Diz-se que vistos são apenas papelada. Na verdade, não são — e o que está acontecendo com o Irã às vésperas da Copa do Mundo prova isso com uma clareza desconcertante. A seleção iraniana embarca neste sábado para Tijuana, no México, a poucos quilômetros da fronteira com os Estados Unidos, mas sem autorização formal para cruzar essa mesma fronteira — onde disputará os três jogos da fase de grupos do Mundial.
Reparemos no detalhe: o número que sintetiza a situação é três. Três partidas programadas em solo norte-americano — contra Nova Zelândia e Bélgica, em Los Angeles, e contra o Egito, em Seattle — e zero vistos aprovados para os jogadores entrarem nos EUA. É essa aritmética que transforma uma questão administrativa em crise diplomática com potencial de contaminar a maior competição esportiva do planeta.
A fronteira que o futebol ainda não atravessou
A Federação Iraniana de Futebol confirmou que todos os membros da delegação obtiveram vistos para o México, resolvendo ao menos a etapa imediata da logística. A escolha de Tijuana como sede de concentração não foi casual: a cidade faz divisa direta com San Diego, na Califórnia, o que permitiria deslocamentos rápidos para Los Angeles em caso de regularização dos vistos norte-americanos. Originalmente, o plano era instalar a equipe em Tucson, no Arizona — território americano —, mas a escalada das tensões diplomáticas inviabilizou a opção.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, foi direto ao expor a posição de Washington sobre o tema:
"Não temos problemas com os atletas, como já dissemos antes, ou com a comissão técnica. Mas o que não vamos permitir é que eles coloquem dentro da delegação pessoas que nós sabemos que não têm relação com os atletas e estão ligadas ao IRGC [Guarda Revolucionária do Irã] ou algo dessa natureza. Então, nós já iríamos acompanhar isso de muito perto, e vamos continuar acompanhando, mas, em geral, não prevejo esse problema com nenhum outro país."
A declaração de Rubio mapeia com precisão o nó do problema: os EUA não se opõem formalmente à participação iraniana, mas condicionam os vistos a uma triagem de segurança que vai além do protocolo esportivo habitual. A Guarda Revolucionária Islâmica, conhecida pela sigla IRGC, está sob sanções americanas, e Washington teme que membros ou colaboradores do organismo utilizem a Copa como cobertura para circular em território norte-americano.
Décadas de hostilidade num corredor estreito como pulmão de tatu
Para compreender por que a emissão de um visto esportivo se transforma num impasse de semanas, é necessário recuar até 1979, quando a Revolução Islâmica rompeu as relações diplomáticas entre Teerã e Washington. Desde então, os dois países operam sem embaixadas recíprocas — os interesses iranianos nos EUA são representados pela Seção de Interesses da Suíça, e os americanos no Irã pela Seção de Interesses do Paquistão. Qualquer pedido de visto percorre esse corredor estreito, burocrático e politicamente carregado.
O contexto de 2026 agrava a equação. Os conflitos recentes no Oriente Médio, nos quais forças apoiadas pelo Irã estiveram diretamente envolvidas em confrontos com interesses norte-americanos, endureceram a postura de Washington. A seleção iraniana, que se classificou para o Mundial após campanha sólida nas eliminatórias asiáticas, paga o preço de uma rivalidade que não tem origem no futebol e não encontra solução dentro dele.
Historicamente, os encontros entre as duas seleções carregam peso simbólico desproporcional ao placar. O clássico da Copa de 1998, na França, quando o Irã venceu os EUA por 2 a 1 num jogo que precedeu apertos de mão e trocas de flores, tornou-se referência sobre como o esporte pode criar janelas de distensão — mas também sobre como essas janelas se fecham rapidamente quando a política retoma o controle.
O que acontece se os vistos não saírem antes da estreia
A seleção iraniana está atualmente em Antalya, na Turquia, onde encerrou a preparação com um amistoso de portões fechados contra o Mali — o último teste antes do Mundial. A partida serviu ao técnico para ajustes finais num grupo que, conforme apontado em reportagem publicada pelo SportNavo, enfrenta a Copa com o agravante de uma preparação logisticamente fragmentada.
A FIFA, que tem obrigação contratual de garantir condições de participação a todas as 48 seleções classificadas, monitora o caso com atenção crescente. A entidade já sinalizou em comunicados anteriores que trabalhará junto às autoridades norte-americanas para assegurar o acesso das delegações — mas não tem poder soberano para emitir vistos em substituição ao governo americano.
O cenário mais provável, segundo fontes diplomáticas consultadas por veículos especializados, é que os vistos sejam emitidos de forma restrita e individualizada, com cada membro da delegação submetido a verificação separada. Isso implicaria deslocamentos entre Tijuana e Los Angeles apenas após aprovação caso a caso — um processo que, dependendo do ritmo das autoridades americanas, pode se arrastar até dias antes da estreia iraniana no Grupo G.
O Irã entra em campo pela primeira vez no Mundial contra a Nova Zelândia, em Los Angeles. A data e o local já estão definidos pela FIFA. O que ainda não está definido é se os jogadores iranianos conseguirão chegar até lá.









