Não, Cody Gakpo não é o atacante mais letal da Holanda nesta Copa do Mundo. Essa distinção pertence a um mecanismo, não a um homem: é a diagonal cruzada, a jogada que nasce num corredor lateral, atravessa a área em velocidade e encontra um atacante em movimento do lado oposto, que tem feito a seleção holandesa colecionar gols com uma regularidade perturbadora. Gakpo é apenas a expressão mais visível desse sistema. A pergunta que o Brasil precisa responder antes de uma possível oitava de final não é quem parar o camisa 11, mas como desmontar o mecanismo inteiro.

A goleada que revelou um padrão, não uma surpresa

No dia 20 de junho de 2026, em confronto válido pelo Grupo F, a Holanda aplicou 5 a 1 na Suécia e assumiu a liderança isolada da chave. O placar poderia sugerir uma noite de inspiração coletiva, aquela euforia aleatória que o futebol às vezes distribui sem aviso. Mas quem assistiu com atenção viu outra coisa: repetição. O primeiro gol nasceu em circulação rápida pela esquerda, com Gakpo cruzando na diagonal para Brian Brobbey finalizar. O segundo trouxe Denzel Dumfries em profundidade pela direita, cruzamento rasteiro, Brobbey de novo. O terceiro reverteu o ângulo: Brobbey acionou Gakpo, que fechou pelo lado oposto para marcar. Três gols, três variações do mesmo roteiro. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo do torneio, esse padrão já havia aparecido no empate de 2 a 2 com o Japão, na rodada anterior — o que significa que não é improviso, é treinamento.

O 4-2-3-1 de Koeman e a geometria da amplitude

Ronald Koeman organiza sua equipe num 4-2-3-1 que em determinados momentos da partida migra para um 4-3-3, sem abrir mão da ideia central: amplitude máxima, chegada rápida à área pelos extremos. O meio-campo formado por Frenkie de Jong, Tijjani Reijnders e Ryan Gravenberch tem a função de conectar setores e acelerar transições — mas não é ali que os gols aparecem. É nas pontas. Há algo de xadrez soviético nessa construção: cada peça existe para liberar outra, e o sacrifício do controle central garante o desequilíbrio nas extremidades. Quem leu o clássico Inverting the Pyramid, de Jonathan Wilson, reconhece nesse desenho uma variação contemporânea de algo que a escola holandesa sempre soube fazer — usar a largura do campo como arma primária, não como recurso.

"Queremos explorar os espaços entre os defensores laterais e os zagueiros centrais adversários. Quando conseguimos circular rápido, essa área fica exposta", disse Koeman em coletiva após a goleada sobre a Suécia, sintetizando com precisão cirúrgica o que seu time vem executando em campo.

As fragilidades que a Holanda não escondeu

A narrativa de uma equipe dominante costuma ocultar os buracos. Em dois jogos na Copa do Mundo, a seleção holandesa sofreu três gols — dois deles contra o Japão, numa partida que terminou empatada em 2 a 2 e expôs o goleiro Bart Verbruggen a críticas severas. O arqueiro de 22 anos, que defende o Brighton na Premier League, foi questionado por não ter reagido adequadamente em finalizações consideradas defensáveis pela imprensa europeia. Contra a Suécia, o gol sofrido veio de bola parada, circunstância que também preocupa: a Holanda não tem apresentado solidez defensiva em cobranças de escanteio e faltas. Para uma seleção brasileira que conta com Rodrygo, Vinicius Jr. e Raphinha entre os batedores de bola parada, esse dado não é irrelevante.

"A gente sofreu gols que não devíamos ter sofrido. Precisamos melhorar nessa parte, especialmente nas bolas aéreas", admitiu Virgil van Dijk, capitão holandês, após o empate com o Japão — uma confissão que os adversários futuros certamente anotaram.

O que o Brasil precisa resolver antes de cruzar com a Laranja

A seleção brasileira chega a um possível confronto nas oitavas com instabilidades defensivas exatamente nas regiões que a Holanda mais explora. Pela direita, houve improvisação com Ibañez antes de Danilo assumir a titularidade; pela esquerda, Douglas Santos e Alex Sandro disputam a posição sem que nenhum dos dois tenha convencido de forma definitiva. Essa indefinição nas laterais é, em termos práticos, o convite que o sistema de Koeman precisa para funcionar. A diagonal cruzada holandesa só encontra resistência quando os laterais adversários conseguem bloquear o cruzamento na origem ou quando os zagueiros centrais têm velocidade suficiente para cobrir a área. Nos dois jogos do Brasil na fase de grupos, esse requisito ainda não foi preenchido com conforto.

O confronto, caso se confirme nas oitavas, terá como pano de fundo uma história de respeito mútuo e raros encontros decisivos. A última vez que Brasil e Holanda se cruzaram em Copa do Mundo foi nas semifinais de 2014, em Brasília, quando os holandeses venceram por 3 a 0 numa partida que selou o naufrágio brasileiro naquele torneio. Doze anos depois, as circunstâncias são outras — mas o aviso emitido pela goleada de 5 a 1 sobre a Suécia merece ser lido com atenção. O Brasil volta a campo na terceira rodada da fase de grupos na próxima quinta-feira, 25 de junho, e uma vitória com solidez defensiva seria o melhor ensaio possível para o que pode vir na sequência.

Não, Cody Gakpo não é o atacante mais letal da Holanda nesta Copa do Mundo. Mas depois de ler esta análise, talvez o Brasil seja o time que mais precisa acreditar nisso.