75 minutos. Foi o tempo que Takefusa Kubo ficou em campo no primeiro jogo do Japão na Copa do Mundo de 2026 antes de sair carregado em uma cadeira de rodas após dividida com Denzel Dumfries, zagueiro holandês. O choque joelho a joelho no estádio de Dallas, no empate em 2 a 2 com a Holanda no dia 15 de junho, confirmou-se nos exames de imagem: ressonância magnética detectou lesão no joelho esquerdo, e os veículos japoneses Nikkan Sports e Chunichi Sports foram unânimes ao noticiar, em 18 de junho, que a participação do camisa 10 nos dois jogos restantes da fase de grupos é praticamente nula. O Japão enfrenta a Tunísia neste domingo, 21 de junho, às 6h de Brasília, e a Suécia no dia 26 — precisando de ao menos uma vitória para avançar.
"Não sei bem o que aconteceu. Acho que me acertaram de todos os lados", disse Kubo a repórteres logo após a partida contra a Holanda.
A Copa que já machucou Kubo antes desta noite em Dallas
Há um precedente perturbador nesta história. Em 18 de janeiro de 2026, Kubo saiu de campo no estádio Anoeta, em San Sebastián, com uma grave lesão muscular sofrida justamente no clássico da Real Sociedad contra o Barcelona — sob o comando do técnico Pellegrino Matarazzo. O jovem de 24 anos ficou fora por mais de três meses, retornou apenas em 26 de março e chegou à Copa do Mundo ainda em processo de readaptação: foi reserva na final da Copa del Rey, quando a Real Sociedad venceu o Atlético de Madrid nos pênaltis. Ou seja, Kubo desembarcou no torneio mundial carregando um histórico de fragilidade física recente que torna a nova lesão ainda mais preocupante para o prognóstico de longo prazo — incluindo uma possível participação nas oitavas de final, caso o Japão avance.
A analogia que vem à mente é a do personagem de Dostoiévski que carrega o peso de uma ferida antiga e, ao primeiro atrito, volta a sangrar. Kubo não é diferente: retornou ao futebol de alto nível sem o ritmo pleno, e o corpo cobrou a conta na hora mais inoportuna.
Não é a primeira vez que o Japão chega a um momento decisivo de Copa do Mundo com seu principal criador de jogadas fora de combate. Em 2022, no Catar, a ausência de Takumi Minamino em alguns momentos do torneio obrigou Hajime Moriyasu a reorganizar o meio-campo — e o Japão ainda assim eliminou a Alemanha e a Espanha na fase de grupos. A diferença agora é que Kubo acumulou 3 assistências nas eliminatórias da Copa e havia se tornado o ponto de referência ofensiva da equipe com uma consistência que Minamino nunca chegou a ter nesta função.
O vazio que Kubo deixa no esquema de Moriyasu
Moriyasu costuma operar com um 4-2-3-1 no qual Kubo atua pela direita do meio-campo ofensivo, com liberdade para cortar para o centro e armar jogadas. Nessa posição, o jogador da Real Sociedad é simultaneamente o finalizador de média distância, o conectivo entre o pivô e os laterais e o gerador de desequilíbrio em espaços reduzidos — um perfil raro no elenco japonês. A ausência dele não é apenas numérica; é estrutural.
Ritsu Doan, que atua pelo Freiburg na Bundesliga e marcou contra a Alemanha em 2022, é a opção mais natural pela direita. Seu estilo é mais direto e veloz, menos calcado na posse e na criação pausada. Daichi Kamada, meia de construção que passou pela Lazio e atualmente está no Atlético de Madrid, oferece mais visão de jogo e capacidade de progressão, podendo ser deslocado para a posição de Kubo com alguma modificação tática. Já Takumi Minamino, experiente e com passagens por Liverpool e Monaco, tende a atuar mais próximo ao centroavante, o que implicaria mudança de função e não apenas de nome na escalação.
Moriyasu tem três perfis distintos à disposição. Nenhum deles é Kubo.
Tunísia e Suécia como termômetro da profundidade japonesa
A Tunísia, adversária deste domingo, chegou à Copa com uma proposta defensiva sólida e transições rápidas — um estilo que historicamente incomoda seleções que dependem de criação elaborada. Contra esse tipo de bloco baixo, Kubo seria especialmente valioso pela capacidade de resolver em espaços curtos. Sem ele, o Japão precisará de maior movimentação coletiva e da eficiência dos laterais, especialmente Hiroki Sakai e Yuto Nagatomo, para criar superioridade numérica nas pontas.
A Suécia, por sua vez, é fisicamente mais robusta e joga com intensidade alta na pressão. Ali, a velocidade de Doan pode ser mais útil do que a técnica de Kamada. Moriyasu provavelmente terá de adaptar o plano a cada adversário, o que exige uma versatilidade tática que o treinador de 55 anos demonstrou em 2022, mas que será testada agora em circunstâncias mais adversas.
Em matéria do SportNavo publicada anteriormente, foi detalhado como o Grupo F se tornou um dos mais equilibrados desta edição da Copa — e o contexto não mudou. Japão, Holanda, Tunísia e Suécia estão separados por detalhes, o que significa que uma derrota pode significar eliminação.

A aposta japonesa em profundidade de elenco
O Japão de 2026 não é o Japão de 2018, quando a ausência de um jogador-chave poderia desestruturar toda a equipe. Moriyasu construiu ao longo dos últimos quatro anos um elenco com múltiplos perfis ofensivos — algo que o próprio técnico fez questão de ressaltar durante as eliminatórias asiáticas. O grupo tem jogadores atuando em ligas de alto nível na Europa, e a profundidade do meio-campo é genuína.
Ainda assim, Kubo acumulou 3 assistências nas eliminatórias e foi o jogador com mais participações diretas em gols da seleção no ciclo. Kamada pode assumir a armação, Doan pode ser o desequilíbrio pela velocidade, e Minamino pode conectar linhas — mas nenhum deles reúne as três funções em um único perfil como o jogador da Real Sociedad faz. O Japão tem condições de avançar sem Kubo. Mas avançará com uma engrenagem que precisa de ajuste.
O primeiro teste acontece neste domingo, às 6h de Brasília, no confronto com a Tunísia. Uma vitória coloca o Japão em posição confortável antes do duelo final contra a Suécia, marcado para 26 de junho. Qualquer resultado diferente transforma o grupo em uma disputa de seis pontos na última rodada — e a ausência de Kubo pesará cada vez mais conforme o torneio avança.








