— Cara, a Bélgica teve 70% de posse e não fez um gol sequer.
— E ainda jogou 30 minutos com um a mais.
— Pois é. Esse goleiro iraniano é absurdo.

Esse diálogo aconteceu em bares de todo o Brasil neste domingo, 21 de junho, depois que o Copa do Mundo entregou mais um 0 a 0 que valeu muito mais do que parece. O Irã empatou com a Bélgica em Los Angeles e chegou a dois pontos no Grupo G — algo que, segundo o técnico Amir Ghalenoei, entrará para a história do futebol iraniano.

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A Bélgica dominou — e foi exatamente isso que o Irã queria

A interpretação mais imediata do jogo é que a Bélgica desperdiçou uma oportunidade de ouro: 70% de posse de bola, vários cruzamentos, finalizações no alvo, e ainda ganhou um jogador a mais após a expulsão de Ngoy aos 60 minutos. Rudi Garcia resumiu a frustração sem rodeios:

"Esperava um jogo duro. Mas nos faltou eficiência, claro. Afinal, tivemos perto de 70% de posse de bola. Cruzamos muito, finalizamos bastante. Acertamos o alvo, mas não o suficiente."

Mas a leitura que ignora a estratégia iraniana é incompleta. O Irã não estava apenas sobrevivendo — estava executando um plano. A seleção iraniana operou com um bloco defensivo baixo e compacto, o que se traduz em um PPDA (passes permitidos por ação defensiva) altíssimo para a Bélgica: a equipe belga circulava a bola livremente no campo adversário, mas encontrava um corredor de 30 metros de profundidade praticamente intransponível quando tentava penetrar na área.

Em termos de xG (expected goals), a Bélgica acumulou chances de qualidade razoável ao longo dos 90 minutos, mas a maior parte das finalizações veio de posições periféricas ou após cruzamentos defendidos por Beiranvand. O xG iraniano, por sua vez, veio concentrado nos contra-ataques — poucos, mas perigosos o suficiente para assustar a defesa belga.

Beiranvand e o bloqueio que a Bélgica não soube romper

Sete defesas. Esse é o número que resume a noite de Alireza Beiranvand, e seria injusto chamar de era — mas é uma era em escala de uma partida de Copa do Mundo. O goleiro de 32 anos foi o pilar que impediu o colapso iraniano, especialmente nos 30 minutos finais, quando a Bélgica pressionou com um jogador a mais e a equipe asiática precisou recuar ainda mais o bloco defensivo.

Ghalenoei não poupou elogios ao arqueiro:

"Esses jogadores estão dando tudo de si e jogando com o coração. A história e as futuras gerações vão se lembrar deles."

Do ponto de vista das defensive actions — que incluem bloqueios, interceptações e duelos defensivos ganhos — o Irã apresentou uma densidade impressionante na zona central. Os zagueiros iranianos praticamente eliminaram os progressive passes belgas em direção à área: a Bélgica conseguia progredir até a meia-lua, mas raramente chegava ao espaço entre a linha defensiva e o goleiro com qualidade suficiente para finalizar em situação limpa.

Para comparar: times que defendem com bloco baixo e saem no contra-ataque costumam conceder xG acima de 1.5 quando enfrentam seleções de alto nível com um jogador a mais. O Irã manteve esse número controlado, o que é estatisticamente notável dado o contexto.

Dois pontos, condições de guerra e o que ainda está em jogo

A contra-leitura que precisa ser feita é esta: o Irã chegou à Copa do Mundo nas piores condições possíveis. Ghalenoei descreveu um cenário difícil de imaginar para qualquer seleção europeia:

"Quero voltar seis meses no tempo. Estivemos em condições de guerra por seis meses. Nosso campeonato nacional não estava em andamento. Muitas seleções cancelaram os jogos que disputariam contra nós. Chegamos à Copa do Mundo nas piores condições possíveis."

Menos de 16 horas de treino antes do jogo contra a Bélgica. Atrasos em vistos. Amistosos cancelados. A equipe teve que dormir em Tijuana, no México, antes de viajar para Los Angeles. Nesse contexto, dois pontos em dois jogos não é apenas um resultado — é uma declaração coletiva de resiliência.

A síntese do jogo, então, pesa os dois lados: a Bélgica foi superior em posse e criação, mas o futebol não premia só quem domina — premia quem converte. E o Irã entendeu isso melhor do que qualquer modelo tático poderia prever. O bloco defensivo iraniano não foi sorte; foi escolha. A expulsão de Ngoy complicou os planos belgas, mas a estrutura iraniana já estava preparada para absorver pressão muito antes disso.

Agora o Grupo G fica assim: Bélgica precisa vencer a Nova Zelândia na última rodada para não correr risco de eliminação precoce — o que seria uma das maiores decepções da Copa. O Irã, com dois pontos, enfrenta o Egito na sexta-feira, em Seattle, com a chance real de avançar de fase pela primeira vez em décadas. É como uma receita que começou com os ingredientes errados, temperatura instável e sem o equipamento adequado — e mesmo assim o prato ficou de pé, firme, pronto para a próxima etapa.