer conversa sobre convocação: entrou como titular, ficou em campo e terminou o jogo de pé. O Santos perdeu por 3 a 0 para o Coritiba, mas o resultado do placar era, naquele contexto específico, o dado menos relevante da tarde.

Os anos de silêncio que antecederam aquele domingo

Entre a ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, em novembro de 2023, e a partida contra o Coritiba, Neymar acumulou mais tempo de fisioterapia do que de minutos em campo. Foram aproximadamente 18 meses de reabilitação no Al-Hilal antes do retorno ao Santos, em fevereiro de 2026 — um período em que o atacante disputou menos partidas oficiais do que Rodrygo marcou gols só na fase de grupos da Champions League 2024/2025. A comparação não é gratuita: ela dimensiona o tamanho do abismo que Neymar precisava fechar para voltar a ser uma opção real de convocação.

O próprio jogador reconheceu o peso desse período na zona mista após o jogo.

"Fisicamente, me sinto muito bem. Venho melhorando a cada jogo, fiz o máximo que pude, não foi fácil. Confesso que não foi fácil. Foram anos de muito trabalho, também de muita falação errada sobre minhas condições e o que eu fazia. É muito triste a forma como a galera fala sobre isso. Trabalhei firme, quieto, em casa, sofrendo pelo que as pessoas falavam e deu tudo certo", disse Neymar.
A jaqueta verde e amarela que ele usava enquanto falava não era um detalhe sem intenção.

O que Ancelotti exigiu e o que o Santos entregou

A exigência do técnico italiano era objetiva: Neymar precisava demonstrar condição física para jogar em sequência, sem recaídas. Não se tratava de uma convocação por legado ou por pressão de patrocinadores — segundo apuração do SportNavo, o entendimento dentro do clube paulista é de que o atacante cumpriu o critério estabelecido. Foram ao menos três partidas como titular no Brasileirão 2026 antes do jogo contra o Coritiba, com minutagem crescente a cada rodada.

O problema que surgiu após o apito final, porém, introduz uma nova variável na equação. Neymar sentiu dores na panturrilha direita depois de uma entrada sofrida no segundo tempo — um sinal amarelo, não vermelho, mas suficiente para que o Santos já cogite preservá-lo do jogo de quarta-feira contra o San Lorenzo, pela Copa Sul-Americana. A tendência, caso a convocação seja confirmada na lista divulgada nesta segunda-feira, é que o camisa 10 siga diretamente a programação da Seleção e não volte a atuar pelo clube no semestre.

"Cheguei inteiro até onde eu queria, fico feliz pelo meu rendimento, por tudo o que fiz até agora. Que seja o Deus quiser. Independentemente do que for acontecer, com certeza o Ancelotti convocará os 26 melhores para essa guerra", completou o atacante.

A frase final — "os 26 melhores para essa guerra" — é politicamente inteligente. Neymar não se coloca como convocação automática, o que seria indefensável diante do histórico recente. Mas também não demonstra dúvida sobre seu próprio estado físico, que é exatamente o ponto que Ancelotti precisava ver resolvido.

O que muda no panorama da Seleção se Neymar for convocado

A Copa do Mundo começa em junho, e o Brasil estreia com um grupo que exige consistência tática antes de qualquer individualidade. Ancelotti construiu uma Seleção mais coletiva do que as últimas versões do ciclo Tite — o que significa que Neymar, se convocado, precisará aceitar um papel diferente do que exerceu em 2014 e 2022. Não há espaço para um camisa 10 que exija o jogo girando ao seu redor; há espaço para um jogador experiente que produza em espaços reduzidos e gerencie sua intensidade ao longo dos 90 minutos.

O dado que Ancelotti tem na mesa é concreto: nos últimos cinco jogos pelo Santos, Neymar participou diretamente de 4 gols — entre assistências e finalizações convertidas — o que representa mais do que o dobro da contribuição ofensiva direta de qualquer outro meia da equipe no mesmo período. Não é o Neymar de 2017, mas é um jogador funcional em nível de Série A, o que já é suficiente para justificar uma vaga entre os 26.

A dor na panturrilha, no entanto, — surgida justamente no jogo que deveria ser o argumento final pela convocação — é o tipo de detalhe que pode fazer Ancelotti hesitar nas últimas horas antes de fechar a lista. O técnico italiano já demonstrou ao longo da temporada que não abre exceções por nome: cortou jogadores titulares de grandes clubes europeus quando o departamento médico da CBF sinalizou risco. Neymar sabe disso. Por isso a jaqueta verde e amarela, por isso o discurso cuidadoso na zona mista, por isso o sorriso calculado diante das câmeras.

A lista de convocados de Ancelotti será divulgada nesta segunda-feira, 1º de junho. Se o nome de Neymar aparecer entre os 26, o Santos deve organizar uma ação de despedida para o ídolo que voltou ao clube com uma missão específica — e a cumpriu, ao menos nos critérios que dependiam dele. O próximo teste, agora, será no gramado da Copa, não mais no de Vila Belmiro.